Rio de Janeiro, do amor à mercadoria.

Nota inicial: Tenho dificuldade para escrever textos em tom de denúncia; primeiro, porque apontar os erros alheios me parece uma tendência  atual que mais inviabiliza debates do que promove transformações, mas, principalmente, porque considero essa postura uma fuga de si mesmo. Desejo que essa crítica se faça de modo que eu não me esqueça dos sapatos que também calço, em outras palavras, as de Caetano – que já me denunciam -, neguinho que eu falo é nóis.
O Rio de Janeiro vive um tempo terrível, governado por homens interessados em sua potência de cidade-mercadoria. O lugar, enquanto ocupado por pessoas reais, isso é, de uma dimensão que vai além de um cartão postal, se desintegra. Os discursos de melhorias são convincentes para muitos, a mídia transmite um incrível projeto de revitalização, há obras por todos os cantos e um brilho no olhar daquele que brinca de Lego com o território alheio, Dudu. A cidade parece guiada por um ditadura consentida. Muitos reclamam da desorganização, do caos, do trânsito – que é o terceiro pior do mundo -, da violência e da corrupção. Entre as queixas, às vezes escorrem soluções. Uma vez um garoto de rua tentou entrar sem pagar no ônibus que eu estava. O motorista violentamente o mandou sair, passageiros concordavam, então, o garoto anunciou que tacaria pedras, era um ônibus com ar-condicionado e janelas de vidros grossos que não se quebrariam com a pedra, todos sabiam disso, mas o garoto expulso só tinha esse gesto para se autoafirmar e sua ousadia era suficiente para amedrontar. Ele tacou as pedras, todos faziam caras de horror, nada aconteceu, nem rachaduras, e prosseguimos a viagem, uma senhora chocada dizia: mas como pode? não tem ninguém, nem uma fiscalização, eles fazem o que querem. Ela sentia falta da repressão policial. Obviamente não usaria essas palavras, só queria uma proteção, só queria que as coisas permanecessem nos seus lugares. É atendendo a esses pedidos que a polícia começará a fiscalizar ônibus que saem da Zona Norte carioca em direção às praias da Zona Sul. Quem paga imposto alto e quem veio diretamente da Europa conhecer nossas maravilhas não pode sofrer a violência de arrastões. Nossos governantes sabem o que fazem e nossa população parece saber o que quer.
Uma história de amor não deveria ter nada a ver com isso, mas toda vez que assisto a série do canal Multishow chamada Do Amor me pergunto: Quanto vale essa vista?
A série conta a história de Lulu, uma fotógrafa estilosa que busca o amor no Rio de Janeiro. Na primeira temporada ela se apaixonou por Pio, um jovem professor de filosofia que está terminando sua tese de doutorado, mas já mora em um apartamento incrível com vista para a Lagoa. Eu, enquanto estudante de filosofia, me impressionava. Como a maioria dos meus amigos, não tenho grana para bancar nem o aluguel de uma kitnet. Até aí era apenas uma questão curiosa, mas normal, a ficção está cheia de personagens que vivem de modo misterioso e não há nada muito grotesco na licença poética que ignora a bolha imobiliária do Rio de Janeiro.
Porém, a segunda temporada mostrou o tamanho da relevância dos territórios da série. A beleza da Zona Sul do Rio de Janeiro não é apenas um fundo cenográfico, é o único lugar possível para originar e justificar as vivências daqueles personagens. Porque na segunda temporada, talvez cansados de circular apenas do Leblon até Ipanema, os personagens sobem o morro para realizar uma ocupação artística. Mas a ocupação não ocorre em um morro qualquer, é o Vidigal. É uma favela pacificada e com uma das mais belas vistas da cidade. A série faz uso disso, os primeiros episódios em que aparece o Ocupa Vidigal, a câmera mostra mais o mar do que os barracos. Além da ficção, o mercado também faz uso disso, bares, albergues e casas noturnas começam a se tornarem populares nos morros da Zona Sul carioca; agora que há a pacificação, é possível dançar Get Lucky e ainda desfrutar uma vista privilegiada sem correr riscos. O privilégio torna a vida mais cara, centenas de moradores precisam procurar outro lugar para viver, alguns pagam o preço da paz com a própria vida e outros ganham muitos likes no Instagram. Do Amor me faz perguntar quanto vale, porque a beleza nunca é gratuita; a beleza da cidade e a beleza de Lulu tem um preço, mas ninguém parece precisar pensar sobre isso.
Há uma cena que resume a ideia deste texto. Uma personagem ao tentar convencer Lulu a participar da ocupação diz: “De início eu achei meio árido, seco, mas também faz parte da nossa cidade, né? É necessário”. A favela enquanto compreendida como uma parte da cidade que precisa ser visitada, mais ainda, ajudada, é o local propício de uma missão civilizatória, a mesma que começou no Brasil em 1500 e que ainda persiste. Essa fala confessa essa crença, os produtores da série apostam em um público e ignoram que a criatividade carioca permite que a tv à cabo suba até a favela.
Voltando ao ônibus, eu também não fiz nada, não me ofereci para pagar a passagem, não argumentei com o motorista, não defendi o garoto ou me defendi. A única coisa que eu desejava era que o conflito acabasse logo para eu seguir com minhas obrigações sem precisar lidar com o que eu não via solução.
Mais cedo ou mais tarde, por compaixão ou justiça, a pedra nos atinge.
Leblon após manifestação na casa do Cabral

