Existe uma solidão libertadora. Quando estou longe de todos que me conhecem e supõem, posso não ser, observar o mundo sem impor minha identidade, história, hábitos. Acho que gosto de viajar sozinha por isso. Meu bairro é de um silêncio eterno – mesmo quando os carros buzinam – é um lugar que inspira distância. Embora isso já tenha me causado uma clausura doentia, agora é de outra forma. Existe uma solidão perigosa que diminui a vida. Sempre vou ter medo da depressão, porque quem entrou nessa sabe o quanto é difícil criar uma saída. Mas agora é como se sozinha eu pudesse fazer mais parte do mundo. Como se, finalmente, tivesse reconhecido meu lugar. Não é tão adorável quanto estar com os outros e se distrair em si mesma. É um pouco forte. Exige uma percepção que arrebata. É difícil querer pouco, não ter nada a contar, nenhuma história e expectativa. Mas eu não cedo mais as demandas que não são minhas. A presença das coisas me basta absurdamente. Porque acolhi minha solidão, agora pertenço ao mundo. A rádio todo dia me convoca a participar de uma comunhão invisível. Me agradam todos os clichês, as vozes forçadas, os enunciados, as músicas ruins e necessárias, a arrogância jovem, as banalidades irresistíveis. São esses pedaços, longes de mim, que me sustentam.

a solução é desistir

Clausura

Nasci. Haveria de estar
preparado para a vida, mas
continuo na sala de espera.
Quem abrirá esta porta?
Que continente ou que
cidade se descortina
além da laje dos meus olhos?
Sugestões me fascinam
mas a visão ceifada
não alcança outra margem.
A mão trêmula se
confunde, e torna baixa
a um beijo, um chamado
de estreita possibilidade.
Estamos prestes a marchar
mas o inimigo é escasso
e destrói nossos anseios.
De novo uma tentativa, outra
e outras tantas,
que o presente absorve o ódio,
o orgulho, o afago:
O tempo é de conformação.
No escuro formulamos
a sentença e o sorriso
que haverão de romper
o medo. Projetamos
nossas forças e arrepios
além das graves paredes.
Gastamos fardos de sonhos,
trigo e confissões:
Engravidamos a mente,
no escuro preparamos.
Mas ao primeiro lampejo
das matizes da manhã,
de novo nos corrompemos
e voa nossa esplanada
e nossa razão premente
em forma de anel extinto.
Perguntamos:
Até quando?

Cacaso (1964)

