Frances Ha, a vida na era da propriedade privada

Todo texto guarda uma motivação egoísta. Há os poemas prontos para seduzir, os panfletos políticos, autoconvecimento, reafirmações, o gozo com a linguagem… Quase tudo que escrevo vem dessa necessidade de firmar em matéria – caneta encostando no papel cada sílaba até formar o significado – o que eu aprendo distraída. Esse texto vem de um lugar bem óbvio, sua mensagem está há anos no telefone sem fio da civilização, poderia escrever um guia para sair na revista entre as receitas e técnicas de emagrecimento. O que está na cara, o que vem como moral, dica, conselho, mantra, nunca adere. de que adianta, então, eu falar? Tentativa (arrogância – necessária) de ser um degrauzinho na percepção, de que eu não descreva minha verdade, mas que eu a perca e busque e pratique o exercício que é a aprendizagem.

Que o amor deve ser livre, que a posse nos torna mesquinhos e que a vida está do lado de fora, abundante de feridas, pedras e rosas-paralelepípedos, são obviedades repetidas há mais de meio século.

E no entanto, em 2013, estabelecimentos da Lapa me cobram até dois reais para usar o vazo sanitário.

A propriedade privada não é cruel apenas em limites geográficos, mas também nos determina no que é emocional. Edifícios, fones, aplicativos e relacionamentos sérios fazem parte de um mesmo projeto de mundo (e cada um guarda sua própria maravilha).
Dois filmes carregam essas questões, os dois são fábulas contemporâneas: Medianeras e Frances Ha. Enquanto o primeiro tem um tom de denúncia-tentativa e usa o problema dos limites territoriais para aludir à reclusão crescente em um mundo individualista, o segundo percorre, sem narrativa ou discurso crítico, uma história que ocorre todos os dias em diferentes graus.

A história de Frances Ha é a história da perda das propriedades privadas. Frances tem uma vida mais ou menos legal, mais ou menos frustrante, mas ela tem uma vida. Até que a ordem começa a despencar: primeiro ela perde o namorado (mas isso não tem muita importância na verdade)¹, depois ela perde o apartamento (aí sim, uma problema real), depois ela perde a melhor amiga, o fim do mundo, então, ela encontra um novo apartamento, mas perde o emprego e com isso perde de novo o apartamento. Tudo o que ocorre na trama é em função dessas posses que estruturam a vida de Frances: minha melhor amiga, meu apartamento, meu emprego. Obviamente não são perdas nem um pouco fúteis, mas neste cado nada é de uma gravidade alarmante: Frances é uma loirinha de 27 anos, instruída, com pais presentes em casa própria (mas que moram longe do sonho juvenil que é Nova Iorque) e inúmeras possibilidades de empregos que pagam a conta embora sejam extremamente desinteressantes. Então por que Frances Ha existe? Por que entramos em uma sala de cinema (com nossas lugares assegurados no momento da compra) para nos comover com a história desse filme?

Há uma cena decisiva que pode justificar ou não o filme. É essa cena que defini quem vai amar Frances Ha e quem vai esquecer. Frances está no ápice das perdas quando vai jantar no apartamento de um casal que tem, tem a fábula completa: não só um apartamento, mas dois, em Nova Iorque e em Paris, propriedade, amor, emprego, sucesso, filhos. Frances não tem nada, nem uma ambição para se afirmar. Um tanto fora de si – pelo contraste, pelo álcool -, ela diz, em um tom que vai do adorável ao maníaco, o que deseja: o que Frances quer para sua vida é um momento, um momento – desses de filme – em que ela está numa festa conversando com algumas pessoas e o seu amor também está nessa festa conversando com outras pessoas, então eles trocam um olhar, um olhar que é um elo, uma confissão, um refúgio. Frances não quer encontrar só essa pessoa, mas o olhar dela que vai infiltrar um ambiente público com uma segurança privada. Não é só o amor, mas o abrigo que este pode ser.

