Rebentos de Woody Allen*

Cenários distintos que abrigam gestos e anseios de uma mesma temporalidade, Amores Imaginários e Histórias de amor duram apenas 90 minutos são dois olhares singulares sobre um comportamento convergente: a consagração do amor como sentido existencial.

Os dois filmes são produtos de um tempo no qual as barreiras parecem extintas e as repressões morais caducas, apontando a promessa de uma liberdade inédita. Contudo, em um mar de possibilidades, a idéia de não ter raiz a qual se agarrar assusta, a sensação de boiar é tamanha que só resta um enjôo, lá do fundo urge o nada. Defronte este temor, reagem dois comportamentos: a apatia e o desespero para se criar qualquer idéia que resista ao fluir.
Espelho nítido (talvez demais) deste anseio, Amores Imaginários movimenta-se em um tom cômico ambíguo – no qual a ironia insinua tanto humor quanto desprezo -, sustentando seu carisma pela empatia que produz. Xavier Dolan retrata um grupo marcante de seu tempo; jovens de gestos e gostos catalogados em um tipo que se espalha pelas grandes metrópoles do globo – vá a uma universidade de Comunicação ou Cinema e contemple alguns exemplos. Parte de sua graça e força reside na identificação que isto produz, mas, se por um lado o aconchego empático e o humor têm a ação conservadora de naturalizar estes comportamentos – tornando-os não só aceitáveis como também impassíveis de transformações -, por outro há o azedo da ironia que, mesmo desprovido de fôlego subversivo, delineia uma crítica.

Sem início e fim, a trama circula por amores obsessivos, um em especial: Francis e Marie, dois amigos que criam uma batalha para conquistar o amor de Nicolas, ser de beleza clássica e estonteante (Nicolas é o Tadzio dos anos 2000). O termo “conquistar” não é o mais apropriado, esta paixão não guarda uma vontade honesta de se realizar, é essencialmente frívola e inatingível. O que se deseja é um conceito de amor idealizado e puro, afastado da materialidade e seu vapor brutal – a beleza límpida de Nicolas é portanto concha que resguarda este conceito. Amar, neste caso, não é uma experiência na qual dois (ou mais) seres se encontram e se entregam no risco da vida compartilhada, mas uma adoração impune. O amor torna-se um campo desgarrado da realidade, onde reina a felicidade eterna e perfeita, longe do múltiplo e deteriorável do corpo. Medíocre e egocêntrico, o amor como gesto pra um é pleno em desperdício e insatisfação. E o sexo se encaixa como a realização de uma tarefa, uma necessidade física sem qualquer encanto ou troca – também com um enfoque exclusivamente individual, faz-se sexo pelo prazer (impotente) próprio.

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Talvez pelo ar lascivo que inspira o Rio de Janeiro, em Histórias de amor duram apenas 90 minutos a vontade de amar faz um caminho inverso ao de Amores Imaginários e se confunde com o prazer sexual. O amor é desejo – e desejar vai direto aos nervos, ao corpo, tão distinto da distância do adorar. No entanto, este deleite corpóreo é também contagiado de idealismo, a matéria é celebrada pelo gozo, o instante extremo que produz, e é este que se pretende sustentar, renegando o que há de efêmero e finito na carne.
O anti-herói de Histórias de amor duram apenas 90 minutos é Zeca, um escritor sem obra e inspiração que passa os dias a vagar. Carente de rotina e responsabilidades ele percebe-se solto – nenhuma ação define ou dá sentido a sua vida. Assim cai sobre si o extremo da angústia, mas esta é sentimento de instante – tal como o gozo -, se esvai e, então, chega à apatia. De tanto tédio – estado árido que não tem o vigor e o entretenimento sadomasoquista da angústia – Zeca inventa a paixão e lança-se num malabarismo de corpos que não dá chance ao marasmo. Ao criar um triângulo amoroso ele não ganha apenas o prazer sexual em dobro, mas principalmente a adrenalina aflitiva da culpa e do medo.

A surpresa vem quando até aquilo que aparenta ser a melhor maneira de desfrutar sua existência – amar duas mulheres ao mesmo tempo – o aflige. Seguindo a regra da insatisfação crônica e das neuroses – queridas por Woody Allen -, Zeca põe tudo a perder. Quando suas histórias de amor acabam resta somente o gosto do nada, do não-vivido que a fantasia proporciona. É a hora que a decisão se revela (embora estivesse sempre presente): Matar-se em nome da impossibilidade de uma vivência romântica de pleno gozo ou colar na rotina, no pobre do homem, na matéria em seu nível mais mesquinho em ser um eu?

O final de Histórias de amor duram apenas 90 minutos pode se agarrar a seu início, mas, ao contrário de Amores Imaginários, como um movimento de superação, uma onda que rebenta dos redemoinhos viciosos. Paulo Halm dá a Zeca a salvação, aquela em que não há nada de sublime, mas acolhe o que é ameno e mundano, onde o ofício supera o mito do dom e não há vontade de vida, pois se experiencia esta.

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Histórias de amor e Amores Imaginários, como produções artísticas, são narrativas que acolhem, exacerbam e revelam elementos de nosso tempo. O que há de mais comum nessas interpretações é também o mais sintomático: este amor contido nos títulos. Quando se busca o amor para que este dê eixo a própria existência, o resultado é uma posição autocentrada deste sentimento. Assim, a ideia de amar é mais desejada do que o outro, do que a pessoa que se ama. Quando só se procura o mesmo não ocorre o encontro. Com preguiça e temor se esquiva de qualquer vivência, em nome de uma absoluta e estéril fruição egocêntrica. Bauman explica melhor: “A promessa de aprender a arte de amar é a oferta (falsa, enganosa, mas que se deseja ardentemente que seja verdadeira) de construir a “experiência amorosa” à semelhança de outras mercadorias, que fascinam e seduzem exibindo todas essas características e prometem desejo sem ansiedade, esforço sem suor e resultados sem esforço.” O amor, espaço de dois, se mostra agora devaneio narcisista.

*Texto de 2011 publicado originalmente na Revista Cordilheira.