Existe uma solidão libertadora. Quando estou longe de todos que me conhecem e supõem, posso não ser, observar o mundo sem impor minha identidade, história, hábitos. Acho que gosto de viajar sozinha por isso. Meu bairro é de um silêncio eterno – mesmo quando os carros buzinam – é um lugar que inspira distância. Embora isso já tenha me causado uma clausura doentia, agora é de outra forma. Existe uma solidão perigosa que diminui a vida. Sempre vou ter medo da depressão, porque quem entrou nessa sabe o quanto é difícil criar uma saída. Mas agora é como se sozinha eu pudesse fazer mais parte do mundo. Como se, finalmente, tivesse reconhecido meu lugar. Não é tão adorável quanto estar com os outros e se distrair em si mesma. É um pouco forte. Exige uma percepção que arrebata. É difícil querer pouco, não ter nada a contar, nenhuma história e expectativa. Mas eu não cedo mais as demandas que não são minhas. A presença das coisas me basta absurdamente. Porque acolhi minha solidão, agora pertenço ao mundo. A rádio todo dia me convoca a participar de uma comunhão invisível. Me agradam todos os clichês, as vozes forçadas, os enunciados, as músicas ruins e necessárias, a arrogância jovem, as banalidades irresistíveis. São esses pedaços, longes de mim, que me sustentam.

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