Frances Ha não é apenas a história da perda das propriedades privadas, mas da era em que a vida só se sustenta nesse âmbito. É preciso amar, é preciso ser, é preciso ter: as pessoas, o trabalho, a casa, a narrativa sempre em primeira pessoa. Quando a vida é ressignificada a partir do privado nos tornamos mais propensos à neurose, às tempestades em copo d’água e desejos anêmicos. A classe média sofre, não adianta debochar de sua dor, antes de menosprezar, ir até o sintoma que está na nossa comoção (no cinema, nas formaturas, nos matrimônios, academias, lojas de departamento) e encarar que as angústias passíveis ao ridículo são o berço dos horrores reais.

O capitalismo, como esses filmes, também é feito de fábula; toda mercadoria ocupa uma função exata em cada narrativa.
O amor tem lugar para você?

[1] É interessante que há uma nova geração de mulheres produzindo séries e filmes nos quais o amor romântico não é a questão central das protagonistas. Embora a ausência de uma preocupação quanto a ter ou não um namorado seja um avanço em termos de gênero (é ótimo ver uma personagem que nem faz uso  da palavra relacionamento e muito menos casamento), isto não significa que Frances não tenha uma postura que romantiza a vida.  Além disso, é óbvio que a segurança de ser amada recai sobre sua melhor amiga de modo que é só uma transação de posses e não uma transformação definitiva (e feminismo é mais interessante quando busca uma mudança da estrutura patriarcal).

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Prazer

Prazer é um espetáculo apresentado pela Companhia Luna Lunera que parte da obra Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres de Clarice Lispector. Não se trata, no entanto, de uma adaptação, a peça apenas se apropria do tema sobre o qual o livro se organiza: O prazer como enfrentamento ao risco da dor.

A personagem do livro, Lóri, se retrai da experiência cotidiana e de seus possíveis prazeres pelo medo da dor. A questão de Lóri é que essa se sente acossada pelo universo (por si própria?), pressente as possibilidades que cada ato guarda e não se atreve ao dia-a-dia humano feito de perdas e conquistas, prefere a totalidade constante do sofrimento. É, então, que através do amor – um amor pedagógico – Lóri começa a compreender que a fuga da dor mina qualquer chance de felicidade e a condena a uma dor ainda maior. Para ser capaz de viver esse amor Lóri aprende os prazeres, os momentos de graça humana, contempla a intensidade da matéria efêmera.É claro, a alegria não vem impunemente, o risco é constante, mas para se construir uma vida humana é preciso enfrentá-lo, apesar de. Para ganhar antes se faz necessária a aposta. Freud, ao explicar o narcisismo, define de modo exato a questão:

Um forte egoísmo protege contra o adoecimento, mas afinal é preciso começar a amar, para não adoecer, e é inevitável adoecer, quando devido à frustração, não se pode amar.

Prazer situa esse medo dentro de nossa realidade pós-moderna. A diferença temporal entre o livro e a peça não parece suficientemente grande para que existam profundas mudanças históricas, porém é válido ressaltar que Uma aprendizagem é um livro de 1968 e, refletindo as tendências daquele ano, é o livro de Clarice mais próximo de um engajamento político. Já Prazer se dá neste tempo neoliberal em que a conquista de algumas liberdades (o Brasil democrático, por exemplo) custam o preço de repressões ainda mais íntimas.  Este abatimento que ronda os personagens de Prazer  poder ser visto como sintoma de um mundo em que a possibilidade de mudança parece mais inalcançável e nosso vigor quanto seres humanos é reduzido a medíocres existências isoladas em apartamentos. Essas são especulações minhas, o tema político não está presente na peça de modo literal, porém é impossível não associar esse mal estar individual às coordenadas de nosso período histórico (até porque a dor individual acomete a tantos que é realmente um problema social, estatísticas comprovam que em breve a depressão matará mais do que as doenças cardíacas[1]) .

