Só a sororidade salva

Sex and the city foi uma série muito importante na minha formação. Antes dela não existia, na minha vida de adolescente, mulheres que falavam sobre sexo abertamente. Era, no mínimo, pedagógico. Sou grata ao seriado mesmo que ele tenha se transformado em algo… estranho (ainda considero a primeira temporada uma pérola da TV). Aquelas quatro mulheres foram minhas companheiras quando eu não entendia nada sobre sexo e tudo dizia que só existia um tipo de final feliz. Com 14 anos eu já era feminista, mas me faltava noção de muitas coisas – provavelmente ainda falta -, mas algumas convicções me salvavam a vida. A série me ensinou sobre possibilidades, de repente descobri que podia me masturbar, ser feliz solteira, ter cabelo cacheado e volumoso (uma noção preciosa em plena era das escovas progressivas), ser uma escritora, transar no primeiro encontro, usar roupas de gosto questionável se eu gostar e por aí… Tudo isso foi muito importante. Mas uma coisa a série não me ensinou: amor próprio e sororidade.

Embora a série seja sobre amizade, é muito mais sobre homens. Não existe nem um episódio em que as personagens estão lá, de boa, usando pijama, comendo bobeira e conversando, sei lá, sobre a vida1. Elas conversam sobre homens a maior parte do tempo. Mas isso não é o pior, o que só agora posso reparar é como esses homens falam sobre elas. O episódio que foi mais marcante para mim é o último da segunda temporada em que Carrie, inspirada por “The way we were”, tem uma epifania e conclui que o mundo é dividido entre as Katie girl e as simple girl. Essa epfinania bateu em mim tão forte que preciso até hoje me forçar para entender o básico: não existem tipos de garotas, existem pessoas, algumas compartilham o mesmo gênero e, portanto, a mesma opressão, nesse caso, elas são, sobretudo, suas irmãs. Em sex and the city não existe sororidade, porque não existe nem amor próprio. O contexto desse episódio é o seguinte: Carrie está tentando se recuperar de Big, seu ex-namorado, que foi morar na França, mas não com muito sucesso até que descobre que ele está noivo. Então, Carrie se apoia em “The way we were” para criar a teoria que salva os resquícios de sua autoestima. É claro que a noiva é considerada a simple girl, sem graça, perfeitinha, inexpressiva, calada. Carrie é a Katie Girl, com cabelos, roupas, ideias e voz expressivos, quase berrantes. É assim que Carrie divide o mundo entre as garotas cor de bege, verdadeiras pamonhas, e as garotas interessantes, aventureiras e livres. Só a partir dessa comparação que ela pode se afirmar como superior. Justamente por isso fica evidente que Carrie não é livre, ela sofre uma opressão que lhe faz dependente da escolha de um homem. Porque é com base na decisão de Big que ela se sente rejeitada e inferior. Enquanto tenta se salvar, ela reproduz o discurso opressor que separa as mulheres entre as vadias e as que são para casar; só que, nesse caso, afirmando que as que são para casar são umas verdadeiras otárias inferiores. Nada disso eu poderia perceber aos 15 anos, porque, assim como Carie, precisava desesperadamente de qualquer discurso para me afirmar. Precisava dizer que eu era livre e as outras eram mesquinhas, porque ainda não conseguia localizar de onde vinha minha opressão. Até hoje, em momentos escrotos, me pego dizendo “Nossa, mas aquela menina é tão sem graça, o que ele viu nela?”. Até pouco tempo tentava caber nesse papel de garota descolada que quer viver todo tipo de emoção e treta. Era frustrante quando percebia que não sou tão diferente das que suponha como as outras, porque também quero coisas simples como ser amada e mansamente feliz.

Foram necessárias muitas experiências ruins para alcançar algum autoconhecimento, para então, a partir da amizade que construí com algumas mulheres, curar esses erros e descobrir que a sororidade é o primeiro passo para sermos livres. O que só entendo agora é que não basta ser feminista para garantir meus direitos individuais; é preciso mudar a lógica, destruir o patriarcado que existe por dentro, limitando cada uma de nós. Porque vivemos em um mundo com mais direito para as mulheres, mas que ainda demanda que nossas vidas girem em torno de outros desejos. Não somos ensinadas a ter amor próprio e confiança, somos destinadas a ser amáveis ou desejadas; e é em função dessa cobrança que ainda competimos. Por isso que a sororidade é um conceito vital, é onde existe a verdadeira força do feminismo. Enquanto vivemos em uma sociedade que estimula a rivalidade entre mulheres, investimos em nos odiar. Quando nos dividimos, estamos reforçando o discurso opressor que dá ao nosso gênero uma série de demandas. Enquanto não olharmos uma para outra como amigas, não poderemos nos encarar no espelho com respeito e afeto. A cobrança, os esteriótipos e a competição nos reduzem e gritam que vivemos em função de algo que não é sobre nós. Só seremos livres quando reinvindicarmos o nosso desejo e formos primeiramente amigas. Eu não sou um tipo, eu sou mais uma garota.

1Para ver esse tipo de cena assista Broad City, melhor série sobre amizade entre mulheres.

Rio de Janeiro, 30 de maio.