Parece que escrevo sempre sobre a mesma coisa. Não importa o formato do texto, pode ser minha monografia, poesia ou um ensaio. Talvez não seja exatamente o mesmo tema, acho que é uma vontade que permanece. Acho que ainda não sou uma escritora muito boa – ou a que eu pretendo ser – porque ainda tenho uma moral; eu tento afirmar. Esse texto nasceu em mais um momento em que buscava uma solução.
Eu só tenho 23 anos e como a maioria dos meus amigos estou tentando dar um sentido (o que é uma solução) para minha vida. Vivemos esse período em que não somos mais adolescentes, mas também não somos adultos, há muitas possibilidades e junto com ela o peso das decisões. Basicamente vivemos entre a ansiedade e a angústia tentando ser quem somos. Eu já escrevi sobre isso, sobre esse ser exatamente o que a gente é que nos leva além. Mas eu ainda preciso me repetir. A minha vontade, essa que se faz presente no que estudo e escrevo, é mostrar que esse eu é feito de uma materialidade. Cada um de nós não somos feitos, mas estamos sendo em um processo muito antigo e inacabado. Mais claramente: todas nossas necessidades e possíveis frustrações são construídas em nosso tempo, nada é destino ou essência.
Porque é possível dar uma outra solução para a vida. Eu poderia me preocupar exclusivamente com a existência enquanto um projeto separado do mundo. E é mais ou menos isso que fazemos quando somos possuído por essa angústia. A maioria das vezes em que sofremos é por nos sentirmos muito especiais, é por não sabermos contextualizar nossas necessidades – a depressão pode ser um tipo de narcisismo. É importante que eu enfatize: esse “nós” se dirige aos meus amigos, a esses jovens privilegiados que ainda assim passam por tantos problemas. Não quero parecer que estou relativizando a dor ou dizendo que as dificuldades pessoais são sempre superáveis, não pretendo ser autoajuda, eu acho. É nesse caso, nesse tipo de clausura em que nós mesmos nos metemos. Porque há uma diferença entre a dificuldade de um jovem negro e pobre que cresceu na favela e a nossa dificuldade, quase risível, mas fruto de um mesmo processo que condena a todos a uma realidade estreita. É que o nosso caso, dos jovens privilegiados, a dor tem muito mais o peso das crenças do que da materialidade.
A ideia de juventude como qualquer construção social é formada por normas, suposições e mentiras repetidas até se tornarem fato. O erro começa quando acreditamos, quando nos apegamos às generalizações e assumimos uma identidade. É a partir disso que começam as cobranças e pressões desnecessárias. Porque então supomos que é assim, que sempre foi assim e aceitamos como imutável essa coisa tão facilmente montável a que chamamos de realidade. E é difícil não se resignar com o conforto de ser igual as personagens de Girls (ou não porque qualquer pessoa com vontade de ser melhor não pode ficar tranquila com esse tipo de comparação) ou de fazer parte de uma geração.
Até agora a única solução foi desistir. Desistir da identidade, da predestinação, de encontrar a verdade, dos romances de geração ou formação (e a Fenomenologia do Espírito é um deles). Desistir como um modo de assumir o descontrole que impera no mundo. Assumir uma relação com uma outra angústia que permita criar algo além de voltas sobre si mesma, um mar aberto em vez de redemoinhos. O universo é indiferente às nossas histórias como motoristas de ônibus cariocas que ignoram o seu sinal. Nossos corpos estão para sempre perdidos em toxinas, é tudo absurdamente sem solução ou finalidade, então por que ainda insistimos em encontrar essa tolice que chamamos de “si mesmo”?
A solução só pode ser se engajar no mundo em todo seu conflito. A data do poema diz muito sobre a matéria da clausura.

porque ainda te encontro nos meus livros

Você nunca segurou minha mão. Sempre quis amiga a relação, sem limites ou amor. Você é desses que diz “admiração”, “competência”, “companheirismo. Eu não. Eu “paixão”, eu “pra caralho”, eu “pra vida toda”. Seja amigo, seja foda. Se bem que não, mais amigo do que foda. Você nenhuma das opções: destino. Porque era antes, então palavras bocós de tão ingenuas. Porque lá – no mesmo bar que passou há uma semana sem me tocar – quando você me dizia que era inédito esse lance de olhos impossíveis, era antes. Arrependimento é tão descabido quanto apostar em predestinação. No fim, vivi mesmo a volta ao dia em 80 mundos. Meu vestido vermelho no auge da decadência. Escroto escrever, lembrar e não ter reconhecimento. Só posso ter sido uma louca descabida. Agora sou um tédio. E você, erro que vira mísera historinha. Livre da cristalização do desejo – que admiração é coisa de otário -, é só mais um rapaz fluente na linguagem universitária. Uma mesmice que dá preguiça. Como todo o resto. Aliás, tenho tentado opostos. Não só do sexo, mas de vocação. Quanto mais inocente, melhor. Porque sempre é sobre mim. Tem isso, agora, ser sobre mim, essa dificuldade incontornável (bem que eu tentei ser minha mãe). Talvez fosse assim para você sem laços e afetos fortes. Eu ainda sinto muito. Mas não sou árida, sou até estúpida, oceânica. O que me fere é isso. Eu pedia ritmo, você se interessava pela minha opinião. Tenho cada vez menos. É difícil construir essa unidade “eu”. As células que me habitam não são as mesmas daquele ano. O terrível é isso: passa. O que sobra é ralo. Um suspiro num 433 ou no bar que nunca te levei. Aquele domingo carregava na bolsa distraídos venceremos. Demorou, mas sei de cor.

sobre nascer, violência e narcisismo.

 A história da humanidade é feita de cruéis performances. Mas talvez a mais cruel seja a que nos impõe coerência e estabilidade. Somos obrigados ao sentido, a chamar de vida esse tempo ocupando um corpo – três palavras quase impossíveis de delimitar.

