Frances Ha, a vida na era da propriedade privada

Todo texto guarda uma motivação egoísta. Há os poemas prontos para seduzir, os panfletos políticos, autoconvecimento, reafirmações, o gozo com a linguagem… Quase tudo que escrevo vem dessa necessidade de firmar em matéria – caneta encostando no papel cada sílaba até formar o significado – o que eu aprendo distraída. Esse texto vem de um lugar bem óbvio, sua mensagem está há anos no telefone sem fio da civilização, poderia escrever um guia para sair na revista entre as receitas e técnicas de emagrecimento. O que está na cara, o que vem como moral, dica, conselho, mantra, nunca adere. de que adianta, então, eu falar? Tentativa (arrogância – necessária) de ser um degrauzinho na percepção, de que eu não descreva minha verdade, mas que eu a perca e busque e pratique o exercício que é a aprendizagem.

Que o amor deve ser livre, que a posse nos torna mesquinhos e que a vida está do lado de fora, abundante de feridas, pedras e rosas-paralelepípedos, são obviedades repetidas há mais de meio século.

E no entanto, em 2013, estabelecimentos da Lapa me cobram até dois reais para usar o vazo sanitário.

A propriedade privada não é cruel apenas em limites geográficos, mas também nos determina no que é emocional. Edifícios, fones, aplicativos e relacionamentos sérios fazem parte de um mesmo projeto de mundo (e cada um guarda sua própria maravilha).
Dois filmes carregam essas questões, os dois são fábulas contemporâneas: Medianeras e Frances Ha. Enquanto o primeiro tem um tom de denúncia-tentativa e usa o problema dos limites territoriais para aludir à reclusão crescente em um mundo individualista, o segundo percorre, sem narrativa ou discurso crítico, uma história que ocorre todos os dias em diferentes graus.

A história de Frances Ha é a história da perda das propriedades privadas. Frances tem uma vida mais ou menos legal, mais ou menos frustrante, mas ela tem uma vida. Até que a ordem começa a despencar: primeiro ela perde o namorado (mas isso não tem muita importância na verdade)¹, depois ela perde o apartamento (aí sim, uma problema real), depois ela perde a melhor amiga, o fim do mundo, então, ela encontra um novo apartamento, mas perde o emprego e com isso perde de novo o apartamento. Tudo o que ocorre na trama é em função dessas posses que estruturam a vida de Frances: minha melhor amiga, meu apartamento, meu emprego. Obviamente não são perdas nem um pouco fúteis, mas neste cado nada é de uma gravidade alarmante: Frances é uma loirinha de 27 anos, instruída, com pais presentes em casa própria (mas que moram longe do sonho juvenil que é Nova Iorque) e inúmeras possibilidades de empregos que pagam a conta embora sejam extremamente desinteressantes. Então por que Frances Ha existe? Por que entramos em uma sala de cinema (com nossas lugares assegurados no momento da compra) para nos comover com a história desse filme?

Há uma cena decisiva que pode justificar ou não o filme. É essa cena que defini quem vai amar Frances Ha e quem vai esquecer. Frances está no ápice das perdas quando vai jantar no apartamento de um casal que tem, tem a fábula completa: não só um apartamento, mas dois, em Nova Iorque e em Paris, propriedade, amor, emprego, sucesso, filhos. Frances não tem nada, nem uma ambição para se afirmar. Um tanto fora de si – pelo contraste, pelo álcool -, ela diz, em um tom que vai do adorável ao maníaco, o que deseja: o que Frances quer para sua vida é um momento, um momento – desses de filme – em que ela está numa festa conversando com algumas pessoas e o seu amor também está nessa festa conversando com outras pessoas, então eles trocam um olhar, um olhar que é um elo, uma confissão, um refúgio. Frances não quer encontrar só essa pessoa, mas o olhar dela que vai infiltrar um ambiente público com uma segurança privada. Não é só o amor, mas o abrigo que este pode ser.

Frances Ha não é apenas a história da perda das propriedades privadas, mas da era em que a vida só se sustenta nesse âmbito. É preciso amar, é preciso ser, é preciso ter: as pessoas, o trabalho, a casa, a narrativa sempre em primeira pessoa. Quando a vida é ressignificada a partir do privado nos tornamos mais propensos à neurose, às tempestades em copo d’água e desejos anêmicos. A classe média sofre, não adianta debochar de sua dor, antes de menosprezar, ir até o sintoma que está na nossa comoção (no cinema, nas formaturas, nos matrimônios, academias, lojas de departamento) e encarar que as angústias passíveis ao ridículo são o berço dos horrores reais.

O capitalismo, como esses filmes, também é feito de fábula; toda mercadoria ocupa uma função exata em cada narrativa.
O amor tem lugar para você?

[1] É interessante que há uma nova geração de mulheres produzindo séries e filmes nos quais o amor romântico não é a questão central das protagonistas. Embora a ausência de uma preocupação quanto a ter ou não um namorado seja um avanço em termos de gênero (é ótimo ver uma personagem que nem faz uso  da palavra relacionamento e muito menos casamento), isto não significa que Frances não tenha uma postura que romantiza a vida.  Além disso, é óbvio que a segurança de ser amada recai sobre sua melhor amiga de modo que é só uma transação de posses e não uma transformação definitiva (e feminismo é mais interessante quando busca uma mudança da estrutura patriarcal).

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Existe uma solidão libertadora. Quando estou longe de todos que me conhecem e supõem, posso não ser, observar o mundo sem impor minha identidade, história, hábitos. Acho que gosto de viajar sozinha por isso. Meu bairro é de um silêncio eterno – mesmo quando os carros buzinam – é um lugar que inspira distância. Embora isso já tenha me causado uma clausura doentia, agora é de outra forma. Existe uma solidão perigosa que diminui a vida. Sempre vou ter medo da depressão, porque quem entrou nessa sabe o quanto é difícil criar uma saída. Mas agora é como se sozinha eu pudesse fazer mais parte do mundo. Como se, finalmente, tivesse reconhecido meu lugar. Não é tão adorável quanto estar com os outros e se distrair em si mesma. É um pouco forte. Exige uma percepção que arrebata. É difícil querer pouco, não ter nada a contar, nenhuma história e expectativa. Mas eu não cedo mais as demandas que não são minhas. A presença das coisas me basta absurdamente. Porque acolhi minha solidão, agora pertenço ao mundo. A rádio todo dia me convoca a participar de uma comunhão invisível. Me agradam todos os clichês, as vozes forçadas, os enunciados, as músicas ruins e necessárias, a arrogância jovem, as banalidades irresistíveis. São esses pedaços, longes de mim, que me sustentam.