Ontem, que dia. Começa como qualquer história, eu estava quietinha na minha casa. Mas eu precisava sair, apesar do trânsito, da vontade de não deixar o conforto, da hesitação diante dos riscos; eu precisava. No caminho, o modo como o sol bate no livro me lembra daquele outro livro e às vezes também decido que vou eu mesma comprar as flores. Alguém diz coisas, muitas que você não entende, algumas que não são do seu interesse, mas dizem, pedem o troco, vendem balas e, embora o meu descontrole, é bom fazer parte: pertencer é viver. Pertencer nem que seja a essa comunidade tão óbvia da cidade Rio de Janeiro (acho que o índice de suicídio ainda é baixo, porque o mar cura). O automático de passar o tempo nas livrarias já conta uma história de ancestrais, mas agora olho mais o celular do que os livros. E entrar no cinema, porque sim. Sem saber a história, sem ler comentários, sem trailer, sem se preparar. Entrar naquela sala, na comunidade da sala 3 do  Estação Botafogo. Eu gosto muito dos velhinhos que frequentam cinemas, era um prato cheio. Não entendo o que motiva esse entretenimento, esse filme, especialmente, chega a ser uma violência. Oslo, 31 de agosto. Rio de Janeiro, 30 de maio. Tem quase 30 dias que eu faço 24 anos, o personagem tem 34. A depressão e o seu reverso. Não posso dizer se vou ou não voltar. Mas agora estou aqui e é bom. Alguém na história precisa morrer para que a vida salte. Minha vida sem mim. Como calcular o impacto de um gesto sobre os outros(o que me inclui)? Não sei se quando mudei de cadeira atrapalhei a visão de quem estava atrás. Sei que uma mulher se incomodou com o barulho que a sacola de papel do meu lanche fazia. No final, amassei tudo com vontade.

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O feminismo é para todos?

 

Tavi Gevinson uma vez disse “O feminismo não é um livro de regras, é uma discussão, uma conversa, um processo”. É porque concordo com essa ideia que faço o esforço de escrever esse texto. Nada do que digo aqui deve ser compreendido como um julgamento, mas como uma avaliação a partir da minha experiência pessoal. Para que isso não soe como um relativismo, talvez seja melhor começar explicando minha compreensão sobre o feminismo. Acredito que o feminismo é – e deve ser – um movimento plural, cheio de conflitos, porque está salvo de uma ideologia e de uma moral. Mas, enquanto feminista, tenho um código ético – que é bem diferente de regras – que passa sobretudo por uma máxima: dar voz às mulheres. Então penso que o feminismo é uma luta plural e sem códigos resolvidos que quer dar voz às mulheres.

figuring out feminism by tavi gevinson

Para mim o feminismo é extremamente importante, porque como mulher sou estimulada a não participar de uma série de experiências que a sociedade julga inapropriada para o meu sexo. Ser feminista é algo antigo no que sou por esse simples e egocêntrico motivo. Muitas mulheres precisam do feminismo por razões muito mais urgentes e hoje tento pensar meu engajamento mais a partir delas do que de mim. No entanto, o feminismo é e sempre será uma luta pessoal em que está em jogo o meu direito de escolher como quero viver. Este texto nasce a partir de um incômodo com as pessoas que confundem o feminismo com um livro de regras ou que não respeitam esse movimento enquanto um processo individual pelo qual cada mulher pode conquistar seu próprio empoderamento.

O feminismo ganhou força nos últimos anos. Essa afirmação pode ser contestável, porque estou falando a partir do que vejo e eu sou uma mulher privilegiada de classe média que mora no Rio de Janeiro e tem acesso (até demais) à internet. Sei que a violência de gênero está firme em muitos lugares do mundo. Mas, com o pouco que a internet consegue, já vejo algumas mudanças. Pelo menos entre eu e minhas amigas há uma indignação mais evidente, não conseguimos mais aturar caladas os assédios cotidianos e essa revolta produz uma união, nos apoiamos. Mas mulheres unidas em uma causa que diz respeito só a elas incomoda, incomoda muito. Junto com essa força vieram inúmeros haters fundamentalistas ou simplesmente babacas que fazem questão de nos ofender em caixas de comentário da internet e na vida real (se é que se pode se fazer essa distinção). É terrível, mas faz parte e é preciso não se abater. Vivemos em um tempo com muitas possibilidades e algumas pessoas, diante do perigo da liberdade, só sabem chamar pelos pais, por uma ordem que diga como o mundo deve ser.

Porém, não só de violência explícita é feita a repressão. Atualmente vejo um número maior de homens que se posicionam a favor do feminismo e isso é, obviamente, ótimo. No entanto, frequentemente esse apoio vem junto com ressalvas. Aí já não sei se alguns homens estão apenas confusos, mas tentando honestamente entender e participar do feminismo, ou se esse posicionamento é resultado de motivos desonestos. Um exemplo é a onda de escritores que resolveram se ocupar do tema “A Mulher”. Esses textos escritos por homens que amam as mulheres e acham que elas vão dominar o mundo (oi?) são sempre muito elogiosos e passam por temas que vão desde cortes de cabelo – que aparentemente revelam a essência de um ser humano (se ele for do sexo feminino, é claro) – até o gosto por dar. Seria muito engraçado, se esse tipo de literatura ruim não gerasse tanta admiração (e não estivesse ocupando um lugar que poderia ser para alguém que tem algo relevante para dizer). Tenho certeza que esses escritores acham que são feministas. Eu me pergunto quantos textos escritos por mulheres eles leem. Me pergunto até que ponto eles vão apoiar o feminismo ou se só gostam de mulheres livres quando é conveniente.