Foto: Mídia Ninja

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Rebentos de Woody Allen*

Cenários distintos que abrigam gestos e anseios de uma mesma temporalidade, Amores Imaginários e Histórias de amor duram apenas 90 minutos são dois olhares singulares sobre um comportamento convergente: a consagração do amor como sentido existencial.

Os dois filmes são produtos de um tempo no qual as barreiras parecem extintas e as repressões morais caducas, apontando a promessa de uma liberdade inédita. Contudo, em um mar de possibilidades, a idéia de não ter raiz a qual se agarrar assusta, a sensação de boiar é tamanha que só resta um enjôo, lá do fundo urge o nada. Defronte este temor, reagem dois comportamentos: a apatia e o desespero para se criar qualquer idéia que resista ao fluir.
Espelho nítido (talvez demais) deste anseio, Amores Imaginários movimenta-se em um tom cômico ambíguo – no qual a ironia insinua tanto humor quanto desprezo -, sustentando seu carisma pela empatia que produz. Xavier Dolan retrata um grupo marcante de seu tempo; jovens de gestos e gostos catalogados em um tipo que se espalha pelas grandes metrópoles do globo – vá a uma universidade de Comunicação ou Cinema e contemple alguns exemplos. Parte de sua graça e força reside na identificação que isto produz, mas, se por um lado o aconchego empático e o humor têm a ação conservadora de naturalizar estes comportamentos – tornando-os não só aceitáveis como também impassíveis de transformações -, por outro há o azedo da ironia que, mesmo desprovido de fôlego subversivo, delineia uma crítica.

Sem início e fim, a trama circula por amores obsessivos, um em especial: Francis e Marie, dois amigos que criam uma batalha para conquistar o amor de Nicolas, ser de beleza clássica e estonteante (Nicolas é o Tadzio dos anos 2000). O termo “conquistar” não é o mais apropriado, esta paixão não guarda uma vontade honesta de se realizar, é essencialmente frívola e inatingível. O que se deseja é um conceito de amor idealizado e puro, afastado da materialidade e seu vapor brutal – a beleza límpida de Nicolas é portanto concha que resguarda este conceito. Amar, neste caso, não é uma experiência na qual dois (ou mais) seres se encontram e se entregam no risco da vida compartilhada, mas uma adoração impune. O amor torna-se um campo desgarrado da realidade, onde reina a felicidade eterna e perfeita, longe do múltiplo e deteriorável do corpo. Medíocre e egocêntrico, o amor como gesto pra um é pleno em desperdício e insatisfação. E o sexo se encaixa como a realização de uma tarefa, uma necessidade física sem qualquer encanto ou troca – também com um enfoque exclusivamente individual, faz-se sexo pelo prazer (impotente) próprio.

