É preciso abrir mais janelas

– ou ensaio sobre Medianeras.

É preciso construir mais janelas. Que há os tetos que acostumamos só para desligar um corpo já amortecido. O chão de cada dia tecido na agonia de quem bate cabeça no mesmo, censura geométrica. E os meios que criamos pra permanência das vitrines – as novas celas. Um oco de arrastar pedras impunemente. A vida em esteira infértil.

Mas esta pavimentação ainda não adstringiu meus poros. Que são dilatados como a mania de encontros. Minha derrota é sempre a mesma: todos tem freios nos nervos e o outro só tem gosto quando não se ultrapassa o limite dos pronomes. Limite, essa coisa que os filósofos crentes que são de linhos d’ouro afirmam, esquecem o corpo fluxo imperativo que é feito de pequenas mortes e gozos. Sinto meu útero e percebo a transfusão dominante entre as mil folhas.

O tempo é de clausuras. na pele. nos prédios. nas vistas. A ilusão do limite, do Eu,bolha perambulante, constrói a realidade em esbarrões. Autismo por opção, perceber mais ofertas que um corpo vivo.

Andamos encharcados de Eu em um contato que não acerta passo com o contágio universal. Nossa vida é tão delimitada em linhas quanto os apartamentos. Fazemos de cada um de nós galáxias impermeáveis. A rotina é esse debater doentio, em busca, em busca, em busca. De uma salvação. De um pouco de amor. De um ar tão livre e verde quanto as utopias que cerramos como parte do ridículo da adolescência.

Repetimos todos os dias os erros. Caímos no cômodo de caber no tempo, na cidade. E da busca acabamos só no alívio. A vida pequena, a migalha que engolimos por carência e os pontos cristalizados – aquele resto da criação que nos torna preciosos, espaço possível pra se falar de “eu” – que descuidadamente cedemos porque é preciso ser homem, ser mulher, trabalhar, pagar as contas, papos médios, calar a dor, se embriagar e esquecer em qualquer sexo morno e morrer sem raízes e laços.

O Mal-estar desta história de analgésicos e prazeres plásticos. Os olhos vidrados em corredores espelhados. A melancolia porque nos vemos tão pequenos (não gozamos mais a beleza do todo). Essa tentativa diária que é a espera de uma salvação, mas salvar-se não é vida em fantasia, sem risco, sem dor. Viver não tem cura. E temos feito de nosso caminho um estático narcísico.

Abrir mais janelas (pra que entrem todos os insetos, que se aceite nosso inevitável perigo que também aponta o quão tudo é maravilhoso). A entrega às vezes tem um gosto de sangue e de um peso de sentir e compactuar demais. Se desprender da própria pele e escavar uma brecha pra arriscar, arde. Até que bate o fresco de Eu ser um arrepio, como capim nascendo nos dedos e então se transcende das malditas paredes.

(vejam Medianeras!)

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