É claro que existem homens que apoiam o feminismo para além desse feminismo feito para pegar mulher. Mas em muitos casos ainda falta uma consciência sobre o modo de se colocar e de expressar suas opiniões. Basicamente, ainda existe muito apego às opiniões. O que eu gostaria de pedir a um homem que se preocupa com a liberdade das mulheres e que quer apoiar o movimento feminista é: esqueça um pouco de você e de suas opiniões por um tempo. Aliás, esse é o conselho que eu dou a qualquer ser humano que queira viver alguma aprendizagem na vida, porque, enquanto nos agarramos as nossas convicções, não há espaço para o novo. No caso de um engajamento em um movimento social é ainda mais necessário, porque você nunca pode compreender a vivência de um grupo oprimido, se não abandonar suas impressões que pertencem a um grupo opressor (Eu , por exemplo, não posso falar pelas mulheres negras, não tenho como compreender de verdade o tipo de opressão que elas vivem, são elas que devem comunicar suas experiências). Observo muitos homens com boas intenções dando opiniões sobre o feminismo e profundamente ofendidos quando uma mulher o refuta. Por que quando um homem fala em defesa da mulher, ele não aceita que uma delas discorde ou o questione seu posicionamento? E por que as mulheres negam essa defesa? E principalmente, se trata de uma opinião ou de um mero pitaco dado sem uma reflexão mais atenta e de fato preocupada com o movimento? Esse tipo de comentário – especialmente em redes sociais – parte de uma tentativa de diálogo ou de uma simples vontade de expor uma opinião engajada e esclarecida?

Acho que essas são algumas questões que a devemos nos colocar quando vamos opinar sobre uma minoria que sofre algum tipo de repressão. É o mínimo que se deve pensar antes de falar ou de escrever. Se queremos dialogar para tentarmos juntos vencer as desigualdades e injustiças, devemos questionar o nosso privilégio e atentar para que nosso discurso não ratifique de alguma forma a opressão. Escrevo aqui em terceira pessoa para deixar claro que é um processo e que estou nesse processo. Para mim, o feminismo não é um girl power que serve apenas para eu ser livre em minha realidade privilegiada, minha luta não acaba em mim, em função disso, preciso ter a sensibilidade para perceber quando é a hora de falar e quando é a de ouvir. Isso não é apenas um modo de ser gentil com o outro e permitir que ele fale por conta própria de suas experiências. Partir do pressuposto de que alguém precisa ser salvo já é reduzir sua autonomia e cair na mesma lógica que provoca todo tipo de violência.

Portanto, o que eu gostaria de pedir a um homem que queira apoiar ao feminismo é que antes faça parte: leia textos e livros escritos por mulheres, converse com mulheres, observe como somos olhadas e tratadas nas ruas. E se não poder opinar é incômodo, pense que está indo no caminho certo para compreender qual foi a realidade das mulheres por séculos (milênios?). Um bom livro para entender isso é “Um teto todo seu” em que Virginia Woolf fala sobre as necessidades materiais para que uma mulher possa se tornar uma escritora. Talvez esse tipo de leitura ilumine a questão e demonstre que são anos e anos de silêncio forçado das mais diversas formas, através de constrangimentos morais impostos pelas normas da sociedade ou de impossibilidades financeiras. Jane Austen escreveu seus livros na sala comum de sua casa e precisava esconder seus escritos toda vez que alguém passava por perto. Quando um homem parou para me encarar na rua sussurrando coisas incompreensíveis e eu perguntei “O que foi?” causei uma irritação próxima ao ridículo e recebi como resposta um “Não posso olhar, não?” junto com alguns xingamentos. Em outro caso de reação parecida ouvi “Pra mim mulher é pior que animal, é só um buraco”. Há anos homens falam o tempo inteiro as coisas mais impensadas e violentas. Quantas mulheres podem contar suas experiências de vida sem sofrerem algum tipo de recriminação? Muitas vezes nem nos consultórios médicos podemos ser honestas. Por que alguém deve falar pelas mulheres? O que se encobre nessa necessidade tão urgente de opinar?

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O feminismo é para todos, já que a violência do sexismo afeta ambos os gêneros. Mas ele é um movimento que parte das mulheres e é sobre as mulheres. Isso não se trata de superioridade feminina ou ressentimento pelos homens, é apenas um modo de tentar reverter a desigualdade histórica que condenou milhares de mulheres ao silêncio. O feminismo é um movimento para dar voz às mulheres para que elas possam viver suas próprias experiências, dores, erros, descobertas e para que elas mesmas se salvem da violência a que são submetidas.