Só a sororidade salva

Sex and the city foi uma série muito importante na minha formação. Antes dela não existia, na minha vida de adolescente, mulheres que falavam sobre sexo abertamente. Era, no mínimo, pedagógico. Sou grata ao seriado mesmo que ele tenha se transformado em algo… estranho (ainda considero a primeira temporada uma pérola da TV). Aquelas quatro mulheres foram minhas companheiras quando eu não entendia nada sobre sexo e tudo dizia que só existia um tipo de final feliz. Com 14 anos eu já era feminista, mas me faltava noção de muitas coisas – provavelmente ainda falta -, mas algumas convicções me salvavam a vida. A série me ensinou sobre possibilidades, de repente descobri que podia me masturbar, ser feliz solteira, ter cabelo cacheado e volumoso (uma noção preciosa em plena era das escovas progressivas), ser uma escritora, transar no primeiro encontro, usar roupas de gosto questionável se eu gostar e por aí… Tudo isso foi muito importante. Mas uma coisa a série não me ensinou: amor próprio e sororidade.

Embora a série seja sobre amizade, é muito mais sobre homens. Não existe nem um episódio em que as personagens estão lá, de boa, usando pijama, comendo bobeira e conversando, sei lá, sobre a vida1. Elas conversam sobre homens a maior parte do tempo. Mas isso não é o pior, o que só agora posso reparar é como esses homens falam sobre elas. O episódio que foi mais marcante para mim é o último da segunda temporada em que Carrie, inspirada por “The way we were”, tem uma epifania e conclui que o mundo é dividido entre as Katie girl e as simple girl. Essa epfinania bateu em mim tão forte que preciso até hoje me forçar para entender o básico: não existem tipos de garotas, existem pessoas, algumas compartilham o mesmo gênero e, portanto, a mesma opressão, nesse caso, elas são, sobretudo, suas irmãs. Em sex and the city não existe sororidade, porque não existe nem amor próprio. O contexto desse episódio é o seguinte: Carrie está tentando se recuperar de Big, seu ex-namorado, que foi morar na França, mas não com muito sucesso até que descobre que ele está noivo. Então, Carrie se apoia em “The way we were” para criar a teoria que salva os resquícios de sua autoestima. É claro que a noiva é considerada a simple girl, sem graça, perfeitinha, inexpressiva, calada. Carrie é a Katie Girl, com cabelos, roupas, ideias e voz expressivos, quase berrantes. É assim que Carrie divide o mundo entre as garotas cor de bege, verdadeiras pamonhas, e as garotas interessantes, aventureiras e livres. Só a partir dessa comparação que ela pode se afirmar como superior. Justamente por isso fica evidente que Carrie não é livre, ela sofre uma opressão que lhe faz dependente da escolha de um homem. Porque é com base na decisão de Big que ela se sente rejeitada e inferior. Enquanto tenta se salvar, ela reproduz o discurso opressor que separa as mulheres entre as vadias e as que são para casar; só que, nesse caso, afirmando que as que são para casar são umas verdadeiras otárias inferiores. Nada disso eu poderia perceber aos 15 anos, porque, assim como Carie, precisava desesperadamente de qualquer discurso para me afirmar. Precisava dizer que eu era livre e as outras eram mesquinhas, porque ainda não conseguia localizar de onde vinha minha opressão. Até hoje, em momentos escrotos, me pego dizendo “Nossa, mas aquela menina é tão sem graça, o que ele viu nela?”. Até pouco tempo tentava caber nesse papel de garota descolada que quer viver todo tipo de emoção e treta. Era frustrante quando percebia que não sou tão diferente das que suponha como as outras, porque também quero coisas simples como ser amada e mansamente feliz.

Foram necessárias muitas experiências ruins para alcançar algum autoconhecimento, para então, a partir da amizade que construí com algumas mulheres, curar esses erros e descobrir que a sororidade é o primeiro passo para sermos livres. O que só entendo agora é que não basta ser feminista para garantir meus direitos individuais; é preciso mudar a lógica, destruir o patriarcado que existe por dentro, limitando cada uma de nós. Porque vivemos em um mundo com mais direito para as mulheres, mas que ainda demanda que nossas vidas girem em torno de outros desejos. Não somos ensinadas a ter amor próprio e confiança, somos destinadas a ser amáveis ou desejadas; e é em função dessa cobrança que ainda competimos. Por isso que a sororidade é um conceito vital, é onde existe a verdadeira força do feminismo. Enquanto vivemos em uma sociedade que estimula a rivalidade entre mulheres, investimos em nos odiar. Quando nos dividimos, estamos reforçando o discurso opressor que dá ao nosso gênero uma série de demandas. Enquanto não olharmos uma para outra como amigas, não poderemos nos encarar no espelho com respeito e afeto. A cobrança, os esteriótipos e a competição nos reduzem e gritam que vivemos em função de algo que não é sobre nós. Só seremos livres quando reinvindicarmos o nosso desejo e formos primeiramente amigas. Eu não sou um tipo, eu sou mais uma garota.

