A ciência do particular em Nan Goldin

 

Para que existe a ciência se não para ordenar a realidade e assim melhorar a qualidade de nossas vidas? Mas o que move o homem à ciência, um tal desejo de saber, vai muito além de missões iluministas. Almodóvar em seu “A Pele que Habito” escancara sem modos a dose de obsessão impregnada nesta prática. Desejo e obsessão rodeiam o homem desde seu inútil e ainda encoberto início. A ciência e suas tecnologias podem disfarçar com seus impulsos civilizatórios e descobertas de cura para a humanidade, mas sem aberrações não se fazem “avanços”. O desejo científico se traduz na ação obcecada de analisar, catalogar, desvendar e agora também transmutar a realidade. Assim, a utilidade científica é apenas a consequência, o motor é o susto primordial diante de nossa estranha condição humana. Desembuchando, lanço minha teoria: e se alguns artistas fizessem uma ciência do particular; observando, analisando e catalogando elas mesmas e as pessoas que compõem sua realidade de modo tão investigativo e obcecado quanto daqueles que estudam fungos? Uma ciência completamente inútil devotada a objetos únicos – seres humanos. Estudar uma pessoa, documentar uma vida, particularidade máxima, histórias não se repetem e portanto terminadas as teorias e conclusões não há onde se aplicar; afinal, se você ainda acredita na eficácia nos conselhos, me desculpe estragar o barato… Ciência e arte que tanto se repelem encontram-se aí no mesmo desespero e empenho obsessivo em criar possíveis ordens para a realidade incessante.

Nan Goldin é PhD sobre sua vida e sobre seus amigos. Um legendado inútil, não fosse incrivelmente belo – taí um esboço de utilidade que não serve pra nada da arte nos comunicamos entre o que não se diz e é emocionante. Nan é mestre dessa ação arriscadíssima de lançar-se ao sempre improvável do outro. Destemida, ela investiga, fotografa, até ver, até conseguir, não o catálogo entediado e já exausto do amigo que repete as mesmas histórias e escolhas terríveis, mas o deslumbre de conhecer cada ação e ainda não ter acesso a nada (assim como físicos que estudam a galáxia feito a mais bela das namoradas e só chegam a fórmulas estonteantes – e desesperadoras para alunos do ensino médio – e nunca a sua essência). Nan permanece curiosa e obcecada por seus pequenos objetos de documentação, por isso seus relatos são preciosos, eles não nos dão retratos redondos de pessoas sem pontas, mas a suspeita de que é possível ir além. As fotos de Nan Goldin nunca nos dizem tudo, elas perturbam, provocam mais perguntas do que respostas.

No entanto, a curiosidade de Nan não é voyeurística. Ao contrário de Diane Arbus que fotograva freaks com o olhar de quem está à parte (quase como um interesse antropológico), Nan está envolvida com o que fotografa, ela faz parte dos freaks. Assim, a câmera não é um meio de expiar, mas de narrar. Estabelecer essa relação Arbus e Goldin faz pouco sentido, contudo, é uma boa oposição para entender as diferentes posturas que essas mulheres tomaram diante de suas câmeras (e vidas). A fotografia para Nan Goldin não era um meio para adentrar em realidades diferentes da sua, mas de conhecer a sua própria realidade. Há um documentário sobre seu trabalho chamado “I’ll be your mirror”, o título é genial, pois é esse o papel de sua câmera: espelho através do qual Nan enxerga sua vida.

“There is a popular notion that the photographer is by nature a voyeur, the last one inveted to the party. But I’m not crashing; this is my party. This is my family, my history”.

É através da fotografia que Nan Goldin consegue reter a vida e transformar o que é incessante fluir em imagens estáticas e físicas (num sentido de se ver a imagem ser revelada, diferente do instantâneo das câmeras digitais). As fotos são, portanto, consequência de uma necessidade emocional, elas recortam a realidade e tornam-na passível de uma narrativa. A câmera é um meio de controlar a existência que lhe escapa, esse exercício intenso de documentação do que a rodeia é um desejo de ordenar e também de conhecer. Alguns aspectos da vida de Nan Goldin favorecem essa necessidade emocional que define seu trabalho; o suicídio da irmã de 18 anos, o uso intenso de drogas que intensifica a sensação de perda de controle, os amigos morrendo aos poucos de AIDS e os relacionamentos amorosos problemáticos. Mas, honestamente, basta estar vivo para saber que não existe controle desde do parto até a morte, alguns esquecem do risco, outros lidam com essa impotência estudando engenharia genética, Nan Goldin disparou obcecada sua câmera.

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