 

os deuses são da ordem do real

 Era uma vez, querido diário:

Hoje eu bati com a cabeça. Enquanto colocava o saco de pão de queijo congelado no meu recente galo, lembrava de Lena. É bem triste bater com a cabeça enquanto está dançando, triste e ridículo. Sou dessas que recebem ataques em geral de choro ou raiva por causa de coisas pequenas. Não chorei com a cabeça na quina, mas quase. Muita gente acaba sendo desse nível de esbarrão. Na última aula do mestrado, eu morria de sono até que acordei: os deuses são do campo do real. É, acho que não superei minhas heranças. Até agora não recebi santo, mas dediquei a vida toda ao descontrole. A gente é feito de identificação e nesse recorte a incoerência é certa. Se por um lado tentei ordenar tudo de acordo com as minhas expectativas, isso foi só minha cólera, meu olho brilha quando tudo vem e não sei de onde ou pra quê. Por exemplo agora, esse ano em que tentei colocar minha vontade no papel e nenhuma lista segurou os dias. Existir sem previsão é meu melhor modo de ser. Parece insensato viver do imprevisto. Dos meus vinte e três anos, nascer é bem parecido com deixar um prato cair e me apaixonar é o mesmo que errar o cálculo e levar com força a cabeça até minha prateleira cheia de livros. Me educaram para ser uma pequena iluminista rodeada de razão, só que (daí vem todo o terror) minha casa sempre foi a de praia. O temporário fincou em mim o que não é mais meu, mas o que uso como força. Foi no mundo sem hora, feito de grama e caixote, que descobri e escolhi o que me faz estar aqui. 

não sou eu quem me navega

ERRÂNCIA

Só porque
erro
encontro
o que não se
procura

só porque
erro
invento
o labirinto

a busca
a coisa
a causa da
procura

só porque
erro
acerto: me
construo.

Margem de
erro: margem
de liberdade

(Orides Fontela)

Em muitos momentos a vida parece indomável, porque é. Ainda assim acordamos ou tentamos, todos os dias vestimos o que convém, procuramos as obrigações, o que paga as contas e nos mantém de pé. É preciso a cada manhã fingir convicção. Mas, de vez em quando ou sempre, aparece uma hora – que pode durar um ano ou um minuto no metrô – em que não dá. As coisas perdem o formato, se derretem para o prazer ou apertam a agonia. Porque perder a manha de fingir saber é se desgarrar de qualquer sentido. É possível ir do suicídio à redenção.

Minha vida existe além de mim – felizmente, hoje eu ouso dizer. Antes d’eu nascer meu pai teve um pai que não sabia ser pai; minha mãe foi a filha caçula que conseguia enganar a irmã. Aconteceram noites que eu nunca poderei saber e elas estão em mim. Quando dois caras resolveram brincar de racha e quase mataram meu pai, eles fizeram um pouco de mim. Quando um ônibus nunca passou e fez meus pais conversarem pela primeira vez, eu já nascia.

Nascer é se inserir em uma confusão milenar. Suspeito que se não assistisse Malhação depois da escola enquanto tomava um milkshake teria outra compreensão sobre o sexo. Se meus bichos de estimação não morressem tão rápido, eu poderia ter menos medo de me apegar. Se meu primeiro amor não tivesse saído da escola, eu nunca teria conhecido o meu segundo amor, Henrique – o primeiro de uma outra série de meninos implicantes e ambíguos, mas que no fim me davam uma bala acompanhada de promessas.

Ainda assim, feita de tantos acidentes, insisti em saber o que eu seria. Mesmo quando minha realidade me frustrava, acreditava – com a convicção que só uma filha única pode ter – que ainda seria.

Eu demorei pra realmente querer colocar a cara no mundo. Sem pensar ou medir, aos dezenove anos comecei a beber vodka. Ainda não sabia que ir à rua, como eu ia, era um exercício sem volta. Quando eu ia à Lapa era só para me distrair. Até que virou experiência, não mais história pra contar. Ia mais longe do que o calculado. Meus erros diziam que eu já não sabia mais. Em outro lugar que não o previsto, quem eu era parecia um nada. A angústia foi meu primeiro contato com os erros. Quando percebi que estar no mundo era perigoso resolvi recuar. Sentir o descontrole que tinha sobre mim mesma  me paralisava.

Sem querer a gente vai se habituando, reaprendendo a marcar o tempo e, com sorte, algo comove. Uma noite vi esse descontrole nos olhos de outro e então  a vontade foi maior que o receio. Nada coube no que esperava. Foi aí que já não podia mais dizer coisas como erro. Foi a experiência que me deixou sem nenhuma viga. Já estava agora fora, encarando o além.

Só mais uma vez e outra usei minha mania de imaginar para distrair as horas. Idealizei uma meia dúzia de destinos. Sempre dá errado, mesmo quando é exatamente o que eu queria. Ao fim acabo em outro lugar livre da predestinação.

Lá, na minha coleção de miniaturas, existe o que eu imaginei meu destino. Aqui sem o amparo das narrativas, existe o que deu-se que. Os quartos que eu não contava. O impulso que só vem com um erro de cálculo. Às vezes que fui embora entre o desespero e a certeza. As obsessões que me levaram aos consolos. O amor em silêncio. Quando me rompi. Quando todos nós se perderam.

Enquanto insisto ou abro mão de ser exatamente o que sou a vida acontece e comprova que não sou dona do meu corpo e da existência que misteriosamente o abriga. Eu sou um presente de uma invenção passageira.

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Rio de Janeiro, do amor à mercadoria.