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Talvez pelo ar lascivo que inspira o Rio de Janeiro, em Histórias de amor duram apenas 90 minutos a vontade de amar faz um caminho inverso ao de Amores Imaginários e se confunde com o prazer sexual. O amor é desejo – e desejar vai direto aos nervos, ao corpo, tão distinto da distância do adorar. No entanto, este deleite corpóreo é também contagiado de idealismo, a matéria é celebrada pelo gozo, o instante extremo que produz, e é este que se pretende sustentar, renegando o que há de efêmero e finito na carne.
O anti-herói de Histórias de amor duram apenas 90 minutos é Zeca, um escritor sem obra e inspiração que passa os dias a vagar. Carente de rotina e responsabilidades ele percebe-se solto – nenhuma ação define ou dá sentido a sua vida. Assim cai sobre si o extremo da angústia, mas esta é sentimento de instante – tal como o gozo -, se esvai e, então, chega à apatia. De tanto tédio – estado árido que não tem o vigor e o entretenimento sadomasoquista da angústia – Zeca inventa a paixão e lança-se num malabarismo de corpos que não dá chance ao marasmo. Ao criar um triângulo amoroso ele não ganha apenas o prazer sexual em dobro, mas principalmente a adrenalina aflitiva da culpa e do medo.

A surpresa vem quando até aquilo que aparenta ser a melhor maneira de desfrutar sua existência – amar duas mulheres ao mesmo tempo – o aflige. Seguindo a regra da insatisfação crônica e das neuroses – queridas por Woody Allen -, Zeca põe tudo a perder. Quando suas histórias de amor acabam resta somente o gosto do nada, do não-vivido que a fantasia proporciona. É a hora que a decisão se revela (embora estivesse sempre presente): Matar-se em nome da impossibilidade de uma vivência romântica de pleno gozo ou colar na rotina, no pobre do homem, na matéria em seu nível mais mesquinho em ser um eu?

O final de Histórias de amor duram apenas 90 minutos pode se agarrar a seu início, mas, ao contrário de Amores Imaginários, como um movimento de superação, uma onda que rebenta dos redemoinhos viciosos. Paulo Halm dá a Zeca a salvação, aquela em que não há nada de sublime, mas acolhe o que é ameno e mundano, onde o ofício supera o mito do dom e não há vontade de vida, pois se experiencia esta.

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Histórias de amor e Amores Imaginários, como produções artísticas, são narrativas que acolhem, exacerbam e revelam elementos de nosso tempo. O que há de mais comum nessas interpretações é também o mais sintomático: este amor contido nos títulos. Quando se busca o amor para que este dê eixo a própria existência, o resultado é uma posição autocentrada deste sentimento. Assim, a ideia de amar é mais desejada do que o outro, do que a pessoa que se ama. Quando só se procura o mesmo não ocorre o encontro. Com preguiça e temor se esquiva de qualquer vivência, em nome de uma absoluta e estéril fruição egocêntrica. Bauman explica melhor: “A promessa de aprender a arte de amar é a oferta (falsa, enganosa, mas que se deseja ardentemente que seja verdadeira) de construir a “experiência amorosa” à semelhança de outras mercadorias, que fascinam e seduzem exibindo todas essas características e prometem desejo sem ansiedade, esforço sem suor e resultados sem esforço.” O amor, espaço de dois, se mostra agora devaneio narcisista.

*Texto de 2011 publicado originalmente na Revista Cordilheira.

Frances Ha, a vida na era da propriedade privada

Todo texto guarda uma motivação egoísta. Há os poemas prontos para seduzir, os panfletos políticos, autoconvecimento, reafirmações, o gozo com a linguagem… Quase tudo que escrevo vem dessa necessidade de firmar em matéria – caneta encostando no papel cada sílaba até formar o significado – o que eu aprendo distraída. Esse texto vem de um lugar bem óbvio, sua mensagem está há anos no telefone sem fio da civilização, poderia escrever um guia para sair na revista entre as receitas e técnicas de emagrecimento. O que está na cara, o que vem como moral, dica, conselho, mantra, nunca adere. de que adianta, então, eu falar? Tentativa (arrogância – necessária) de ser um degrauzinho na percepção, de que eu não descreva minha verdade, mas que eu a perca e busque e pratique o exercício que é a aprendizagem.

