não sou eu quem me navega

ERRÂNCIA

Só porque
erro
encontro
o que não se
procura

só porque
erro
invento
o labirinto

a busca
a coisa
a causa da
procura

só porque
erro
acerto: me
construo.

Margem de
erro: margem
de liberdade

(Orides Fontela)

Em muitos momentos a vida parece indomável, porque é. Ainda assim acordamos ou tentamos, todos os dias vestimos o que convém, procuramos as obrigações, o que paga as contas e nos mantém de pé. É preciso a cada manhã fingir convicção. Mas, de vez em quando ou sempre, aparece uma hora – que pode durar um ano ou um minuto no metrô – em que não dá. As coisas perdem o formato, se derretem para o prazer ou apertam a agonia. Porque perder a manha de fingir saber é se desgarrar de qualquer sentido. É possível ir do suicídio à redenção.

Minha vida existe além de mim – felizmente, hoje eu ouso dizer. Antes d’eu nascer meu pai teve um pai que não sabia ser pai; minha mãe foi a filha caçula que conseguia enganar a irmã. Aconteceram noites que eu nunca poderei saber e elas estão em mim. Quando dois caras resolveram brincar de racha e quase mataram meu pai, eles fizeram um pouco de mim. Quando um ônibus nunca passou e fez meus pais conversarem pela primeira vez, eu já nascia.

Nascer é se inserir em uma confusão milenar. Suspeito que se não assistisse Malhação depois da escola enquanto tomava um milkshake teria outra compreensão sobre o sexo. Se meus bichos de estimação não morressem tão rápido, eu poderia ter menos medo de me apegar. Se meu primeiro amor não tivesse saído da escola, eu nunca teria conhecido o meu segundo amor, Henrique – o primeiro de uma outra série de meninos implicantes e ambíguos, mas que no fim me davam uma bala acompanhada de promessas.

Ainda assim, feita de tantos acidentes, insisti em saber o que eu seria. Mesmo quando minha realidade me frustrava, acreditava – com a convicção que só uma filha única pode ter – que ainda seria.

Eu demorei pra realmente querer colocar a cara no mundo. Sem pensar ou medir, aos dezenove anos comecei a beber vodka. Ainda não sabia que ir à rua, como eu ia, era um exercício sem volta. Quando eu ia à Lapa era só para me distrair. Até que virou experiência, não mais história pra contar. Ia mais longe do que o calculado. Meus erros diziam que eu já não sabia mais. Em outro lugar que não o previsto, quem eu era parecia um nada. A angústia foi meu primeiro contato com os erros. Quando percebi que estar no mundo era perigoso resolvi recuar. Sentir o descontrole que tinha sobre mim mesma  me paralisava.

Sem querer a gente vai se habituando, reaprendendo a marcar o tempo e, com sorte, algo comove. Uma noite vi esse descontrole nos olhos de outro e então  a vontade foi maior que o receio. Nada coube no que esperava. Foi aí que já não podia mais dizer coisas como erro. Foi a experiência que me deixou sem nenhuma viga. Já estava agora fora, encarando o além.

Só mais uma vez e outra usei minha mania de imaginar para distrair as horas. Idealizei uma meia dúzia de destinos. Sempre dá errado, mesmo quando é exatamente o que eu queria. Ao fim acabo em outro lugar livre da predestinação.

Lá, na minha coleção de miniaturas, existe o que eu imaginei meu destino. Aqui sem o amparo das narrativas, existe o que deu-se que. Os quartos que eu não contava. O impulso que só vem com um erro de cálculo. Às vezes que fui embora entre o desespero e a certeza. As obsessões que me levaram aos consolos. O amor em silêncio. Quando me rompi. Quando todos nós se perderam.

Enquanto insisto ou abro mão de ser exatamente o que sou a vida acontece e comprova que não sou dona do meu corpo e da existência que misteriosamente o abriga. Eu sou um presente de uma invenção passageira.

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