prazer

De fato, a Companhia Luna Lunera me parece criar obras sobre/ para nosso tempo, qualidade que considero essencial em qualquer empreitada artística. Assisti apenas duas peças da Companhia, Prazer e Aqueles Dois – que também parte de uma obra literária brasileira, um conto de Caio Fernando Abreu. Nessa peça, do mesmo modo que em Prazer, se fazem presentes as angústias e pressões da vida urbana, as mesquinharias e burocracias das repartições públicas e como brecha, os encontros e encantos que estão sempre por aí. São duas peças que criticam com compaixão as crises pequeno-burguesas[2] que nos acometem, ao mesmo tempo em que insinuam modos de sobrevivência dentro de tais circunstâncias claustrofóbicas. Como já disse é uma característica que me ganha, acho que só me interesso pelo que diz respeito ao meu tempo. Produzir qualquer coisa sobre o presente é um grande risco, mas a Cia. Luna Lunera parece tomar este risco, o risco da proximidade, como seu impulso. É nesta proximidade que se configura de modo mais brilhante a critica de Prazer, pois este é mesmo um tempo que se dá em pé-atrás.

Parênteses para mapeamento de tendências:

(Nosso tempo feito de velocidades e clausuras inéditas. Feito de: repartições, quitinetes, condomínios, áreas verdes calculadas, medo constante, a confusão entre prazer e lazer, a obrigação do gozo, mas primeiramente, a evitação da dor. Há um desencontro profundo entre as novas tecnologias de comunicação, irmãos dentro da mesma casa se comunicando via facebook (na verdade, o desencontro sempre houve e só está acompanhando as novas possibilidades de signos, quantos significados são possíveis em um curtir?). A internet contribui para fincar a ironia como língua materna (http://www.revistaserrote.com.br/2013/01/como-viver-sem-ironia-por-christy-wampole/).  Só que não, só que ao contrário, rs, entre tantos outros tiques de refúgio. A exposição constante parece ter reforçado o medo do ridículo, assim se evita qualquer fala própria e engajada, mais seguro pular de piada em piada. OBS: É notável que Caio Fernando Abreu e Clarice Lispector são dois autores alvos da ironia, tanto pela popularidade quanto por seus textos viscerais que para alguns é ridículo – mais um ponto de enfretamento dos riscos para a Cia.)

Fim do mapeamento.

A crítica de Prazer ao nosso pé-atrás contemporâneo não é elaborada na distância fria que se costuma associar a tal palavra. O prazer, como afirmação possível diante da paralisia do medo, não menospreza a potência de tal sentimento, o encara e provoca, beirando o quase sem sentido das depressões (o texto de Clarice, como alguns casos de depressão, demanda uma forte empatia para que não soe como um exagero histérico). Por vezes a peça parece se demorar em casos irrelevantes, mas a vida também não é assim em alguns momentos? Dar voltas sem sair do lugar, se enfiar em discussões de motivos minúsculos, remoer mágoas, situações tão recorrentes… E como se sai desses redemoinhos? Como se cria um movimento novo? É isto que me sinto incapaz de resolver neste texto. Pois a peça também não resolve esta questão, não é um guia prático de como sobreviver a melancolia da pós-modernidade, não se aponta o caminho a seguir. Os atores não estão ali repetindo uma mensagem, não é auto-ajuda, é uma experiência. Aí é questão de sentir ou não, se comover com a tentativa que aqueles seres humanos estão fazendo ali em cima daquele palco (e por que não ao seu lado em suas tentativas de sexta à noite?) ou não, é questão de entrega. A entrega ao prazer não é defendida, ela é executada bem na nossa cara e o contagio é certo, o corpo reage em lágrima e arrepio. Não cabe muito explicar o vigor de Prazer, o gozo não se sujeita às palavras.