Que o amor deve ser livre, que a posse nos torna mesquinhos e que a vida está do lado de fora, abundante de feridas, pedras e rosas-paralelepípedos, são obviedades repetidas há mais de meio século.

E no entanto, em 2013, estabelecimentos da Lapa me cobram até dois reais para usar o vazo sanitário.

A propriedade privada não é cruel apenas em limites geográficos, mas também nos determina no que é emocional. Edifícios, fones, aplicativos e relacionamentos sérios fazem parte de um mesmo projeto de mundo (e cada um guarda sua própria maravilha).
Dois filmes carregam essas questões, os dois são fábulas contemporâneas: Medianeras e Frances Ha. Enquanto o primeiro tem um tom de denúncia-tentativa e usa o problema dos limites territoriais para aludir à reclusão crescente em um mundo individualista, o segundo percorre, sem narrativa ou discurso crítico, uma história que ocorre todos os dias em diferentes graus.

A história de Frances Ha é a história da perda das propriedades privadas. Frances tem uma vida mais ou menos legal, mais ou menos frustrante, mas ela tem uma vida. Até que a ordem começa a despencar: primeiro ela perde o namorado (mas isso não tem muita importância na verdade)¹, depois ela perde o apartamento (aí sim, uma problema real), depois ela perde a melhor amiga, o fim do mundo, então, ela encontra um novo apartamento, mas perde o emprego e com isso perde de novo o apartamento. Tudo o que ocorre na trama é em função dessas posses que estruturam a vida de Frances: minha melhor amiga, meu apartamento, meu emprego. Obviamente não são perdas nem um pouco fúteis, mas neste cado nada é de uma gravidade alarmante: Frances é uma loirinha de 27 anos, instruída, com pais presentes em casa própria (mas que moram longe do sonho juvenil que é Nova Iorque) e inúmeras possibilidades de empregos que pagam a conta embora sejam extremamente desinteressantes. Então por que Frances Ha existe? Por que entramos em uma sala de cinema (com nossas lugares assegurados no momento da compra) para nos comover com a história desse filme?

Há uma cena decisiva que pode justificar ou não o filme. É essa cena que defini quem vai amar Frances Ha e quem vai esquecer. Frances está no ápice das perdas quando vai jantar no apartamento de um casal que tem, tem a fábula completa: não só um apartamento, mas dois, em Nova Iorque e em Paris, propriedade, amor, emprego, sucesso, filhos. Frances não tem nada, nem uma ambição para se afirmar. Um tanto fora de si – pelo contraste, pelo álcool -, ela diz, em um tom que vai do adorável ao maníaco, o que deseja: o que Frances quer para sua vida é um momento, um momento – desses de filme – em que ela está numa festa conversando com algumas pessoas e o seu amor também está nessa festa conversando com outras pessoas, então eles trocam um olhar, um olhar que é um elo, uma confissão, um refúgio. Frances não quer encontrar só essa pessoa, mas o olhar dela que vai infiltrar um ambiente público com uma segurança privada. Não é só o amor, mas o abrigo que este pode ser.

Frances Ha não é apenas a história da perda das propriedades privadas, mas da era em que a vida só se sustenta nesse âmbito. É preciso amar, é preciso ser, é preciso ter: as pessoas, o trabalho, a casa, a narrativa sempre em primeira pessoa. Quando a vida é ressignificada a partir do privado nos tornamos mais propensos à neurose, às tempestades em copo d’água e desejos anêmicos. A classe média sofre, não adianta debochar de sua dor, antes de menosprezar, ir até o sintoma que está na nossa comoção (no cinema, nas formaturas, nos matrimônios, academias, lojas de departamento) e encarar que as angústias passíveis ao ridículo são o berço dos horrores reais.