1Para ver esse tipo de cena assista Broad City, melhor série sobre amizade entre mulheres.

a solução é desistir

Clausura

Nasci. Haveria de estar
preparado para a vida, mas
continuo na sala de espera.
Quem abrirá esta porta?
Que continente ou que
cidade se descortina
além da laje dos meus olhos?
Sugestões me fascinam
mas a visão ceifada
não alcança outra margem.
A mão trêmula se
confunde, e torna baixa
a um beijo, um chamado
de estreita possibilidade.
Estamos prestes a marchar
mas o inimigo é escasso
e destrói nossos anseios.
De novo uma tentativa, outra
e outras tantas,
que o presente absorve o ódio,
o orgulho, o afago:
O tempo é de conformação.
No escuro formulamos
a sentença e o sorriso
que haverão de romper
o medo. Projetamos
nossas forças e arrepios
além das graves paredes.
Gastamos fardos de sonhos,
trigo e confissões:
Engravidamos a mente,
no escuro preparamos.
Mas ao primeiro lampejo
das matizes da manhã,
de novo nos corrompemos
e voa nossa esplanada
e nossa razão premente
em forma de anel extinto.
Perguntamos:
Até quando?

Cacaso (1964)

Parece que escrevo sempre sobre a mesma coisa. Não importa o formato do texto, pode ser minha monografia, poesia ou um ensaio. Talvez não seja exatamente o mesmo tema, acho que é uma vontade que permanece. Acho que ainda não sou uma escritora muito boa – ou a que eu pretendo ser – porque ainda tenho uma moral; eu tento afirmar. Esse texto nasceu em mais um momento em que buscava uma solução.
Eu só tenho 23 anos e como a maioria dos meus amigos estou tentando dar um sentido (o que é uma solução) para minha vida. Vivemos esse período em que não somos mais adolescentes, mas também não somos adultos, há muitas possibilidades e junto com ela o peso das decisões. Basicamente vivemos entre a ansiedade e a angústia tentando ser quem somos. Eu já escrevi sobre isso, sobre esse ser exatamente o que a gente é que nos leva além. Mas eu ainda preciso me repetir. A minha vontade, essa que se faz presente no que estudo e escrevo, é mostrar que esse eu é feito de uma materialidade. Cada um de nós não somos feitos, mas estamos sendo em um processo muito antigo e inacabado. Mais claramente: todas nossas necessidades e possíveis frustrações são construídas em nosso tempo, nada é destino ou essência.
Porque é possível dar uma outra solução para a vida. Eu poderia me preocupar exclusivamente com a existência enquanto um projeto separado do mundo. E é mais ou menos isso que fazemos quando somos possuído por essa angústia. A maioria das vezes em que sofremos é por nos sentirmos muito especiais, é por não sabermos contextualizar nossas necessidades – a depressão pode ser um tipo de narcisismo. É importante que eu enfatize: esse “nós” se dirige aos meus amigos, a esses jovens privilegiados que ainda assim passam por tantos problemas. Não quero parecer que estou relativizando a dor ou dizendo que as dificuldades pessoais são sempre superáveis, não pretendo ser autoajuda, eu acho. É nesse caso, nesse tipo de clausura em que nós mesmos nos metemos. Porque há uma diferença entre a dificuldade de um jovem negro e pobre que cresceu na favela e a nossa dificuldade, quase risível, mas fruto de um mesmo processo que condena a todos a uma realidade estreita. É que o nosso caso, dos jovens privilegiados, a dor tem muito mais o peso das crenças do que da materialidade.
A ideia de juventude como qualquer construção social é formada por normas, suposições e mentiras repetidas até se tornarem fato. O erro começa quando acreditamos, quando nos apegamos às generalizações e assumimos uma identidade. É a partir disso que começam as cobranças e pressões desnecessárias. Porque então supomos que é assim, que sempre foi assim e aceitamos como imutável essa coisa tão facilmente montável a que chamamos de realidade. E é difícil não se resignar com o conforto de ser igual as personagens de Girls (ou não porque qualquer pessoa com vontade de ser melhor não pode ficar tranquila com esse tipo de comparação) ou de fazer parte de uma geração.
Até agora a única solução foi desistir. Desistir da identidade, da predestinação, de encontrar a verdade, dos romances de geração ou formação (e a Fenomenologia do Espírito é um deles). Desistir como um modo de assumir o descontrole que impera no mundo. Assumir uma relação com uma outra angústia que permita criar algo além de voltas sobre si mesma, um mar aberto em vez de redemoinhos. O universo é indiferente às nossas histórias como motoristas de ônibus cariocas que ignoram o seu sinal. Nossos corpos estão para sempre perdidos em toxinas, é tudo absurdamente sem solução ou finalidade, então por que ainda insistimos em encontrar essa tolice que chamamos de “si mesmo”?
A solução só pode ser se engajar no mundo em todo seu conflito. A data do poema diz muito sobre a matéria da clausura.

porque ainda te encontro nos meus livros

Você nunca segurou minha mão. Sempre quis amiga a relação, sem limites ou amor. Você é desses que diz “admiração”, “competência”, “companheirismo. Eu não. Eu “paixão”, eu “pra caralho”, eu “pra vida toda”. Seja amigo, seja foda. Se bem que não, mais amigo do que foda. Você nenhuma das opções: destino. Porque era antes, então palavras bocós de tão ingenuas. Porque lá – no mesmo bar que passou há uma semana sem me tocar – quando você me dizia que era inédito esse lance de olhos impossíveis, era antes. Arrependimento é tão descabido quanto apostar em predestinação. No fim, vivi mesmo a volta ao dia em 80 mundos. Meu vestido vermelho no auge da decadência. Escroto escrever, lembrar e não ter reconhecimento. Só posso ter sido uma louca descabida. Agora sou um tédio. E você, erro que vira mísera historinha. Livre da cristalização do desejo – que admiração é coisa de otário -, é só mais um rapaz fluente na linguagem universitária. Uma mesmice que dá preguiça. Como todo o resto. Aliás, tenho tentado opostos. Não só do sexo, mas de vocação. Quanto mais inocente, melhor. Porque sempre é sobre mim. Tem isso, agora, ser sobre mim, essa dificuldade incontornável (bem que eu tentei ser minha mãe). Talvez fosse assim para você sem laços e afetos fortes. Eu ainda sinto muito. Mas não sou árida, sou até estúpida, oceânica. O que me fere é isso. Eu pedia ritmo, você se interessava pela minha opinião. Tenho cada vez menos. É difícil construir essa unidade “eu”. As células que me habitam não são as mesmas daquele ano. O terrível é isso: passa. O que sobra é ralo. Um suspiro num 433 ou no bar que nunca te levei. Aquele domingo carregava na bolsa distraídos venceremos. Demorou, mas sei de cor.

sobre nascer, violência e narcisismo.