Nota inicial: Tenho dificuldade para escrever textos em tom de denúncia; primeiro, porque apontar os erros alheios me parece uma tendência  atual que mais inviabiliza debates do que promove transformações, mas, principalmente, porque considero essa postura uma fuga de si mesmo. Desejo que essa crítica se faça de modo que eu não me esqueça dos sapatos que também calço, em outras palavras, as de Caetano – que já me denunciam -, neguinho que eu falo é nóis.
O Rio de Janeiro vive um tempo terrível, governado por homens interessados em sua potência de cidade-mercadoria. O lugar, enquanto ocupado por pessoas reais, isso é, de uma dimensão que vai além de um cartão postal, se desintegra. Os discursos de melhorias são convincentes para muitos, a mídia transmite um incrível projeto de revitalização, há obras por todos os cantos e um brilho no olhar daquele que brinca de Lego com o território alheio, Dudu. A cidade parece guiada por um ditadura consentida. Muitos reclamam da desorganização, do caos, do trânsito – que é o terceiro pior do mundo -, da violência e da corrupção. Entre as queixas, às vezes escorrem soluções. Uma vez um garoto de rua tentou entrar sem pagar no ônibus que eu estava. O motorista violentamente o mandou sair, passageiros concordavam, então, o garoto anunciou que tacaria pedras, era um ônibus com ar-condicionado e janelas de vidros grossos que não se quebrariam com a pedra, todos sabiam disso, mas o garoto expulso só tinha esse gesto para se autoafirmar e sua ousadia era suficiente para amedrontar. Ele tacou as pedras, todos faziam caras de horror, nada aconteceu, nem rachaduras, e prosseguimos a viagem, uma senhora chocada dizia: mas como pode? não tem ninguém, nem uma fiscalização, eles fazem o que querem. Ela sentia falta da repressão policial. Obviamente não usaria essas palavras, só queria uma proteção, só queria que as coisas permanecessem nos seus lugares. É atendendo a esses pedidos que a polícia começará a fiscalizar ônibus que saem da Zona Norte carioca em direção às praias da Zona Sul. Quem paga imposto alto e quem veio diretamente da Europa conhecer nossas maravilhas não pode sofrer a violência de arrastões. Nossos governantes sabem o que fazem e nossa população parece saber o que quer.
Uma história de amor não deveria ter nada a ver com isso, mas toda vez que assisto a série do canal Multishow chamada Do Amor me pergunto: Quanto vale essa vista?
A série conta a história de Lulu, uma fotógrafa estilosa que busca o amor no Rio de Janeiro. Na primeira temporada ela se apaixonou por Pio, um jovem professor de filosofia que está terminando sua tese de doutorado, mas já mora em um apartamento incrível com vista para a Lagoa. Eu, enquanto estudante de filosofia, me impressionava. Como a maioria dos meus amigos, não tenho grana para bancar nem o aluguel de uma kitnet. Até aí era apenas uma questão curiosa, mas normal, a ficção está cheia de personagens que vivem de modo misterioso e não há nada muito grotesco na licença poética que ignora a bolha imobiliária do Rio de Janeiro.
Porém, a segunda temporada mostrou o tamanho da relevância dos territórios da série. A beleza da Zona Sul do Rio de Janeiro não é apenas um fundo cenográfico, é o único lugar possível para originar e justificar as vivências daqueles personagens. Porque na segunda temporada, talvez cansados de circular apenas do Leblon até Ipanema, os personagens sobem o morro para realizar uma ocupação artística. Mas a ocupação não ocorre em um morro qualquer, é o Vidigal. É uma favela pacificada e com uma das mais belas vistas da cidade. A série faz uso disso, os primeiros episódios em que aparece o Ocupa Vidigal, a câmera mostra mais o mar do que os barracos. Além da ficção, o mercado também faz uso disso, bares, albergues e casas noturnas começam a se tornarem populares nos morros da Zona Sul carioca; agora que há a pacificação, é possível dançar Get Lucky e ainda desfrutar uma vista privilegiada sem correr riscos. O privilégio torna a vida mais cara, centenas de moradores precisam procurar outro lugar para viver, alguns pagam o preço da paz com a própria vida e outros ganham muitos likes no Instagram. Do Amor me faz perguntar quanto vale, porque a beleza nunca é gratuita; a beleza da cidade e a beleza de Lulu tem um preço, mas ninguém parece precisar pensar sobre isso.
Há uma cena que resume a ideia deste texto. Uma personagem ao tentar convencer Lulu a participar da ocupação diz: “De início eu achei meio árido, seco, mas também faz parte da nossa cidade, né? É necessário”. A favela enquanto compreendida como uma parte da cidade que precisa ser visitada, mais ainda, ajudada, é o local propício de uma missão civilizatória, a mesma que começou no Brasil em 1500 e que ainda persiste. Essa fala confessa essa crença, os produtores da série apostam em um público e ignoram que a criatividade carioca permite que a tv à cabo suba até a favela.
Voltando ao ônibus, eu também não fiz nada, não me ofereci para pagar a passagem, não argumentei com o motorista, não defendi o garoto ou me defendi. A única coisa que eu desejava era que o conflito acabasse logo para eu seguir com minhas obrigações sem precisar lidar com o que eu não via solução.
Mais cedo ou mais tarde, por compaixão ou justiça, a pedra nos atinge.
Leblon após manifestação na casa do Cabral