*Usei neste texto vários termos repetitivos em minha poesia, são parte das minhas obsessões e reflexões. Uma aprendizagem, livro que inspirou Prazer, é muito caro a mim, trouxe entre tantas reviravoltas pessoais, o tema da minha monografia. Queria muito escrever um texto mais calmo e claro sobre a peça, mas sou incapaz justamente por essa proximidade. No blog da Luna Lunera é possível encontrar os dados que meu relato não comporta: http://cialunalunera.com.br/espetaculos/prazer/


[1] fonte: O tempo e o Cão, livro de Maria Rita Kehl que analisa a relação entre depressão e capitalismo.

[2] É necessário não ludibriar a realidade, esse tempo que falo tem sua materialidade, está nesse país, está numa classe que é a classe que pode frequentar teatros em centros culturais financiados por bancos que nos desejam uma boa diversão. O mundo em que se passa Prazer é o mundo daquele centro cultural, daquela platéia que busca em uma sexta à noite o quê? cultura? diversão? aprendizagem? transcendência?  alívio do tédio? matar as horas até amenizar a hora do rush? Estão ali essas questões, entre nós em nossas poltronas numeradas e entre eles no risco do palco.

Sobre o Recanto Escuro de Gal

(…) é ao aceitar voluntariamente o risco de morte numa luta por puro prestígio que o homem aparece pela primeira vez no mundo natural; e é ao resignar-se à morte, ou revelá-la pelo discurso, que o homem chega finalmente à sabedoria, concluindo assim a história.

O Circo Voador lotado, eu e meus amigos com aquela alegria e fome de uns vinte anos, prontos para receber um momento histórico, ver uma mulher histórica, adoramos museus (com essa idade a vontade de história é forte). Mas Gal não se dá em contemplação fácil. É possível, claro, colar o momento no seu mero status, sacar os celulares e colecionar, mas aquela voz só convida a experiência do instante. Recanto Escuro é um show histórico não por essa euforia de querer fazer parte, mas por Gal que vem carregada de seus escombros e canta mais uma vez, dessa vez só seu canto. O álbum é um presente de Caetano que interpreta, traduz e sugere a amiga. Gal diz que Recanto Escuro era seu, chorou ao ouvir e isso significa que já estava nela. É um canto de quem foi do tudo dói até o outro lado azul do muro, um retorno que nunca é uma simples volta. E parece que Gal realmente não salta, é carregada, acolhe umas canções, topa uns shows e nele a história se dá. Porque se estava ausente dos palcos e dos últimos grandes lançamentos, as gals que foi estão por aí esbravejando fôlego nos fones de uns novinhos. É no show que ocorre a reconciliação, o peso de uma mulher em negro ainda lasciva como a Gal de Fa-Tal, mas de uma presença sóbria, sábia. O Recanto Escuro para mim é um lugar de morte. O canto atravessa isso em um reconhecimento quase melancólico de um verso que é berrado Know that one day I must die, I’m alive. A Gal de agora ainda berra que não temos tempo de temer a morte, mas esse lema de uma geração ganha outro tom. Afirmar que tudo é divino e maravilhoso após Tudo Dói é o local de quem fez uma experiência de morte (de uma mãe, em uma depressão, em um futuro) e agora, sim, berra. O show faz mesmo um movimento de roda-gigante, de um escuro pesado a momentos alegres e hits (das festas de computadores tão recorrentes do Rio de Janeiro meio pobre de novo) como Barato Total. A alegria se faz presente, mas não é leve, nem gratuita, é daqueles que sabem que a felicidade não vem impunemente. Gal se entrega ao que foi sem nostalgias; admira-se quando é ovacionada, mas não se surpreende, porque não precisa de modéstia, reconhece a potência que é (e também não abandona o ar de diva). Sendo Gal em todas as versões, se reinventando, tomando sua voz, esse caminho de matéria solta, na possibilidade total que é a criação, ela retoma a história em movimento, ela é a história. Naquela lona que eu tanto retorno, a história se deu, a história é o que atravessa a morte: aposta o preço do seu risco, se deslumbra com o absurdo dos limites e aceita se lançar ou ser carregado parte de um todo em descontrole.