 A história da humanidade é feita de cruéis performances. Mas talvez a mais cruel seja a que nos impõe coerência e estabilidade. Somos obrigados ao sentido, a chamar de vida esse tempo ocupando um corpo – três palavras quase impossíveis de delimitar.

Parece fácil. A cada dia renasce mais forte o aparato que se dispõe a guiar as vontades e os deveres. Até que algo se dái. Algum erro desponta. E o sentido só se mostra enquanto expectativa, enquanto algo que se afasta a cada tentativa. O sentido é nossa grande necessidade – dizem que é o prazer, mas não é, porque mesmo os prazeres recebem uma ordem de linguagem. E nos enrolamos nele a cada manhã em que o mundo, esse real que precisamos ignorar, se intromete no cálculo dos planos.

Porque essa palavra “vontade” também é feita de muitos possíveis e quase nunca condiz com o que se deve. É um impasse antigo. Hoje colocamos em uma economia miúda: por que tudo que é gostoso engorda? e dá-lhe a criação de comidas plásticas sem gordura trans. Algumas mulheres – o inconsciente coletivo nos presenteou com as múltiplas cobranças e o dever das habilidades – conseguem equilibrar o pacote completo: trabalho, academia, pizza com o mozão, capirinha light com as amigas, caminhada com os filhotes. Mente & corpo devidamente cuidados a felicidade vem logo. Até que nunca.

É claro que a maioria é mais dissimulada e enfrenta cotidianamente esse terror imprevisível que é a vontade. Mesmo isso tem sua ordem. O que é uma família se não o que coloca os desvios em uma dinâmica estruturada? As brigas entre pais e filhos são uma repetição incontornávelii. A violência encontra seus meios, ela tem seu espaço guardado nas economias públicas e privadas. A violência só é ignorada no sentido.

A violência que digo não é um tapa – pode ser também, mas não é. A violência é nascer, essa extrema particularidade que logo é destinada a limites universais: ser mulher ou ser homem, ser russa ou ser brasileira, ser pobre ou ser rico. A violência é o completo descaso diante de um recém-nascido, esse ser desnecessário e pedinte. E no entanto é envolvido em amor. Há um tempo que se enfatiza o amor, a necessidade do amor, e enrolam crianças como se fossem bonecas, objetos. Amar é outra coisa, outra coisa incapaz de desviar da violência de que nada naquele outro corpo me diz respeito e que, contudo, eu só faço sentido, só me enuncio eu, em relação a ele. Amar tem mais a ver com um bebê sendo alimentado pela comida mastigada pelo avô.

Esse texto é claramente influenciado pela psicanálise. Mas é sobre literatura, ela que diz em alguns parágrafos uma teoria que demorou anos para se construir. É sobre “Infância” de Górki, um livro escrito no mesmo ano em que Freud escrevia “Introdução ao narcisismo”. Dois livros centenários que dizem muito sobre o lugar em que a humanidade se encontra.

Freud tratava da burguesia. É preciso não esquecer que as condições materiais influenciam decisivamente as estruturas psíquicas – mas o que Freud comprova é que não há escapatória, o dinheiro, ainda não compra a paz de espírito, até por que é isso que se quer? Górki escrevia sobre sua infância miserável. Todas as famílias são perversas, mas quando cada boca é um peso imperativo, a crueldade se torna um meio de sobrevivência.

A contemporaneidade permite que essas duas obras ainda existam em uma força assustadora. A psicanálise foi usada de todas as formas possíveis. Existe um golpe diante da teoria freudiana, como aconteceu com tantos outros pensadores que falaram sobre o bem e a felicidade. Se na idade média os padres liam Aristóteles, hoje todo publicitário (que é sempre um político) precisa conhecer o inconsciente e sua pulsão de morte. Aqui não me interessa ser didática, fazer resenha,explicar obras e autores. Já fiz uma monografia e cada um sabe o que é a infância além da nostalgia. É preciso um pulo para dizer sobre o que é importante agora. A teoria do Eu é a que comanda nosso sentido ocidental capitalista em que o dinheiro é religião e gozar é um dever. A violência (com) que Górki escreve, no entanto, persiste independente do CEP. Por toda cidade, cada casa guarda sua farpa. Independente do dinheiro, mulheres apanham, crianças são feitas de pombo correio e no natal todos se amam como podem. A diferença é que agora até na favela se dá um jeito de ter TV à cabo, facebook e smartphoneiii. Isso definitivamente não nos iguala em dor e possibilidade. Não é questão de correr atrás. Não é investir na educação o que falta. Talvez alguém esteja na rua porque quer, mas ainda falta muito para entender o querer que comanda nossas vidas. Não somos iguais em nada além disso. A violência é estrutural.

A diferença não está no âmago. Mas existe uma diferença essencial sobre o cuidado das crianças. Freud criou uma teoria do narcisismo em que existe o cuidado e o amor dos pais diante da perfeição e da aparente imortalidade do recém-nascido. Mas crianças pobres ainda são fruto apenas de desespero. Cem anos depois, essa teoria da devoção à criança resultou em um a geração millennials que deseja tanto ser especial que não produz nada além de angústias autocentradasiv. As crianças que cresceram com o mundo prometido inevitavelmente precisaram encarar a vida fora dos condomínios, das famílias, das certezas privadas. E ele continua tão violento quanto era em 1914. O sentido agora é especialmente individual. A ilusão que se dá a cada ser humano como um presente de batizado é que ele tem uma história, um lugar a conquistar, ele é especial,15 minutos de fama nem que seja no Esquenta. Dentro disso, cada um faz o que pode, eu escrevo, alguns se tornam traficantes. Somos todos iguais e isso é amargo, não é alívio. Porque ainda não podemos ser iguais. Porque a minha violência é compreensível e um menino do morro é sempre um bandido em potencial – e um bandido, eles dizem, só é bom morto. No horário em que a classe média estiver especialmente agressiva dentro dos seus carros no trânsito da Gávea, Datena ou qualquer um que faz a performance da coerência dará início a um tiroteio. Não há violência maior que essa moral, o discurso de ódio que diz em nome do bem, da felicidade, da Ordem&progresso. Enquanto roda os comerciais, alguém morre, na Rocinha ou em Oslov, pelas mãos da polícia ou do sentido; pelas mãos de um imperativo que corrói  cada corpo jovem.

i Tenho 32 planos.
52 projetos.
30 estruturas perfeitas.
O dia é claro e calmo e tem 24 horas.
De repente chega o desejo e estraga tudo.