Foto: Mídia Ninja

Sobre a revitalização da Lapa*

Os homens da ciência recobriram o mundo da realidade com um papel de parede que está caindo aos pedaços. O grande prostíbulo em que eles transformaram a vida não precisa de decoração, basta apenas que os esgotos funcionem direito. A beleza, a beleza feita que nos segura pelos colhões nos Estados Unidos acabou. Para desvendar a nova realidade é preciso antes destruir os esgotos, abrir os canos gangrenados formadores do sistema geniturinário que supre as excreções da arte. O cheiro do dia é permanganato e formol. Os esgotos estão entupidos com embriões estrangulados. [1]

Faz parte da nossa contemporaneidade o não-lugar. Assim como há o outro despido de alteridade, há o lugar oco marcado pelo mesmo e pela impossibilidade de identidade, produtos da globalização e dos projetos ocidentais: Shopping Centers, lanchonetes internacionais, condomínios e Barras das Tijucas que vão se espalhando por uma cidade-mercadoria.

O não-lugar é fundamental na lógica capitalista contemporânea. Para compreender essa quase antinomia, não vejo exemplo melhor do que a ordenação do carnaval, isto é, a megalomaníaca operação do estado do Rio de Janeiro para anunciar e monitorar a festa que tem como marca o abandono de tais convenções. Qual a função de entupir a cidade de enfeites informando a chegada do carnaval? Por que é preciso monitorar os vendedores ambulantes, os foliões e seus mijos? Não acredito que seja uma questão de apenas evitar tumultos. Me parece que, além das sempre presente associação com empresas privadas (quem pulou carnaval sabe qual cerveja foi mais vista e vendida), esse controle integra um projeto de ordem que cria cercadinhos permissivos aos gozos livres de perigo, de pulsão de morte – neste novo carnaval há limites para se dilacerar. A operação de choque é sintomática porque demonstra a incitação e a continência do gozo que a lógica dominante impõe.

O não-lugar se integra neste panorama como extensão de um projeto de limpeza. Tornar o mundo livre de sua dose de perigo e de imundice – até os defuntos passam por longos processos de embalsamento e maquiagem, até a morte é disfarçada. Esse é um projeto de mundo mesquinho e infértil que me enerva aonde for, mas a questão da revitalização da Lapa me dói um pouco mais.

Porque os lugares, diferentemente dos não-lugares, possuem memória e descobertas – quem já se mudou de um imóvel no qual viveu por muito tempo entende disso. A Lapa, em seu caos de abrigar diferentes tipos de pessoas e culturas, em seu desenfreio e brutalidade, foi o lugar vivo de um risco que se apresentou a mim. Assistir a liberdade do gozo que existe na Lapa (o que é uma coisa muito subversiva) ser pouco a pouco esmagada pela pavimentação, pelas lanchonetes e lojas de conveniência, pelos condomínios, pela valorização imobiliária, é rasgar fotografias sem cópia. Não são as minhas memórias apenas, é a história do lugar que vai se embranquecendo com a imposição de elementos do não-lugar.

Há aqueles que se reviram ao pensar no horror da Lapa, aquele nojo, aquele tumulto. Gente apaziguada porque agora pelo menos há uma ordem, operação de cães, podrões fiscalizados, o filho não vai ser roubado por pivete nem ter infecção alimentar. Eu não nego o horror da Lapa. Mas o horror da Lapa é um risco humano. A rua em todas as possibilidades, um lugar em ir frêmito, em dores profundas, em corpos (que são almas) carcomidos, a busca incessante de qualquer coisa que arde ou afague (e geralmente arde, muito). A Lapa é precisa. Não aceito que se queira anestesiar a Lapa, que ela se torne um lugar do qual se possa sair impune. Ir à Lapa é uma contaminação.

A Lapa é precisa num mundo de conforto, de elevadores, clausura, da segurança do sempre mesmo gosto dos departamentos de fast-food. Em toda violência humana que vivemos atualmente o que se nega é o Risco. O risco é próprio à rua. Tornar os caminhos óbvios, pacíficos e estéreis; esse é o projeto. É uma questão política defender o Risco, o caos e o horror da Lapa quando este é uma resistência a um horror mais mortífero, o horror infértil do progresso capitalista. É preciso não consertar a vida.

Nota 1: Esclarecimento final: Este texto é um relato, por isso o tom pessoal, ingênuo e quase poético demais. Portanto, acho válido explicar que há acontecimentos mais fortes e urgentes do que estes de minha história pessoal. De qualquer forma, acredito que eles coincidem nesta mesma questão e provocam o mesmo tom de revolta. Só pra apontar: há a violenta expulsão de moradores mais pobres, o Cores da Lapa, a parceria com marcas de cervejas que se encontra até em grafites, os garis da Lapa, a tropa de choque impossibilitando o show do Nova Lapa Jazz (um dos poucos eventos culturais e gratuitos) e tantos outros absurdos. Para uma análise factual e inteligente deste triste processo, recomendo a tese de Bruna da Cunha Guterman:
http://www.ippur.ufrj.br/download/semana_pur_2010/completos/Artigo%20Semana%20PUR%202010%20Bruna%20Guterman.pdf

Nota 2: Vídeo de 2013 na Lapa: 

[1] MILLER, Henry, Trópico de Câncer…

* Texto de 2011 publicado originalmente na Revista Cordilheira.

