Só a sororidade salva

Sex and the city foi uma série muito importante na minha formação. Antes dela não existia, na minha vida de adolescente, mulheres que falavam sobre sexo abertamente. Era, no mínimo, pedagógico. Sou grata ao seriado mesmo que ele tenha se transformado em algo… estranho (ainda considero a primeira temporada uma pérola da TV). Aquelas quatro mulheres foram minhas companheiras quando eu não entendia nada sobre sexo e tudo dizia que só existia um tipo de final feliz. Com 14 anos eu já era feminista, mas me faltava noção de muitas coisas – provavelmente ainda falta -, mas algumas convicções me salvavam a vida. A série me ensinou sobre possibilidades, de repente descobri que podia me masturbar, ser feliz solteira, ter cabelo cacheado e volumoso (uma noção preciosa em plena era das escovas progressivas), ser uma escritora, transar no primeiro encontro, usar roupas de gosto questionável se eu gostar e por aí… Tudo isso foi muito importante. Mas uma coisa a série não me ensinou: amor próprio e sororidade.

Embora a série seja sobre amizade, é muito mais sobre homens. Não existe nem um episódio em que as personagens estão lá, de boa, usando pijama, comendo bobeira e conversando, sei lá, sobre a vida1. Elas conversam sobre homens a maior parte do tempo. Mas isso não é o pior, o que só agora posso reparar é como esses homens falam sobre elas. O episódio que foi mais marcante para mim é o último da segunda temporada em que Carrie, inspirada por “The way we were”, tem uma epifania e conclui que o mundo é dividido entre as Katie girl e as simple girl. Essa epfinania bateu em mim tão forte que preciso até hoje me forçar para entender o básico: não existem tipos de garotas, existem pessoas, algumas compartilham o mesmo gênero e, portanto, a mesma opressão, nesse caso, elas são, sobretudo, suas irmãs. Em sex and the city não existe sororidade, porque não existe nem amor próprio. O contexto desse episódio é o seguinte: Carrie está tentando se recuperar de Big, seu ex-namorado, que foi morar na França, mas não com muito sucesso até que descobre que ele está noivo. Então, Carrie se apoia em “The way we were” para criar a teoria que salva os resquícios de sua autoestima. É claro que a noiva é considerada a simple girl, sem graça, perfeitinha, inexpressiva, calada. Carrie é a Katie Girl, com cabelos, roupas, ideias e voz expressivos, quase berrantes. É assim que Carrie divide o mundo entre as garotas cor de bege, verdadeiras pamonhas, e as garotas interessantes, aventureiras e livres. Só a partir dessa comparação que ela pode se afirmar como superior. Justamente por isso fica evidente que Carrie não é livre, ela sofre uma opressão que lhe faz dependente da escolha de um homem. Porque é com base na decisão de Big que ela se sente rejeitada e inferior. Enquanto tenta se salvar, ela reproduz o discurso opressor que separa as mulheres entre as vadias e as que são para casar; só que, nesse caso, afirmando que as que são para casar são umas verdadeiras otárias inferiores. Nada disso eu poderia perceber aos 15 anos, porque, assim como Carie, precisava desesperadamente de qualquer discurso para me afirmar. Precisava dizer que eu era livre e as outras eram mesquinhas, porque ainda não conseguia localizar de onde vinha minha opressão. Até hoje, em momentos escrotos, me pego dizendo “Nossa, mas aquela menina é tão sem graça, o que ele viu nela?”. Até pouco tempo tentava caber nesse papel de garota descolada que quer viver todo tipo de emoção e treta. Era frustrante quando percebia que não sou tão diferente das que suponha como as outras, porque também quero coisas simples como ser amada e mansamente feliz.

Foram necessárias muitas experiências ruins para alcançar algum autoconhecimento, para então, a partir da amizade que construí com algumas mulheres, curar esses erros e descobrir que a sororidade é o primeiro passo para sermos livres. O que só entendo agora é que não basta ser feminista para garantir meus direitos individuais; é preciso mudar a lógica, destruir o patriarcado que existe por dentro, limitando cada uma de nós. Porque vivemos em um mundo com mais direito para as mulheres, mas que ainda demanda que nossas vidas girem em torno de outros desejos. Não somos ensinadas a ter amor próprio e confiança, somos destinadas a ser amáveis ou desejadas; e é em função dessa cobrança que ainda competimos. Por isso que a sororidade é um conceito vital, é onde existe a verdadeira força do feminismo. Enquanto vivemos em uma sociedade que estimula a rivalidade entre mulheres, investimos em nos odiar. Quando nos dividimos, estamos reforçando o discurso opressor que dá ao nosso gênero uma série de demandas. Enquanto não olharmos uma para outra como amigas, não poderemos nos encarar no espelho com respeito e afeto. A cobrança, os esteriótipos e a competição nos reduzem e gritam que vivemos em função de algo que não é sobre nós. Só seremos livres quando reinvindicarmos o nosso desejo e formos primeiramente amigas. Eu não sou um tipo, eu sou mais uma garota.

1Para ver esse tipo de cena assista Broad City, melhor série sobre amizade entre mulheres.

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