O capitalismo, como esses filmes, também é feito de fábula; toda mercadoria ocupa uma função exata em cada narrativa.
O amor tem lugar para você?

[1] É interessante que há uma nova geração de mulheres produzindo séries e filmes nos quais o amor romântico não é a questão central das protagonistas. Embora a ausência de uma preocupação quanto a ter ou não um namorado seja um avanço em termos de gênero (é ótimo ver uma personagem que nem faz uso  da palavra relacionamento e muito menos casamento), isto não significa que Frances não tenha uma postura que romantiza a vida.  Além disso, é óbvio que a segurança de ser amada recai sobre sua melhor amiga de modo que é só uma transação de posses e não uma transformação definitiva (e feminismo é mais interessante quando busca uma mudança da estrutura patriarcal).

Prazer

Prazer é um espetáculo apresentado pela Companhia Luna Lunera que parte da obra Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres de Clarice Lispector. Não se trata, no entanto, de uma adaptação, a peça apenas se apropria do tema sobre o qual o livro se organiza: O prazer como enfrentamento ao risco da dor.

A personagem do livro, Lóri, se retrai da experiência cotidiana e de seus possíveis prazeres pelo medo da dor. A questão de Lóri é que essa se sente acossada pelo universo (por si própria?), pressente as possibilidades que cada ato guarda e não se atreve ao dia-a-dia humano feito de perdas e conquistas, prefere a totalidade constante do sofrimento. É, então, que através do amor – um amor pedagógico – Lóri começa a compreender que a fuga da dor mina qualquer chance de felicidade e a condena a uma dor ainda maior. Para ser capaz de viver esse amor Lóri aprende os prazeres, os momentos de graça humana, contempla a intensidade da matéria efêmera.É claro, a alegria não vem impunemente, o risco é constante, mas para se construir uma vida humana é preciso enfrentá-lo, apesar de. Para ganhar antes se faz necessária a aposta. Freud, ao explicar o narcisismo, define de modo exato a questão:

Um forte egoísmo protege contra o adoecimento, mas afinal é preciso começar a amar, para não adoecer, e é inevitável adoecer, quando devido à frustração, não se pode amar.

Prazer situa esse medo dentro de nossa realidade pós-moderna. A diferença temporal entre o livro e a peça não parece suficientemente grande para que existam profundas mudanças históricas, porém é válido ressaltar que Uma aprendizagem é um livro de 1968 e, refletindo as tendências daquele ano, é o livro de Clarice mais próximo de um engajamento político. Já Prazer se dá neste tempo neoliberal em que a conquista de algumas liberdades (o Brasil democrático, por exemplo) custam o preço de repressões ainda mais íntimas.  Este abatimento que ronda os personagens de Prazer  poder ser visto como sintoma de um mundo em que a possibilidade de mudança parece mais inalcançável e nosso vigor quanto seres humanos é reduzido a medíocres existências isoladas em apartamentos. Essas são especulações minhas, o tema político não está presente na peça de modo literal, porém é impossível não associar esse mal estar individual às coordenadas de nosso período histórico (até porque a dor individual acomete a tantos que é realmente um problema social, estatísticas comprovam que em breve a depressão matará mais do que as doenças cardíacas[1]) .

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De fato, a Companhia Luna Lunera me parece criar obras sobre/ para nosso tempo, qualidade que considero essencial em qualquer empreitada artística. Assisti apenas duas peças da Companhia, Prazer e Aqueles Dois – que também parte de uma obra literária brasileira, um conto de Caio Fernando Abreu. Nessa peça, do mesmo modo que em Prazer, se fazem presentes as angústias e pressões da vida urbana, as mesquinharias e burocracias das repartições públicas e como brecha, os encontros e encantos que estão sempre por aí. São duas peças que criticam com compaixão as crises pequeno-burguesas[2] que nos acometem, ao mesmo tempo em que insinuam modos de sobrevivência dentro de tais circunstâncias claustrofóbicas. Como já disse é uma característica que me ganha, acho que só me interesso pelo que diz respeito ao meu tempo. Produzir qualquer coisa sobre o presente é um grande risco, mas a Cia. Luna Lunera parece tomar este risco, o risco da proximidade, como seu impulso. É nesta proximidade que se configura de modo mais brilhante a critica de Prazer, pois este é mesmo um tempo que se dá em pé-atrás.