Sobre o Recanto Escuro de Gal

(…) é ao aceitar voluntariamente o risco de morte numa luta por puro prestígio que o homem aparece pela primeira vez no mundo natural; e é ao resignar-se à morte, ou revelá-la pelo discurso, que o homem chega finalmente à sabedoria, concluindo assim a história.

O Circo Voador lotado, eu e meus amigos com aquela alegria e fome de uns vinte anos, prontos para receber um momento histórico, ver uma mulher histórica, adoramos museus (com essa idade a vontade de história é forte). Mas Gal não se dá em contemplação fácil. É possível, claro, colar o momento no seu mero status, sacar os celulares e colecionar, mas aquela voz só convida a experiência do instante. Recanto Escuro é um show histórico não por essa euforia de querer fazer parte, mas por Gal que vem carregada de seus escombros e canta mais uma vez, dessa vez só seu canto. O álbum é um presente de Caetano que interpreta, traduz e sugere a amiga. Gal diz que Recanto Escuro era seu, chorou ao ouvir e isso significa que já estava nela. É um canto de quem foi do tudo dói até o outro lado azul do muro, um retorno que nunca é uma simples volta. E parece que Gal realmente não salta, é carregada, acolhe umas canções, topa uns shows e nele a história se dá. Porque se estava ausente dos palcos e dos últimos grandes lançamentos, as gals que foi estão por aí esbravejando fôlego nos fones de uns novinhos. É no show que ocorre a reconciliação, o peso de uma mulher em negro ainda lasciva como a Gal de Fa-Tal, mas de uma presença sóbria, sábia. O Recanto Escuro para mim é um lugar de morte. O canto atravessa isso em um reconhecimento quase melancólico de um verso que é berrado Know that one day I must die, I’m alive. A Gal de agora ainda berra que não temos tempo de temer a morte, mas esse lema de uma geração ganha outro tom. Afirmar que tudo é divino e maravilhoso após Tudo Dói é o local de quem fez uma experiência de morte (de uma mãe, em uma depressão, em um futuro) e agora, sim, berra. O show faz mesmo um movimento de roda-gigante, de um escuro pesado a momentos alegres e hits (das festas de computadores tão recorrentes do Rio de Janeiro meio pobre de novo) como Barato Total. A alegria se faz presente, mas não é leve, nem gratuita, é daqueles que sabem que a felicidade não vem impunemente. Gal se entrega ao que foi sem nostalgias; admira-se quando é ovacionada, mas não se surpreende, porque não precisa de modéstia, reconhece a potência que é (e também não abandona o ar de diva). Sendo Gal em todas as versões, se reinventando, tomando sua voz, esse caminho de matéria solta, na possibilidade total que é a criação, ela retoma a história em movimento, ela é a história. Naquela lona que eu tanto retorno, a história se deu, a história é o que atravessa a morte: aposta o preço do seu risco, se deslumbra com o absurdo dos limites e aceita se lançar ou ser carregado parte de um todo em descontrole.

(Na minha memória eu sei que esse dia será sempre marcado pelo dia depois. Eu tenho vinte e dois anos e corro muitos riscos, a todo o momento poderia ser a gente, ainda não é, isso é um espanto. Faltou uma palavra nesse texto que eu tanto uso, até tenho na pele: viver.)

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A ciência do particular em Nan Goldin

 

Para que existe a ciência se não para ordenar a realidade e assim melhorar a qualidade de nossas vidas? Mas o que move o homem à ciência, um tal desejo de saber, vai muito além de missões iluministas. Almodóvar em seu “A Pele que Habito” escancara sem modos a dose de obsessão impregnada nesta prática. Desejo e obsessão rodeiam o homem desde seu inútil e ainda encoberto início. A ciência e suas tecnologias podem disfarçar com seus impulsos civilizatórios e descobertas de cura para a humanidade, mas sem aberrações não se fazem “avanços”. O desejo científico se traduz na ação obcecada de analisar, catalogar, desvendar e agora também transmutar a realidade. Assim, a utilidade científica é apenas a consequência, o motor é o susto primordial diante de nossa estranha condição humana. Desembuchando, lanço minha teoria: e se alguns artistas fizessem uma ciência do particular; observando, analisando e catalogando elas mesmas e as pessoas que compõem sua realidade de modo tão investigativo e obcecado quanto daqueles que estudam fungos? Uma ciência completamente inútil devotada a objetos únicos – seres humanos. Estudar uma pessoa, documentar uma vida, particularidade máxima, histórias não se repetem e portanto terminadas as teorias e conclusões não há onde se aplicar; afinal, se você ainda acredita na eficácia nos conselhos, me desculpe estragar o barato… Ciência e arte que tanto se repelem encontram-se aí no mesmo desespero e empenho obsessivo em criar possíveis ordens para a realidade incessante.

Nan Goldin é PhD sobre sua vida e sobre seus amigos. Um legendado inútil, não fosse incrivelmente belo – taí um esboço de utilidade que não serve pra nada da arte nos comunicamos entre o que não se diz e é emocionante. Nan é mestre dessa ação arriscadíssima de lançar-se ao sempre improvável do outro. Destemida, ela investiga, fotografa, até ver, até conseguir, não o catálogo entediado e já exausto do amigo que repete as mesmas histórias e escolhas terríveis, mas o deslumbre de conhecer cada ação e ainda não ter acesso a nada (assim como físicos que estudam a galáxia feito a mais bela das namoradas e só chegam a fórmulas estonteantes – e desesperadoras para alunos do ensino médio – e nunca a sua essência). Nan permanece curiosa e obcecada por seus pequenos objetos de documentação, por isso seus relatos são preciosos, eles não nos dão retratos redondos de pessoas sem pontas, mas a suspeita de que é possível ir além. As fotos de Nan Goldin nunca nos dizem tudo, elas perturbam, provocam mais perguntas do que respostas.

