a solução é desistir

Clausura

Nasci. Haveria de estar
preparado para a vida, mas
continuo na sala de espera.
Quem abrirá esta porta?
Que continente ou que
cidade se descortina
além da laje dos meus olhos?
Sugestões me fascinam
mas a visão ceifada
não alcança outra margem.
A mão trêmula se
confunde, e torna baixa
a um beijo, um chamado
de estreita possibilidade.
Estamos prestes a marchar
mas o inimigo é escasso
e destrói nossos anseios.
De novo uma tentativa, outra
e outras tantas,
que o presente absorve o ódio,
o orgulho, o afago:
O tempo é de conformação.
No escuro formulamos
a sentença e o sorriso
que haverão de romper
o medo. Projetamos
nossas forças e arrepios
além das graves paredes.
Gastamos fardos de sonhos,
trigo e confissões:
Engravidamos a mente,
no escuro preparamos.
Mas ao primeiro lampejo
das matizes da manhã,
de novo nos corrompemos
e voa nossa esplanada
e nossa razão premente
em forma de anel extinto.
Perguntamos:
Até quando?

Cacaso (1964)

Parece que escrevo sempre sobre a mesma coisa. Não importa o formato do texto, pode ser minha monografia, poesia ou um ensaio. Talvez não seja exatamente o mesmo tema, acho que é uma vontade que permanece. Acho que ainda não sou uma escritora muito boa – ou a que eu pretendo ser – porque ainda tenho uma moral; eu tento afirmar. Esse texto nasceu em mais um momento em que buscava uma solução.
Eu só tenho 23 anos e como a maioria dos meus amigos estou tentando dar um sentido (o que é uma solução) para minha vida. Vivemos esse período em que não somos mais adolescentes, mas também não somos adultos, há muitas possibilidades e junto com ela o peso das decisões. Basicamente vivemos entre a ansiedade e a angústia tentando ser quem somos. Eu já escrevi sobre isso, sobre esse ser exatamente o que a gente é que nos leva além. Mas eu ainda preciso me repetir. A minha vontade, essa que se faz presente no que estudo e escrevo, é mostrar que esse eu é feito de uma materialidade. Cada um de nós não somos feitos, mas estamos sendo em um processo muito antigo e inacabado. Mais claramente: todas nossas necessidades e possíveis frustrações são construídas em nosso tempo, nada é destino ou essência.
Porque é possível dar uma outra solução para a vida. Eu poderia me preocupar exclusivamente com a existência enquanto um projeto separado do mundo. E é mais ou menos isso que fazemos quando somos possuído por essa angústia. A maioria das vezes em que sofremos é por nos sentirmos muito especiais, é por não sabermos contextualizar nossas necessidades – a depressão pode ser um tipo de narcisismo. É importante que eu enfatize: esse “nós” se dirige aos meus amigos, a esses jovens privilegiados que ainda assim passam por tantos problemas. Não quero parecer que estou relativizando a dor ou dizendo que as dificuldades pessoais são sempre superáveis, não pretendo ser autoajuda, eu acho. É nesse caso, nesse tipo de clausura em que nós mesmos nos metemos. Porque há uma diferença entre a dificuldade de um jovem negro e pobre que cresceu na favela e a nossa dificuldade, quase risível, mas fruto de um mesmo processo que condena a todos a uma realidade estreita. É que o nosso caso, dos jovens privilegiados, a dor tem muito mais o peso das crenças do que da materialidade.
A ideia de juventude como qualquer construção social é formada por normas, suposições e mentiras repetidas até se tornarem fato. O erro começa quando acreditamos, quando nos apegamos às generalizações e assumimos uma identidade. É a partir disso que começam as cobranças e pressões desnecessárias. Porque então supomos que é assim, que sempre foi assim e aceitamos como imutável essa coisa tão facilmente montável a que chamamos de realidade. E é difícil não se resignar com o conforto de ser igual as personagens de Girls (ou não porque qualquer pessoa com vontade de ser melhor não pode ficar tranquila com esse tipo de comparação) ou de fazer parte de uma geração.
Até agora a única solução foi desistir. Desistir da identidade, da predestinação, de encontrar a verdade, dos romances de geração ou formação (e a Fenomenologia do Espírito é um deles). Desistir como um modo de assumir o descontrole que impera no mundo. Assumir uma relação com uma outra angústia que permita criar algo além de voltas sobre si mesma, um mar aberto em vez de redemoinhos. O universo é indiferente às nossas histórias como motoristas de ônibus cariocas que ignoram o seu sinal. Nossos corpos estão para sempre perdidos em toxinas, é tudo absurdamente sem solução ou finalidade, então por que ainda insistimos em encontrar essa tolice que chamamos de “si mesmo”?
A solução só pode ser se engajar no mundo em todo seu conflito. A data do poema diz muito sobre a matéria da clausura.

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