(Na minha memória eu sei que esse dia será sempre marcado pelo dia depois. Eu tenho vinte e dois anos e corro muitos riscos, a todo o momento poderia ser a gente, ainda não é, isso é um espanto. Faltou uma palavra nesse texto que eu tanto uso, até tenho na pele: viver.)

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A imperativa literatura de Cortázar

 

Não se lê Cortázar impunemente. A leitura de seus textos (que podem ser poesias, contos, teorias críticas, fábulas e nada disso, porque tudo isso são rótulos que são muito pouco) demanda uma adesão que provoca uma experiência transformadora.

“Muito do que escrevi se qualifica sob o signo da excentricidade, porque nunca admiti uma clara diferença entre viver e escrever; se ao viver consigo disfarçar minhas circunstâncias, não posso porém negá-la no que escrevo porque escrevo precisamente por não estar ou por só estar pela metade. Escrevo por incapacidade, por sempre deslocação; e como escrevo num interstício, estou sempre propondo que os outros procurem os seus e por eles olhem o jardim onde as árvores têm frutos que são, naturalmente, pedras preciosas. O monstrinho continua firme.”

Critérios para julgar a arte são sempre uma bola fora. O próprio Cortázar vai dizer em uma carta que entender algo é deixar de vê-lo. Assim, fixar a experiência artística – sempre singular – num amontoado de conceitos frios e explicativos será uma eterna tentativa falida. Se há algum critério que pode ser lançado dentro desta falha já declarada alguma perspectiva interessante diante dessa ação humana que é sempre estranha é o que mede a arte pela transformação que esta provoca. Em outras palavras, a experiência artística real (e podem gargalhar com a ousadia de ainda usar esta palavra) é aquela que exige de quem a vive uma mudança de vida. Não me interessa muito desenvolver um elogio a este critério ou expor seu grau de veracidade, mas apenas o utilizar como o melhor critério para abordar essa literatura que se desmancha e transborda e não cabe nos caducos critérios da seríssima Teoria Literária. Se pretendo falar de Cortázar é pela faísca que sua obra nos causa e, então, pouco importa uma crítica que se vale de sobriedade e distância, por aqui é pura empatia e contágio (o que ratifica minha tese, só para apontar que também há lógica) .

O que Cortázar propõe torna-se um imperativo quando entra pelos olhos, percorre estruturas internas e se fixa no estômago, nos poros e em todas as estranhas partes que são o corpo. E assim se abre como uma janela exigente: A vida como antes se constituía amolece, mais grave, tudo adere. O que se passa é a impossibilidade de algo ser banal – acordar, comprar o pão, atravessar a rua, tudo transborda um imenso risco. A influência que essa literatura tem é decisiva, pois modifica a cotidianidade, aquilo que é humano e passa longe do sublime. Assim, o que se altera é a percepção da existência – e não de uma simples sensibilidade momentânea concentrada no momento de leitura ou de contato com a arte -, tudo se mostra como é. Tudo palpita e há milhões de tons e poeiras e aromas nos contagiando de forma que cada passo exige muita atenção, não para se proteger, mas para ser numa entrega consentida que é um gozo do todo.

“Quando abrir a porta e assomar à escada, saberei que lá embaixo começa a rua; não a norma já aceita, não as casas já conhecidas, não o hotel em frente; a rua, a floresta viva onde cada instante pode jogar-se em cima de mim como uma magnólia, onde os rostos vão nascer quando eu os olhar, quando avançar mais um pouco, quando me arrebentar todo com os cotovelos e as pestanas e as unhas contra a pasta do tijolo de cristal, e arriscar minha vida enquanto avanço passo a passo para ir comprar o jornal na esquina”.