No entanto, a curiosidade de Nan não é voyeurística. Ao contrário de Diane Arbus que fotograva freaks com o olhar de quem está à parte (quase como um interesse antropológico), Nan está envolvida com o que fotografa, ela faz parte dos freaks. Assim, a câmera não é um meio de expiar, mas de narrar. Estabelecer essa relação Arbus e Goldin faz pouco sentido, contudo, é uma boa oposição para entender as diferentes posturas que essas mulheres tomaram diante de suas câmeras (e vidas). A fotografia para Nan Goldin não era um meio para adentrar em realidades diferentes da sua, mas de conhecer a sua própria realidade. Há um documentário sobre seu trabalho chamado “I’ll be your mirror”, o título é genial, pois é esse o papel de sua câmera: espelho através do qual Nan enxerga sua vida.

“There is a popular notion that the photographer is by nature a voyeur, the last one inveted to the party. But I’m not crashing; this is my party. This is my family, my history”.

É através da fotografia que Nan Goldin consegue reter a vida e transformar o que é incessante fluir em imagens estáticas e físicas (num sentido de se ver a imagem ser revelada, diferente do instantâneo das câmeras digitais). As fotos são, portanto, consequência de uma necessidade emocional, elas recortam a realidade e tornam-na passível de uma narrativa. A câmera é um meio de controlar a existência que lhe escapa, esse exercício intenso de documentação do que a rodeia é um desejo de ordenar e também de conhecer. Alguns aspectos da vida de Nan Goldin favorecem essa necessidade emocional que define seu trabalho; o suicídio da irmã de 18 anos, o uso intenso de drogas que intensifica a sensação de perda de controle, os amigos morrendo aos poucos de AIDS e os relacionamentos amorosos problemáticos. Mas, honestamente, basta estar vivo para saber que não existe controle desde do parto até a morte, alguns esquecem do risco, outros lidam com essa impotência estudando engenharia genética, Nan Goldin disparou obcecada sua câmera.

É preciso abrir mais janelas

– ou ensaio sobre Medianeras.

É preciso construir mais janelas. Que há os tetos que acostumamos só para desligar um corpo já amortecido. O chão de cada dia tecido na agonia de quem bate cabeça no mesmo, censura geométrica. E os meios que criamos pra permanência das vitrines – as novas celas. Um oco de arrastar pedras impunemente. A vida em esteira infértil.

Mas esta pavimentação ainda não adstringiu meus poros. Que são dilatados como a mania de encontros. Minha derrota é sempre a mesma: todos tem freios nos nervos e o outro só tem gosto quando não se ultrapassa o limite dos pronomes. Limite, essa coisa que os filósofos crentes que são de linhos d’ouro afirmam, esquecem o corpo fluxo imperativo que é feito de pequenas mortes e gozos. Sinto meu útero e percebo a transfusão dominante entre as mil folhas.

O tempo é de clausuras. na pele. nos prédios. nas vistas. A ilusão do limite, do Eu,bolha perambulante, constrói a realidade em esbarrões. Autismo por opção, perceber mais ofertas que um corpo vivo.

Andamos encharcados de Eu em um contato que não acerta passo com o contágio universal. Nossa vida é tão delimitada em linhas quanto os apartamentos. Fazemos de cada um de nós galáxias impermeáveis. A rotina é esse debater doentio, em busca, em busca, em busca. De uma salvação. De um pouco de amor. De um ar tão livre e verde quanto as utopias que cerramos como parte do ridículo da adolescência.

Repetimos todos os dias os erros. Caímos no cômodo de caber no tempo, na cidade. E da busca acabamos só no alívio. A vida pequena, a migalha que engolimos por carência e os pontos cristalizados – aquele resto da criação que nos torna preciosos, espaço possível pra se falar de “eu” – que descuidadamente cedemos porque é preciso ser homem, ser mulher, trabalhar, pagar as contas, papos médios, calar a dor, se embriagar e esquecer em qualquer sexo morno e morrer sem raízes e laços.

O Mal-estar desta história de analgésicos e prazeres plásticos. Os olhos vidrados em corredores espelhados. A melancolia porque nos vemos tão pequenos (não gozamos mais a beleza do todo). Essa tentativa diária que é a espera de uma salvação, mas salvar-se não é vida em fantasia, sem risco, sem dor. Viver não tem cura. E temos feito de nosso caminho um estático narcísico.

Abrir mais janelas (pra que entrem todos os insetos, que se aceite nosso inevitável perigo que também aponta o quão tudo é maravilhoso). A entrega às vezes tem um gosto de sangue e de um peso de sentir e compactuar demais. Se desprender da própria pele e escavar uma brecha pra arriscar, arde. Até que bate o fresco de Eu ser um arrepio, como capim nascendo nos dedos e então se transcende das malditas paredes.

(vejam Medianeras!)