Parênteses para mapeamento de tendências:

(Nosso tempo feito de velocidades e clausuras inéditas. Feito de: repartições, quitinetes, condomínios, áreas verdes calculadas, medo constante, a confusão entre prazer e lazer, a obrigação do gozo, mas primeiramente, a evitação da dor. Há um desencontro profundo entre as novas tecnologias de comunicação, irmãos dentro da mesma casa se comunicando via facebook (na verdade, o desencontro sempre houve e só está acompanhando as novas possibilidades de signos, quantos significados são possíveis em um curtir?). A internet contribui para fincar a ironia como língua materna (http://www.revistaserrote.com.br/2013/01/como-viver-sem-ironia-por-christy-wampole/).  Só que não, só que ao contrário, rs, entre tantos outros tiques de refúgio. A exposição constante parece ter reforçado o medo do ridículo, assim se evita qualquer fala própria e engajada, mais seguro pular de piada em piada. OBS: É notável que Caio Fernando Abreu e Clarice Lispector são dois autores alvos da ironia, tanto pela popularidade quanto por seus textos viscerais que para alguns é ridículo – mais um ponto de enfretamento dos riscos para a Cia.)

Fim do mapeamento.

A crítica de Prazer ao nosso pé-atrás contemporâneo não é elaborada na distância fria que se costuma associar a tal palavra. O prazer, como afirmação possível diante da paralisia do medo, não menospreza a potência de tal sentimento, o encara e provoca, beirando o quase sem sentido das depressões (o texto de Clarice, como alguns casos de depressão, demanda uma forte empatia para que não soe como um exagero histérico). Por vezes a peça parece se demorar em casos irrelevantes, mas a vida também não é assim em alguns momentos? Dar voltas sem sair do lugar, se enfiar em discussões de motivos minúsculos, remoer mágoas, situações tão recorrentes… E como se sai desses redemoinhos? Como se cria um movimento novo? É isto que me sinto incapaz de resolver neste texto. Pois a peça também não resolve esta questão, não é um guia prático de como sobreviver a melancolia da pós-modernidade, não se aponta o caminho a seguir. Os atores não estão ali repetindo uma mensagem, não é auto-ajuda, é uma experiência. Aí é questão de sentir ou não, se comover com a tentativa que aqueles seres humanos estão fazendo ali em cima daquele palco (e por que não ao seu lado em suas tentativas de sexta à noite?) ou não, é questão de entrega. A entrega ao prazer não é defendida, ela é executada bem na nossa cara e o contagio é certo, o corpo reage em lágrima e arrepio. Não cabe muito explicar o vigor de Prazer, o gozo não se sujeita às palavras.

*Usei neste texto vários termos repetitivos em minha poesia, são parte das minhas obsessões e reflexões. Uma aprendizagem, livro que inspirou Prazer, é muito caro a mim, trouxe entre tantas reviravoltas pessoais, o tema da minha monografia. Queria muito escrever um texto mais calmo e claro sobre a peça, mas sou incapaz justamente por essa proximidade. No blog da Luna Lunera é possível encontrar os dados que meu relato não comporta: http://cialunalunera.com.br/espetaculos/prazer/


[1] fonte: O tempo e o Cão, livro de Maria Rita Kehl que analisa a relação entre depressão e capitalismo.

[2] É necessário não ludibriar a realidade, esse tempo que falo tem sua materialidade, está nesse país, está numa classe que é a classe que pode frequentar teatros em centros culturais financiados por bancos que nos desejam uma boa diversão. O mundo em que se passa Prazer é o mundo daquele centro cultural, daquela platéia que busca em uma sexta à noite o quê? cultura? diversão? aprendizagem? transcendência?  alívio do tédio? matar as horas até amenizar a hora do rush? Estão ali essas questões, entre nós em nossas poltronas numeradas e entre eles no risco do palco.