Parece fácil. A cada dia renasce mais forte o aparato que se dispõe a guiar as vontades e os deveres. Até que algo se dái. Algum erro desponta. E o sentido só se mostra enquanto expectativa, enquanto algo que se afasta a cada tentativa. O sentido é nossa grande necessidade – dizem que é o prazer, mas não é, porque mesmo os prazeres recebem uma ordem de linguagem. E nos enrolamos nele a cada manhã em que o mundo, esse real que precisamos ignorar, se intromete no cálculo dos planos.

Porque essa palavra “vontade” também é feita de muitos possíveis e quase nunca condiz com o que se deve. É um impasse antigo. Hoje colocamos em uma economia miúda: por que tudo que é gostoso engorda? e dá-lhe a criação de comidas plásticas sem gordura trans. Algumas mulheres – o inconsciente coletivo nos presenteou com as múltiplas cobranças e o dever das habilidades – conseguem equilibrar o pacote completo: trabalho, academia, pizza com o mozão, capirinha light com as amigas, caminhada com os filhotes. Mente & corpo devidamente cuidados a felicidade vem logo. Até que nunca.

É claro que a maioria é mais dissimulada e enfrenta cotidianamente esse terror imprevisível que é a vontade. Mesmo isso tem sua ordem. O que é uma família se não o que coloca os desvios em uma dinâmica estruturada? As brigas entre pais e filhos são uma repetição incontornávelii. A violência encontra seus meios, ela tem seu espaço guardado nas economias públicas e privadas. A violência só é ignorada no sentido.

A violência que digo não é um tapa – pode ser também, mas não é. A violência é nascer, essa extrema particularidade que logo é destinada a limites universais: ser mulher ou ser homem, ser russa ou ser brasileira, ser pobre ou ser rico. A violência é o completo descaso diante de um recém-nascido, esse ser desnecessário e pedinte. E no entanto é envolvido em amor. Há um tempo que se enfatiza o amor, a necessidade do amor, e enrolam crianças como se fossem bonecas, objetos. Amar é outra coisa, outra coisa incapaz de desviar da violência de que nada naquele outro corpo me diz respeito e que, contudo, eu só faço sentido, só me enuncio eu, em relação a ele. Amar tem mais a ver com um bebê sendo alimentado pela comida mastigada pelo avô.

Esse texto é claramente influenciado pela psicanálise. Mas é sobre literatura, ela que diz em alguns parágrafos uma teoria que demorou anos para se construir. É sobre “Infância” de Górki, um livro escrito no mesmo ano em que Freud escrevia “Introdução ao narcisismo”. Dois livros centenários que dizem muito sobre o lugar em que a humanidade se encontra.

Freud tratava da burguesia. É preciso não esquecer que as condições materiais influenciam decisivamente as estruturas psíquicas – mas o que Freud comprova é que não há escapatória, o dinheiro, ainda não compra a paz de espírito, até por que é isso que se quer? Górki escrevia sobre sua infância miserável. Todas as famílias são perversas, mas quando cada boca é um peso imperativo, a crueldade se torna um meio de sobrevivência.

A contemporaneidade permite que essas duas obras ainda existam em uma força assustadora. A psicanálise foi usada de todas as formas possíveis. Existe um golpe diante da teoria freudiana, como aconteceu com tantos outros pensadores que falaram sobre o bem e a felicidade. Se na idade média os padres liam Aristóteles, hoje todo publicitário (que é sempre um político) precisa conhecer o inconsciente e sua pulsão de morte. Aqui não me interessa ser didática, fazer resenha,explicar obras e autores. Já fiz uma monografia e cada um sabe o que é a infância além da nostalgia. É preciso um pulo para dizer sobre o que é importante agora. A teoria do Eu é a que comanda nosso sentido ocidental capitalista em que o dinheiro é religião e gozar é um dever. A violência (com) que Górki escreve, no entanto, persiste independente do CEP. Por toda cidade, cada casa guarda sua farpa. Independente do dinheiro, mulheres apanham, crianças são feitas de pombo correio e no natal todos se amam como podem. A diferença é que agora até na favela se dá um jeito de ter TV à cabo, facebook e smartphoneiii. Isso definitivamente não nos iguala em dor e possibilidade. Não é questão de correr atrás. Não é investir na educação o que falta. Talvez alguém esteja na rua porque quer, mas ainda falta muito para entender o querer que comanda nossas vidas. Não somos iguais em nada além disso. A violência é estrutural.