(Gonçalo Tavares)

ii Como sempre acontecia nos feriados, comeram de forma cansativa, por muito tempo e em grande quantidade, e parecia não serem as mesmas pessoas que, meia hora antes, berravam umas com as outras, à beira de se atracarem, e que ferviam em lágrimas e soluços. Eu mal podia acreditar que tivessem feito tudo aquilo a sério, que chorar fosse algo doloroso para eles. E as lágrimas, os gritos e todos os tormentos recíprocos, que rebentavam com frequência e extinguiam-se rapidamente, tornavam-se rotineiros para mim, cada vez me afetavam menos, tocavam o coração de maneira cada vez mais fraca.

Muito mais tarde, compreendi que os russos, em razão da indigência e da penúria de sua vida, em geral adoram distrair-se com a própria desgraça, brincam com ela como crianças e raramente se envergonham de ser infelizes.

Na monotonia interminável dos dias úteis, até a desgraça é um feriado, e até um incêndio é uma distração; num rosto vazio, até um arranhão é um enfeite.

(Górki)

iii Criolo que é adorado pela classe média jovem, especialmente a universitária (ou existe outra?), falou sobre isso em um tom que beira o patético, apesar de ser extremamente claro e se tornou objeto de piadas eternas. Aparentemente não entenderam ou não quiseram. É mais legal aproveitar o show e fechar os olhinhos na Lapa depois de gastar 60 reais em um ingresso.

iv A depressão é a doença da minha geração e é muito próxima de uma desistência diante de um mundo que promete todos os prazeres e não cria nenhum querer. Porque querer, desejar, não é contar com a satisfação, é de outra ordem. Nós não estamos acostumados a lidar com esse esforço, não temos fibra pra desviar do sentido, da promessa e ir até onde nada está decidido, é risco e, aí sim, vontade. Minha geração não tem vontade, tem caminhos e entretenimentos disponíveis, não tem vontade, é apegada demais a um sentido, esse de berço, e não consegue querer criar um sentido – porque a questão não é desistir, é desistir deste sentido a que estamos ensimesmados. Nos afundamos em bolor, ninguém nos segura, mas estamos paralisados.

v Oslo é uma cidade conhecida pela sua qualidade de vida e pelo enorme número de suicídios. Oslo, 31 de agosto é um filme sobre depressão, seu vazio, seu silêncio e sua indiferença com a vida. É também um filme sobre viver nem que seja por um dia.

 

Rio de Janeiro, 30 de maio.

Ontem, que dia. Começa como qualquer história, eu estava quietinha na minha casa. Mas eu precisava sair, apesar do trânsito, da vontade de não deixar o conforto, da hesitação diante dos riscos; eu precisava. No caminho, o modo como o sol bate no livro me lembra daquele outro livro e às vezes também decido que vou eu mesma comprar as flores. Alguém diz coisas, muitas que você não entende, algumas que não são do seu interesse, mas dizem, pedem o troco, vendem balas e, embora o meu descontrole, é bom fazer parte: pertencer é viver. Pertencer nem que seja a essa comunidade tão óbvia da cidade Rio de Janeiro (acho que o índice de suicídio ainda é baixo, porque o mar cura). O automático de passar o tempo nas livrarias já conta uma história de ancestrais, mas agora olho mais o celular do que os livros. E entrar no cinema, porque sim. Sem saber a história, sem ler comentários, sem trailer, sem se preparar. Entrar naquela sala, na comunidade da sala 3 do  Estação Botafogo. Eu gosto muito dos velhinhos que frequentam cinemas, era um prato cheio. Não entendo o que motiva esse entretenimento, esse filme, especialmente, chega a ser uma violência. Oslo, 31 de agosto. Rio de Janeiro, 30 de maio. Tem quase 30 dias que eu faço 24 anos, o personagem tem 34. A depressão e o seu reverso. Não posso dizer se vou ou não voltar. Mas agora estou aqui e é bom. Alguém na história precisa morrer para que a vida salte. Minha vida sem mim. Como calcular o impacto de um gesto sobre os outros(o que me inclui)? Não sei se quando mudei de cadeira atrapalhei a visão de quem estava atrás. Sei que uma mulher se incomodou com o barulho que a sacola de papel do meu lanche fazia. No final, amassei tudo com vontade.

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O feminismo é para todos?

 

Tavi Gevinson uma vez disse “O feminismo não é um livro de regras, é uma discussão, uma conversa, um processo”. É porque concordo com essa ideia que faço o esforço de escrever esse texto. Nada do que digo aqui deve ser compreendido como um julgamento, mas como uma avaliação a partir da minha experiência pessoal. Para que isso não soe como um relativismo, talvez seja melhor começar explicando minha compreensão sobre o feminismo. Acredito que o feminismo é – e deve ser – um movimento plural, cheio de conflitos, porque está salvo de uma ideologia e de uma moral. Mas, enquanto feminista, tenho um código ético – que é bem diferente de regras – que passa sobretudo por uma máxima: dar voz às mulheres. Então penso que o feminismo é uma luta plural e sem códigos resolvidos que quer dar voz às mulheres.

figuring out feminism by tavi gevinson

Para mim o feminismo é extremamente importante, porque como mulher sou estimulada a não participar de uma série de experiências que a sociedade julga inapropriada para o meu sexo. Ser feminista é algo antigo no que sou por esse simples e egocêntrico motivo. Muitas mulheres precisam do feminismo por razões muito mais urgentes e hoje tento pensar meu engajamento mais a partir delas do que de mim. No entanto, o feminismo é e sempre será uma luta pessoal em que está em jogo o meu direito de escolher como quero viver. Este texto nasce a partir de um incômodo com as pessoas que confundem o feminismo com um livro de regras ou que não respeitam esse movimento enquanto um processo individual pelo qual cada mulher pode conquistar seu próprio empoderamento.