A imperativa literatura de Cortázar

 

Não se lê Cortázar impunemente. A leitura de seus textos (que podem ser poesias, contos, teorias críticas, fábulas e nada disso, porque tudo isso são rótulos que são muito pouco) demanda uma adesão que provoca uma experiência transformadora.

“Muito do que escrevi se qualifica sob o signo da excentricidade, porque nunca admiti uma clara diferença entre viver e escrever; se ao viver consigo disfarçar minhas circunstâncias, não posso porém negá-la no que escrevo porque escrevo precisamente por não estar ou por só estar pela metade. Escrevo por incapacidade, por sempre deslocação; e como escrevo num interstício, estou sempre propondo que os outros procurem os seus e por eles olhem o jardim onde as árvores têm frutos que são, naturalmente, pedras preciosas. O monstrinho continua firme.”

Critérios para julgar a arte são sempre uma bola fora. O próprio Cortázar vai dizer em uma carta que entender algo é deixar de vê-lo. Assim, fixar a experiência artística – sempre singular – num amontoado de conceitos frios e explicativos será uma eterna tentativa falida. Se há algum critério que pode ser lançado dentro desta falha já declarada alguma perspectiva interessante diante dessa ação humana que é sempre estranha é o que mede a arte pela transformação que esta provoca. Em outras palavras, a experiência artística real (e podem gargalhar com a ousadia de ainda usar esta palavra) é aquela que exige de quem a vive uma mudança de vida. Não me interessa muito desenvolver um elogio a este critério ou expor seu grau de veracidade, mas apenas o utilizar como o melhor critério para abordar essa literatura que se desmancha e transborda e não cabe nos caducos critérios da seríssima Teoria Literária. Se pretendo falar de Cortázar é pela faísca que sua obra nos causa e, então, pouco importa uma crítica que se vale de sobriedade e distância, por aqui é pura empatia e contágio (o que ratifica minha tese, só para apontar que também há lógica) .

O que Cortázar propõe torna-se um imperativo quando entra pelos olhos, percorre estruturas internas e se fixa no estômago, nos poros e em todas as estranhas partes que são o corpo. E assim se abre como uma janela exigente: A vida como antes se constituía amolece, mais grave, tudo adere. O que se passa é a impossibilidade de algo ser banal – acordar, comprar o pão, atravessar a rua, tudo transborda um imenso risco. A influência que essa literatura tem é decisiva, pois modifica a cotidianidade, aquilo que é humano e passa longe do sublime. Assim, o que se altera é a percepção da existência – e não de uma simples sensibilidade momentânea concentrada no momento de leitura ou de contato com a arte -, tudo se mostra como é. Tudo palpita e há milhões de tons e poeiras e aromas nos contagiando de forma que cada passo exige muita atenção, não para se proteger, mas para ser numa entrega consentida que é um gozo do todo.

“Quando abrir a porta e assomar à escada, saberei que lá embaixo começa a rua; não a norma já aceita, não as casas já conhecidas, não o hotel em frente; a rua, a floresta viva onde cada instante pode jogar-se em cima de mim como uma magnólia, onde os rostos vão nascer quando eu os olhar, quando avançar mais um pouco, quando me arrebentar todo com os cotovelos e as pestanas e as unhas contra a pasta do tijolo de cristal, e arriscar minha vida enquanto avanço passo a passo para ir comprar o jornal na esquina”.

‘História de Cronópios e de famas’ limpa do hábito nossas tão comuns ações de chorar, cantar, dar corda no relógio… Descobre estas do nada extraordinário em que as enfiamos na rotina de ser humano. O olhar que Cortázar instiga às coisas e à existência é de uma transformação preciosa, principalmente em tempos em que a rua é mais passagem e vitrine do que espaço de contaminação, horror e encanto. A mudança de vida que Cortázar exige é política. Através da travessia de seus olhos se retira o véu plástico que corrói a matéria e a vida humana. O olhar se alonga e resiste ao narcisismo contemporâneo. Cortázar abre um sol na pele, um gosto de vida e nos faz ver. Essa visão que conhece e não reconhece, mas se espanta e delicia com as coisas, dá à existência uma fertilidade que a todo tempo nos é roubada. O extremo poder político que a obra de Cortázar possui não se dá então em um engajamento que ordena ideologias em versos, mas no modo como seus labirintos ardem às percepções.

