os deuses são da ordem do real

 Era uma vez, querido diário:

Hoje eu bati com a cabeça. Enquanto colocava o saco de pão de queijo congelado no meu recente galo, lembrava de Lena. É bem triste bater com a cabeça enquanto está dançando, triste e ridículo. Sou dessas que recebem ataques em geral de choro ou raiva por causa de coisas pequenas. Não chorei com a cabeça na quina, mas quase. Muita gente acaba sendo desse nível de esbarrão. Na última aula do mestrado, eu morria de sono até que acordei: os deuses são do campo do real. É, acho que não superei minhas heranças. Até agora não recebi santo, mas dediquei a vida toda ao descontrole. A gente é feito de identificação e nesse recorte a incoerência é certa. Se por um lado tentei ordenar tudo de acordo com as minhas expectativas, isso foi só minha cólera, meu olho brilha quando tudo vem e não sei de onde ou pra quê. Por exemplo agora, esse ano em que tentei colocar minha vontade no papel e nenhuma lista segurou os dias. Existir sem previsão é meu melhor modo de ser. Parece insensato viver do imprevisto. Dos meus vinte e três anos, nascer é bem parecido com deixar um prato cair e me apaixonar é o mesmo que errar o cálculo e levar com força a cabeça até minha prateleira cheia de livros. Me educaram para ser uma pequena iluminista rodeada de razão, só que (daí vem todo o terror) minha casa sempre foi a de praia. O temporário fincou em mim o que não é mais meu, mas o que uso como força. Foi no mundo sem hora, feito de grama e caixote, que descobri e escolhi o que me faz estar aqui. 

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