A diferença não está no âmago. Mas existe uma diferença essencial sobre o cuidado das crianças. Freud criou uma teoria do narcisismo em que existe o cuidado e o amor dos pais diante da perfeição e da aparente imortalidade do recém-nascido. Mas crianças pobres ainda são fruto apenas de desespero. Cem anos depois, essa teoria da devoção à criança resultou em um a geração millennials que deseja tanto ser especial que não produz nada além de angústias autocentradasiv. As crianças que cresceram com o mundo prometido inevitavelmente precisaram encarar a vida fora dos condomínios, das famílias, das certezas privadas. E ele continua tão violento quanto era em 1914. O sentido agora é especialmente individual. A ilusão que se dá a cada ser humano como um presente de batizado é que ele tem uma história, um lugar a conquistar, ele é especial,15 minutos de fama nem que seja no Esquenta. Dentro disso, cada um faz o que pode, eu escrevo, alguns se tornam traficantes. Somos todos iguais e isso é amargo, não é alívio. Porque ainda não podemos ser iguais. Porque a minha violência é compreensível e um menino do morro é sempre um bandido em potencial – e um bandido, eles dizem, só é bom morto. No horário em que a classe média estiver especialmente agressiva dentro dos seus carros no trânsito da Gávea, Datena ou qualquer um que faz a performance da coerência dará início a um tiroteio. Não há violência maior que essa moral, o discurso de ódio que diz em nome do bem, da felicidade, da Ordem&progresso. Enquanto roda os comerciais, alguém morre, na Rocinha ou em Oslov, pelas mãos da polícia ou do sentido; pelas mãos de um imperativo que corrói  cada corpo jovem.

i Tenho 32 planos.
52 projetos.
30 estruturas perfeitas.
O dia é claro e calmo e tem 24 horas.
De repente chega o desejo e estraga tudo.

(Gonçalo Tavares)

ii Como sempre acontecia nos feriados, comeram de forma cansativa, por muito tempo e em grande quantidade, e parecia não serem as mesmas pessoas que, meia hora antes, berravam umas com as outras, à beira de se atracarem, e que ferviam em lágrimas e soluços. Eu mal podia acreditar que tivessem feito tudo aquilo a sério, que chorar fosse algo doloroso para eles. E as lágrimas, os gritos e todos os tormentos recíprocos, que rebentavam com frequência e extinguiam-se rapidamente, tornavam-se rotineiros para mim, cada vez me afetavam menos, tocavam o coração de maneira cada vez mais fraca.

Muito mais tarde, compreendi que os russos, em razão da indigência e da penúria de sua vida, em geral adoram distrair-se com a própria desgraça, brincam com ela como crianças e raramente se envergonham de ser infelizes.

Na monotonia interminável dos dias úteis, até a desgraça é um feriado, e até um incêndio é uma distração; num rosto vazio, até um arranhão é um enfeite.

(Górki)

iii Criolo que é adorado pela classe média jovem, especialmente a universitária (ou existe outra?), falou sobre isso em um tom que beira o patético, apesar de ser extremamente claro e se tornou objeto de piadas eternas. Aparentemente não entenderam ou não quiseram. É mais legal aproveitar o show e fechar os olhinhos na Lapa depois de gastar 60 reais em um ingresso.

iv A depressão é a doença da minha geração e é muito próxima de uma desistência diante de um mundo que promete todos os prazeres e não cria nenhum querer. Porque querer, desejar, não é contar com a satisfação, é de outra ordem. Nós não estamos acostumados a lidar com esse esforço, não temos fibra pra desviar do sentido, da promessa e ir até onde nada está decidido, é risco e, aí sim, vontade. Minha geração não tem vontade, tem caminhos e entretenimentos disponíveis, não tem vontade, é apegada demais a um sentido, esse de berço, e não consegue querer criar um sentido – porque a questão não é desistir, é desistir deste sentido a que estamos ensimesmados. Nos afundamos em bolor, ninguém nos segura, mas estamos paralisados.

v Oslo é uma cidade conhecida pela sua qualidade de vida e pelo enorme número de suicídios. Oslo, 31 de agosto é um filme sobre depressão, seu vazio, seu silêncio e sua indiferença com a vida. É também um filme sobre viver nem que seja por um dia.