‘História de Cronópios e de famas’ limpa do hábito nossas tão comuns ações de chorar, cantar, dar corda no relógio… Descobre estas do nada extraordinário em que as enfiamos na rotina de ser humano. O olhar que Cortázar instiga às coisas e à existência é de uma transformação preciosa, principalmente em tempos em que a rua é mais passagem e vitrine do que espaço de contaminação, horror e encanto. A mudança de vida que Cortázar exige é política. Através da travessia de seus olhos se retira o véu plástico que corrói a matéria e a vida humana. O olhar se alonga e resiste ao narcisismo contemporâneo. Cortázar abre um sol na pele, um gosto de vida e nos faz ver. Essa visão que conhece e não reconhece, mas se espanta e delicia com as coisas, dá à existência uma fertilidade que a todo tempo nos é roubada. O extremo poder político que a obra de Cortázar possui não se dá então em um engajamento que ordena ideologias em versos, mas no modo como seus labirintos ardem às percepções.

 

“Essas crises que a maioria das pessoas considera escandalosas, absurdas, eu pessoalmente tenho a impressão de que servem para mostrar o verdadeiro absurdo, o absurdo de um mundo ordenado e calmo, com um quarto onde diversos caras tomam café às duas da manhã, sem que, realmente nada disso tenho o menor sentido, a não ser um sentido hedonista, o bom de estarmos ao lado deste aquecimento que se prolonga tão gostosamente. Os milagres nunca me parecem absurdos. O absurdo é aquilo que os precede e os que vem depois.”

 

O que Cortázar não sabe lidar e desafia em cada um dos seus textos que recriam a realidade é que esta seja constituída por fatos límpidos, limitados e óbvios. O sujeito, por exemplo, não é de forma alguma compatível com aquele que Kant ditou (e que assim transformou as vias de toda a existência humana, uma dose a mais de angústia para os ombros); existe sim o limite, somos todos recortes, cada um tem um grau e tom diferente de visão. Mas em Cortázar tudo está numa transfusão contínua, a influência é absurda (quase tão insuportável quanto o limite firme de Kant), todos estamos imundos de contato. E aí está a diferença do poeta (e de outros seres muito próximos dos Cronópios): a poesia tem uma questão ontológica. A poesia é um meio de alongar estes limites, é o desejo de ser. O poeta, então, é aquele que não se aguenta em seu ser, que precisa construir em palavras os outros – e em cada verso é uma nova realidade/ser que salta. (Aqui me contenho para não citar uma dúzia de poetas que escreveram sobre esta necessidade, mas cito dois: um óbvio, Fernando Pessoa e Manoel de Barros, além de Bob Dylan que não só escrevia como incorporava Outros).

Há assim uma relação muito importante e forte entre esta particular Visão, a poesia e os limites. E aí podemos escavar como essa poesia é política e modificadora. Quando se ampliam os limites, se compactua mais com outros seres e a visão se estende. É assim que se encontra a realidade pulsante, que se saboreia o outro e toda a vida ganha uma textura imensa, decisiva e até mesmo atordoante. Isso é de uma preciosidade máxima quando a matéria plástica corrói em velocidade pós-fordista a surpresa, o prazer genuíno, a graça de olhar um outro. O infértil mundo que vivemos entre hambúrgueres, vitrines e “comunicação” excessiva cria homens que nas ruas caminham voltados pra dentro com olhos cheios de hábito, o peito em pleno tédio, incapazes de ver, sem interesse pelo outro, vidas submersas em eu (essa fantasia humana que é o deus no sistema capitalista).

A poesia que é impulsionada por este desejo de ser é um exercício de visão. Porque inventar é um modo distinto de ser: ”…e se fazer de é muito mais que ficar à sombra: é feitorar com isenção de riscos, é gozar da mesma ranhura… pertencendo eventualmente”[1] A poesia do dia-a-dia, banalizada entre batatas-fritas e jogos de amarelinha, transforma a realidade quando estende os limites de cada “eu” e instiga a afirmação do inescapável contágio.