O feminismo ganhou força nos últimos anos. Essa afirmação pode ser contestável, porque estou falando a partir do que vejo e eu sou uma mulher privilegiada de classe média que mora no Rio de Janeiro e tem acesso (até demais) à internet. Sei que a violência de gênero está firme em muitos lugares do mundo. Mas, com o pouco que a internet consegue, já vejo algumas mudanças. Pelo menos entre eu e minhas amigas há uma indignação mais evidente, não conseguimos mais aturar caladas os assédios cotidianos e essa revolta produz uma união, nos apoiamos. Mas mulheres unidas em uma causa que diz respeito só a elas incomoda, incomoda muito. Junto com essa força vieram inúmeros haters fundamentalistas ou simplesmente babacas que fazem questão de nos ofender em caixas de comentário da internet e na vida real (se é que se pode se fazer essa distinção). É terrível, mas faz parte e é preciso não se abater. Vivemos em um tempo com muitas possibilidades e algumas pessoas, diante do perigo da liberdade, só sabem chamar pelos pais, por uma ordem que diga como o mundo deve ser.

Porém, não só de violência explícita é feita a repressão. Atualmente vejo um número maior de homens que se posicionam a favor do feminismo e isso é, obviamente, ótimo. No entanto, frequentemente esse apoio vem junto com ressalvas. Aí já não sei se alguns homens estão apenas confusos, mas tentando honestamente entender e participar do feminismo, ou se esse posicionamento é resultado de motivos desonestos. Um exemplo é a onda de escritores que resolveram se ocupar do tema “A Mulher”. Esses textos escritos por homens que amam as mulheres e acham que elas vão dominar o mundo (oi?) são sempre muito elogiosos e passam por temas que vão desde cortes de cabelo – que aparentemente revelam a essência de um ser humano (se ele for do sexo feminino, é claro) – até o gosto por dar. Seria muito engraçado, se esse tipo de literatura ruim não gerasse tanta admiração (e não estivesse ocupando um lugar que poderia ser para alguém que tem algo relevante para dizer). Tenho certeza que esses escritores acham que são feministas. Eu me pergunto quantos textos escritos por mulheres eles leem. Me pergunto até que ponto eles vão apoiar o feminismo ou se só gostam de mulheres livres quando é conveniente.

É claro que existem homens que apoiam o feminismo para além desse feminismo feito para pegar mulher. Mas em muitos casos ainda falta uma consciência sobre o modo de se colocar e de expressar suas opiniões. Basicamente, ainda existe muito apego às opiniões. O que eu gostaria de pedir a um homem que se preocupa com a liberdade das mulheres e que quer apoiar o movimento feminista é: esqueça um pouco de você e de suas opiniões por um tempo. Aliás, esse é o conselho que eu dou a qualquer ser humano que queira viver alguma aprendizagem na vida, porque, enquanto nos agarramos as nossas convicções, não há espaço para o novo. No caso de um engajamento em um movimento social é ainda mais necessário, porque você nunca pode compreender a vivência de um grupo oprimido, se não abandonar suas impressões que pertencem a um grupo opressor (Eu , por exemplo, não posso falar pelas mulheres negras, não tenho como compreender de verdade o tipo de opressão que elas vivem, são elas que devem comunicar suas experiências). Observo muitos homens com boas intenções dando opiniões sobre o feminismo e profundamente ofendidos quando uma mulher o refuta. Por que quando um homem fala em defesa da mulher, ele não aceita que uma delas discorde ou o questione seu posicionamento? E por que as mulheres negam essa defesa? E principalmente, se trata de uma opinião ou de um mero pitaco dado sem uma reflexão mais atenta e de fato preocupada com o movimento? Esse tipo de comentário – especialmente em redes sociais – parte de uma tentativa de diálogo ou de uma simples vontade de expor uma opinião engajada e esclarecida?

Acho que essas são algumas questões que a devemos nos colocar quando vamos opinar sobre uma minoria que sofre algum tipo de repressão. É o mínimo que se deve pensar antes de falar ou de escrever. Se queremos dialogar para tentarmos juntos vencer as desigualdades e injustiças, devemos questionar o nosso privilégio e atentar para que nosso discurso não ratifique de alguma forma a opressão. Escrevo aqui em terceira pessoa para deixar claro que é um processo e que estou nesse processo. Para mim, o feminismo não é um girl power que serve apenas para eu ser livre em minha realidade privilegiada, minha luta não acaba em mim, em função disso, preciso ter a sensibilidade para perceber quando é a hora de falar e quando é a de ouvir. Isso não é apenas um modo de ser gentil com o outro e permitir que ele fale por conta própria de suas experiências. Partir do pressuposto de que alguém precisa ser salvo já é reduzir sua autonomia e cair na mesma lógica que provoca todo tipo de violência.

Portanto, o que eu gostaria de pedir a um homem que queira apoiar ao feminismo é que antes faça parte: leia textos e livros escritos por mulheres, converse com mulheres, observe como somos olhadas e tratadas nas ruas. E se não poder opinar é incômodo, pense que está indo no caminho certo para compreender qual foi a realidade das mulheres por séculos (milênios?). Um bom livro para entender isso é “Um teto todo seu” em que Virginia Woolf fala sobre as necessidades materiais para que uma mulher possa se tornar uma escritora. Talvez esse tipo de leitura ilumine a questão e demonstre que são anos e anos de silêncio forçado das mais diversas formas, através de constrangimentos morais impostos pelas normas da sociedade ou de impossibilidades financeiras. Jane Austen escreveu seus livros na sala comum de sua casa e precisava esconder seus escritos toda vez que alguém passava por perto. Quando um homem parou para me encarar na rua sussurrando coisas incompreensíveis e eu perguntei “O que foi?” causei uma irritação próxima ao ridículo e recebi como resposta um “Não posso olhar, não?” junto com alguns xingamentos. Em outro caso de reação parecida ouvi “Pra mim mulher é pior que animal, é só um buraco”. Há anos homens falam o tempo inteiro as coisas mais impensadas e violentas. Quantas mulheres podem contar suas experiências de vida sem sofrerem algum tipo de recriminação? Muitas vezes nem nos consultórios médicos podemos ser honestas. Por que alguém deve falar pelas mulheres? O que se encobre nessa necessidade tão urgente de opinar?