 

“Essas crises que a maioria das pessoas considera escandalosas, absurdas, eu pessoalmente tenho a impressão de que servem para mostrar o verdadeiro absurdo, o absurdo de um mundo ordenado e calmo, com um quarto onde diversos caras tomam café às duas da manhã, sem que, realmente nada disso tenho o menor sentido, a não ser um sentido hedonista, o bom de estarmos ao lado deste aquecimento que se prolonga tão gostosamente. Os milagres nunca me parecem absurdos. O absurdo é aquilo que os precede e os que vem depois.”

 

O que Cortázar não sabe lidar e desafia em cada um dos seus textos que recriam a realidade é que esta seja constituída por fatos límpidos, limitados e óbvios. O sujeito, por exemplo, não é de forma alguma compatível com aquele que Kant ditou (e que assim transformou as vias de toda a existência humana, uma dose a mais de angústia para os ombros); existe sim o limite, somos todos recortes, cada um tem um grau e tom diferente de visão. Mas em Cortázar tudo está numa transfusão contínua, a influência é absurda (quase tão insuportável quanto o limite firme de Kant), todos estamos imundos de contato. E aí está a diferença do poeta (e de outros seres muito próximos dos Cronópios): a poesia tem uma questão ontológica. A poesia é um meio de alongar estes limites, é o desejo de ser. O poeta, então, é aquele que não se aguenta em seu ser, que precisa construir em palavras os outros – e em cada verso é uma nova realidade/ser que salta. (Aqui me contenho para não citar uma dúzia de poetas que escreveram sobre esta necessidade, mas cito dois: um óbvio, Fernando Pessoa e Manoel de Barros, além de Bob Dylan que não só escrevia como incorporava Outros).

Há assim uma relação muito importante e forte entre esta particular Visão, a poesia e os limites. E aí podemos escavar como essa poesia é política e modificadora. Quando se ampliam os limites, se compactua mais com outros seres e a visão se estende. É assim que se encontra a realidade pulsante, que se saboreia o outro e toda a vida ganha uma textura imensa, decisiva e até mesmo atordoante. Isso é de uma preciosidade máxima quando a matéria plástica corrói em velocidade pós-fordista a surpresa, o prazer genuíno, a graça de olhar um outro. O infértil mundo que vivemos entre hambúrgueres, vitrines e “comunicação” excessiva cria homens que nas ruas caminham voltados pra dentro com olhos cheios de hábito, o peito em pleno tédio, incapazes de ver, sem interesse pelo outro, vidas submersas em eu (essa fantasia humana que é o deus no sistema capitalista).

A poesia que é impulsionada por este desejo de ser é um exercício de visão. Porque inventar é um modo distinto de ser: ”…e se fazer de é muito mais que ficar à sombra: é feitorar com isenção de riscos, é gozar da mesma ranhura… pertencendo eventualmente”[1] A poesia do dia-a-dia, banalizada entre batatas-fritas e jogos de amarelinha, transforma a realidade quando estende os limites de cada “eu” e instiga a afirmação do inescapável contágio.

Cortázar nos exige rever o mundo, isto é, lavarmo-nos da apatia, da existência catalogada, ir às ruas com atenção e desenfreio, ver cada homem, se possível ser muitos, amar como quem descobre uma nova América em cada corpo, comer na surpresa de que existe comida, de que existem dentes, intestino, de que existe.  O flerte entre Surrealismo e existencialismo que Cortázar compõe é isto: O fantástico é que existimos, isso nos impõe a surpresas que sempre estamos escolhendo. Cortázar cola esse lembrete em nossos olhos, nos reacorda e vemos que só há vigília (porque só há sonho.).


[1] LANNACE, Ricardo Retratos em Clarice Lispector, pag. 47 Ed. UFMG, Belo Horizonte, 2009.