Cortázar nos exige rever o mundo, isto é, lavarmo-nos da apatia, da existência catalogada, ir às ruas com atenção e desenfreio, ver cada homem, se possível ser muitos, amar como quem descobre uma nova América em cada corpo, comer na surpresa de que existe comida, de que existem dentes, intestino, de que existe.  O flerte entre Surrealismo e existencialismo que Cortázar compõe é isto: O fantástico é que existimos, isso nos impõe a surpresas que sempre estamos escolhendo. Cortázar cola esse lembrete em nossos olhos, nos reacorda e vemos que só há vigília (porque só há sonho.).


[1] LANNACE, Ricardo Retratos em Clarice Lispector, pag. 47 Ed. UFMG, Belo Horizonte, 2009.

A ciência do particular em Nan Goldin

 

Para que existe a ciência se não para ordenar a realidade e assim melhorar a qualidade de nossas vidas? Mas o que move o homem à ciência, um tal desejo de saber, vai muito além de missões iluministas. Almodóvar em seu “A Pele que Habito” escancara sem modos a dose de obsessão impregnada nesta prática. Desejo e obsessão rodeiam o homem desde seu inútil e ainda encoberto início. A ciência e suas tecnologias podem disfarçar com seus impulsos civilizatórios e descobertas de cura para a humanidade, mas sem aberrações não se fazem “avanços”. O desejo científico se traduz na ação obcecada de analisar, catalogar, desvendar e agora também transmutar a realidade. Assim, a utilidade científica é apenas a consequência, o motor é o susto primordial diante de nossa estranha condição humana. Desembuchando, lanço minha teoria: e se alguns artistas fizessem uma ciência do particular; observando, analisando e catalogando elas mesmas e as pessoas que compõem sua realidade de modo tão investigativo e obcecado quanto daqueles que estudam fungos? Uma ciência completamente inútil devotada a objetos únicos – seres humanos. Estudar uma pessoa, documentar uma vida, particularidade máxima, histórias não se repetem e portanto terminadas as teorias e conclusões não há onde se aplicar; afinal, se você ainda acredita na eficácia nos conselhos, me desculpe estragar o barato… Ciência e arte que tanto se repelem encontram-se aí no mesmo desespero e empenho obsessivo em criar possíveis ordens para a realidade incessante.

Nan Goldin é PhD sobre sua vida e sobre seus amigos. Um legendado inútil, não fosse incrivelmente belo – taí um esboço de utilidade que não serve pra nada da arte nos comunicamos entre o que não se diz e é emocionante. Nan é mestre dessa ação arriscadíssima de lançar-se ao sempre improvável do outro. Destemida, ela investiga, fotografa, até ver, até conseguir, não o catálogo entediado e já exausto do amigo que repete as mesmas histórias e escolhas terríveis, mas o deslumbre de conhecer cada ação e ainda não ter acesso a nada (assim como físicos que estudam a galáxia feito a mais bela das namoradas e só chegam a fórmulas estonteantes – e desesperadoras para alunos do ensino médio – e nunca a sua essência). Nan permanece curiosa e obcecada por seus pequenos objetos de documentação, por isso seus relatos são preciosos, eles não nos dão retratos redondos de pessoas sem pontas, mas a suspeita de que é possível ir além. As fotos de Nan Goldin nunca nos dizem tudo, elas perturbam, provocam mais perguntas do que respostas.

No entanto, a curiosidade de Nan não é voyeurística. Ao contrário de Diane Arbus que fotograva freaks com o olhar de quem está à parte (quase como um interesse antropológico), Nan está envolvida com o que fotografa, ela faz parte dos freaks. Assim, a câmera não é um meio de expiar, mas de narrar. Estabelecer essa relação Arbus e Goldin faz pouco sentido, contudo, é uma boa oposição para entender as diferentes posturas que essas mulheres tomaram diante de suas câmeras (e vidas). A fotografia para Nan Goldin não era um meio para adentrar em realidades diferentes da sua, mas de conhecer a sua própria realidade. Há um documentário sobre seu trabalho chamado “I’ll be your mirror”, o título é genial, pois é esse o papel de sua câmera: espelho através do qual Nan enxerga sua vida.