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O feminismo é para todos, já que a violência do sexismo afeta ambos os gêneros. Mas ele é um movimento que parte das mulheres e é sobre as mulheres. Isso não se trata de superioridade feminina ou ressentimento pelos homens, é apenas um modo de tentar reverter a desigualdade histórica que condenou milhares de mulheres ao silêncio. O feminismo é um movimento para dar voz às mulheres para que elas possam viver suas próprias experiências, dores, erros, descobertas e para que elas mesmas se salvem da violência a que são submetidas.

 

os deuses são da ordem do real

 Era uma vez, querido diário:

Hoje eu bati com a cabeça. Enquanto colocava o saco de pão de queijo congelado no meu recente galo, lembrava de Lena. É bem triste bater com a cabeça enquanto está dançando, triste e ridículo. Sou dessas que recebem ataques em geral de choro ou raiva por causa de coisas pequenas. Não chorei com a cabeça na quina, mas quase. Muita gente acaba sendo desse nível de esbarrão. Na última aula do mestrado, eu morria de sono até que acordei: os deuses são do campo do real. É, acho que não superei minhas heranças. Até agora não recebi santo, mas dediquei a vida toda ao descontrole. A gente é feito de identificação e nesse recorte a incoerência é certa. Se por um lado tentei ordenar tudo de acordo com as minhas expectativas, isso foi só minha cólera, meu olho brilha quando tudo vem e não sei de onde ou pra quê. Por exemplo agora, esse ano em que tentei colocar minha vontade no papel e nenhuma lista segurou os dias. Existir sem previsão é meu melhor modo de ser. Parece insensato viver do imprevisto. Dos meus vinte e três anos, nascer é bem parecido com deixar um prato cair e me apaixonar é o mesmo que errar o cálculo e levar com força a cabeça até minha prateleira cheia de livros. Me educaram para ser uma pequena iluminista rodeada de razão, só que (daí vem todo o terror) minha casa sempre foi a de praia. O temporário fincou em mim o que não é mais meu, mas o que uso como força. Foi no mundo sem hora, feito de grama e caixote, que descobri e escolhi o que me faz estar aqui. 

não sou eu quem me navega

ERRÂNCIA

Só porque
erro
encontro
o que não se
procura

só porque
erro
invento
o labirinto

a busca
a coisa
a causa da
procura

só porque
erro
acerto: me
construo.

Margem de
erro: margem
de liberdade

(Orides Fontela)

Em muitos momentos a vida parece indomável, porque é. Ainda assim acordamos ou tentamos, todos os dias vestimos o que convém, procuramos as obrigações, o que paga as contas e nos mantém de pé. É preciso a cada manhã fingir convicção. Mas, de vez em quando ou sempre, aparece uma hora – que pode durar um ano ou um minuto no metrô – em que não dá. As coisas perdem o formato, se derretem para o prazer ou apertam a agonia. Porque perder a manha de fingir saber é se desgarrar de qualquer sentido. É possível ir do suicídio à redenção.

Minha vida existe além de mim – felizmente, hoje eu ouso dizer. Antes d’eu nascer meu pai teve um pai que não sabia ser pai; minha mãe foi a filha caçula que conseguia enganar a irmã. Aconteceram noites que eu nunca poderei saber e elas estão em mim. Quando dois caras resolveram brincar de racha e quase mataram meu pai, eles fizeram um pouco de mim. Quando um ônibus nunca passou e fez meus pais conversarem pela primeira vez, eu já nascia.

Nascer é se inserir em uma confusão milenar. Suspeito que se não assistisse Malhação depois da escola enquanto tomava um milkshake teria outra compreensão sobre o sexo. Se meus bichos de estimação não morressem tão rápido, eu poderia ter menos medo de me apegar. Se meu primeiro amor não tivesse saído da escola, eu nunca teria conhecido o meu segundo amor, Henrique – o primeiro de uma outra série de meninos implicantes e ambíguos, mas que no fim me davam uma bala acompanhada de promessas.

Ainda assim, feita de tantos acidentes, insisti em saber o que eu seria. Mesmo quando minha realidade me frustrava, acreditava – com a convicção que só uma filha única pode ter – que ainda seria.

Eu demorei pra realmente querer colocar a cara no mundo. Sem pensar ou medir, aos dezenove anos comecei a beber vodka. Ainda não sabia que ir à rua, como eu ia, era um exercício sem volta. Quando eu ia à Lapa era só para me distrair. Até que virou experiência, não mais história pra contar. Ia mais longe do que o calculado. Meus erros diziam que eu já não sabia mais. Em outro lugar que não o previsto, quem eu era parecia um nada. A angústia foi meu primeiro contato com os erros. Quando percebi que estar no mundo era perigoso resolvi recuar. Sentir o descontrole que tinha sobre mim mesma  me paralisava.

Sem querer a gente vai se habituando, reaprendendo a marcar o tempo e, com sorte, algo comove. Uma noite vi esse descontrole nos olhos de outro e então  a vontade foi maior que o receio. Nada coube no que esperava. Foi aí que já não podia mais dizer coisas como erro. Foi a experiência que me deixou sem nenhuma viga. Já estava agora fora, encarando o além.

Só mais uma vez e outra usei minha mania de imaginar para distrair as horas. Idealizei uma meia dúzia de destinos. Sempre dá errado, mesmo quando é exatamente o que eu queria. Ao fim acabo em outro lugar livre da predestinação.