“There is a popular notion that the photographer is by nature a voyeur, the last one inveted to the party. But I’m not crashing; this is my party. This is my family, my history”.

É através da fotografia que Nan Goldin consegue reter a vida e transformar o que é incessante fluir em imagens estáticas e físicas (num sentido de se ver a imagem ser revelada, diferente do instantâneo das câmeras digitais). As fotos são, portanto, consequência de uma necessidade emocional, elas recortam a realidade e tornam-na passível de uma narrativa. A câmera é um meio de controlar a existência que lhe escapa, esse exercício intenso de documentação do que a rodeia é um desejo de ordenar e também de conhecer. Alguns aspectos da vida de Nan Goldin favorecem essa necessidade emocional que define seu trabalho; o suicídio da irmã de 18 anos, o uso intenso de drogas que intensifica a sensação de perda de controle, os amigos morrendo aos poucos de AIDS e os relacionamentos amorosos problemáticos. Mas, honestamente, basta estar vivo para saber que não existe controle desde do parto até a morte, alguns esquecem do risco, outros lidam com essa impotência estudando engenharia genética, Nan Goldin disparou obcecada sua câmera.

É preciso abrir mais janelas

– ou ensaio sobre Medianeras.

É preciso construir mais janelas. Que há os tetos que acostumamos só para desligar um corpo já amortecido. O chão de cada dia tecido na agonia de quem bate cabeça no mesmo, censura geométrica. E os meios que criamos pra permanência das vitrines – as novas celas. Um oco de arrastar pedras impunemente. A vida em esteira infértil.

Mas esta pavimentação ainda não adstringiu meus poros. Que são dilatados como a mania de encontros. Minha derrota é sempre a mesma: todos tem freios nos nervos e o outro só tem gosto quando não se ultrapassa o limite dos pronomes. Limite, essa coisa que os filósofos crentes que são de linhos d’ouro afirmam, esquecem o corpo fluxo imperativo que é feito de pequenas mortes e gozos. Sinto meu útero e percebo a transfusão dominante entre as mil folhas.

O tempo é de clausuras. na pele. nos prédios. nas vistas. A ilusão do limite, do Eu,bolha perambulante, constrói a realidade em esbarrões. Autismo por opção, perceber mais ofertas que um corpo vivo.

Andamos encharcados de Eu em um contato que não acerta passo com o contágio universal. Nossa vida é tão delimitada em linhas quanto os apartamentos. Fazemos de cada um de nós galáxias impermeáveis. A rotina é esse debater doentio, em busca, em busca, em busca. De uma salvação. De um pouco de amor. De um ar tão livre e verde quanto as utopias que cerramos como parte do ridículo da adolescência.

Repetimos todos os dias os erros. Caímos no cômodo de caber no tempo, na cidade. E da busca acabamos só no alívio. A vida pequena, a migalha que engolimos por carência e os pontos cristalizados – aquele resto da criação que nos torna preciosos, espaço possível pra se falar de “eu” – que descuidadamente cedemos porque é preciso ser homem, ser mulher, trabalhar, pagar as contas, papos médios, calar a dor, se embriagar e esquecer em qualquer sexo morno e morrer sem raízes e laços.

O Mal-estar desta história de analgésicos e prazeres plásticos. Os olhos vidrados em corredores espelhados. A melancolia porque nos vemos tão pequenos (não gozamos mais a beleza do todo). Essa tentativa diária que é a espera de uma salvação, mas salvar-se não é vida em fantasia, sem risco, sem dor. Viver não tem cura. E temos feito de nosso caminho um estático narcísico.

Abrir mais janelas (pra que entrem todos os insetos, que se aceite nosso inevitável perigo que também aponta o quão tudo é maravilhoso). A entrega às vezes tem um gosto de sangue e de um peso de sentir e compactuar demais. Se desprender da própria pele e escavar uma brecha pra arriscar, arde. Até que bate o fresco de Eu ser um arrepio, como capim nascendo nos dedos e então se transcende das malditas paredes.

(vejam Medianeras!)