Lá, na minha coleção de miniaturas, existe o que eu imaginei meu destino. Aqui sem o amparo das narrativas, existe o que deu-se que. Os quartos que eu não contava. O impulso que só vem com um erro de cálculo. Às vezes que fui embora entre o desespero e a certeza. As obsessões que me levaram aos consolos. O amor em silêncio. Quando me rompi. Quando todos nós se perderam.

Enquanto insisto ou abro mão de ser exatamente o que sou a vida acontece e comprova que não sou dona do meu corpo e da existência que misteriosamente o abriga. Eu sou um presente de uma invenção passageira.

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Rio de Janeiro, do amor à mercadoria.

Nota inicial: Tenho dificuldade para escrever textos em tom de denúncia; primeiro, porque apontar os erros alheios me parece uma tendência  atual que mais inviabiliza debates do que promove transformações, mas, principalmente, porque considero essa postura uma fuga de si mesmo. Desejo que essa crítica se faça de modo que eu não me esqueça dos sapatos que também calço, em outras palavras, as de Caetano – que já me denunciam -, neguinho que eu falo é nóis.
O Rio de Janeiro vive um tempo terrível, governado por homens interessados em sua potência de cidade-mercadoria. O lugar, enquanto ocupado por pessoas reais, isso é, de uma dimensão que vai além de um cartão postal, se desintegra. Os discursos de melhorias são convincentes para muitos, a mídia transmite um incrível projeto de revitalização, há obras por todos os cantos e um brilho no olhar daquele que brinca de Lego com o território alheio, Dudu. A cidade parece guiada por um ditadura consentida. Muitos reclamam da desorganização, do caos, do trânsito – que é o terceiro pior do mundo -, da violência e da corrupção. Entre as queixas, às vezes escorrem soluções. Uma vez um garoto de rua tentou entrar sem pagar no ônibus que eu estava. O motorista violentamente o mandou sair, passageiros concordavam, então, o garoto anunciou que tacaria pedras, era um ônibus com ar-condicionado e janelas de vidros grossos que não se quebrariam com a pedra, todos sabiam disso, mas o garoto expulso só tinha esse gesto para se autoafirmar e sua ousadia era suficiente para amedrontar. Ele tacou as pedras, todos faziam caras de horror, nada aconteceu, nem rachaduras, e prosseguimos a viagem, uma senhora chocada dizia: mas como pode? não tem ninguém, nem uma fiscalização, eles fazem o que querem. Ela sentia falta da repressão policial. Obviamente não usaria essas palavras, só queria uma proteção, só queria que as coisas permanecessem nos seus lugares. É atendendo a esses pedidos que a polícia começará a fiscalizar ônibus que saem da Zona Norte carioca em direção às praias da Zona Sul. Quem paga imposto alto e quem veio diretamente da Europa conhecer nossas maravilhas não pode sofrer a violência de arrastões. Nossos governantes sabem o que fazem e nossa população parece saber o que quer.
Uma história de amor não deveria ter nada a ver com isso, mas toda vez que assisto a série do canal Multishow chamada Do Amor me pergunto: Quanto vale essa vista?
A série conta a história de Lulu, uma fotógrafa estilosa que busca o amor no Rio de Janeiro. Na primeira temporada ela se apaixonou por Pio, um jovem professor de filosofia que está terminando sua tese de doutorado, mas já mora em um apartamento incrível com vista para a Lagoa. Eu, enquanto estudante de filosofia, me impressionava. Como a maioria dos meus amigos, não tenho grana para bancar nem o aluguel de uma kitnet. Até aí era apenas uma questão curiosa, mas normal, a ficção está cheia de personagens que vivem de modo misterioso e não há nada muito grotesco na licença poética que ignora a bolha imobiliária do Rio de Janeiro.
Porém, a segunda temporada mostrou o tamanho da relevância dos territórios da série. A beleza da Zona Sul do Rio de Janeiro não é apenas um fundo cenográfico, é o único lugar possível para originar e justificar as vivências daqueles personagens. Porque na segunda temporada, talvez cansados de circular apenas do Leblon até Ipanema, os personagens sobem o morro para realizar uma ocupação artística. Mas a ocupação não ocorre em um morro qualquer, é o Vidigal. É uma favela pacificada e com uma das mais belas vistas da cidade. A série faz uso disso, os primeiros episódios em que aparece o Ocupa Vidigal, a câmera mostra mais o mar do que os barracos. Além da ficção, o mercado também faz uso disso, bares, albergues e casas noturnas começam a se tornarem populares nos morros da Zona Sul carioca; agora que há a pacificação, é possível dançar Get Lucky e ainda desfrutar uma vista privilegiada sem correr riscos. O privilégio torna a vida mais cara, centenas de moradores precisam procurar outro lugar para viver, alguns pagam o preço da paz com a própria vida e outros ganham muitos likes no Instagram. Do Amor me faz perguntar quanto vale, porque a beleza nunca é gratuita; a beleza da cidade e a beleza de Lulu tem um preço, mas ninguém parece precisar pensar sobre isso.
Há uma cena que resume a ideia deste texto. Uma personagem ao tentar convencer Lulu a participar da ocupação diz: “De início eu achei meio árido, seco, mas também faz parte da nossa cidade, né? É necessário”. A favela enquanto compreendida como uma parte da cidade que precisa ser visitada, mais ainda, ajudada, é o local propício de uma missão civilizatória, a mesma que começou no Brasil em 1500 e que ainda persiste. Essa fala confessa essa crença, os produtores da série apostam em um público e ignoram que a criatividade carioca permite que a tv à cabo suba até a favela.
Voltando ao ônibus, eu também não fiz nada, não me ofereci para pagar a passagem, não argumentei com o motorista, não defendi o garoto ou me defendi. A única coisa que eu desejava era que o conflito acabasse logo para eu seguir com minhas obrigações sem precisar lidar com o que eu não via solução.
Mais cedo ou mais tarde, por compaixão ou justiça, a pedra nos atinge.
Leblon após manifestação na casa do Cabral

Foto: Mídia Ninja