Sobre a revitalização da Lapa*

Os homens da ciência recobriram o mundo da realidade com um papel de parede que está caindo aos pedaços. O grande prostíbulo em que eles transformaram a vida não precisa de decoração, basta apenas que os esgotos funcionem direito. A beleza, a beleza feita que nos segura pelos colhões nos Estados Unidos acabou. Para desvendar a nova realidade é preciso antes destruir os esgotos, abrir os canos gangrenados formadores do sistema geniturinário que supre as excreções da arte. O cheiro do dia é permanganato e formol. Os esgotos estão entupidos com embriões estrangulados. [1]

Faz parte da nossa contemporaneidade o não-lugar. Assim como há o outro despido de alteridade, há o lugar oco marcado pelo mesmo e pela impossibilidade de identidade, produtos da globalização e dos projetos ocidentais: Shopping Centers, lanchonetes internacionais, condomínios e Barras das Tijucas que vão se espalhando por uma cidade-mercadoria.

O não-lugar é fundamental na lógica capitalista contemporânea. Para compreender essa quase antinomia, não vejo exemplo melhor do que a ordenação do carnaval, isto é, a megalomaníaca operação do estado do Rio de Janeiro para anunciar e monitorar a festa que tem como marca o abandono de tais convenções. Qual a função de entupir a cidade de enfeites informando a chegada do carnaval? Por que é preciso monitorar os vendedores ambulantes, os foliões e seus mijos? Não acredito que seja uma questão de apenas evitar tumultos. Me parece que, além das sempre presente associação com empresas privadas (quem pulou carnaval sabe qual cerveja foi mais vista e vendida), esse controle integra um projeto de ordem que cria cercadinhos permissivos aos gozos livres de perigo, de pulsão de morte – neste novo carnaval há limites para se dilacerar. A operação de choque é sintomática porque demonstra a incitação e a continência do gozo que a lógica dominante impõe.

O não-lugar se integra neste panorama como extensão de um projeto de limpeza. Tornar o mundo livre de sua dose de perigo e de imundice – até os defuntos passam por longos processos de embalsamento e maquiagem, até a morte é disfarçada. Esse é um projeto de mundo mesquinho e infértil que me enerva aonde for, mas a questão da revitalização da Lapa me dói um pouco mais.

Porque os lugares, diferentemente dos não-lugares, possuem memória e descobertas – quem já se mudou de um imóvel no qual viveu por muito tempo entende disso. A Lapa, em seu caos de abrigar diferentes tipos de pessoas e culturas, em seu desenfreio e brutalidade, foi o lugar vivo de um risco que se apresentou a mim. Assistir a liberdade do gozo que existe na Lapa (o que é uma coisa muito subversiva) ser pouco a pouco esmagada pela pavimentação, pelas lanchonetes e lojas de conveniência, pelos condomínios, pela valorização imobiliária, é rasgar fotografias sem cópia. Não são as minhas memórias apenas, é a história do lugar que vai se embranquecendo com a imposição de elementos do não-lugar.

Há aqueles que se reviram ao pensar no horror da Lapa, aquele nojo, aquele tumulto. Gente apaziguada porque agora pelo menos há uma ordem, operação de cães, podrões fiscalizados, o filho não vai ser roubado por pivete nem ter infecção alimentar. Eu não nego o horror da Lapa. Mas o horror da Lapa é um risco humano. A rua em todas as possibilidades, um lugar em ir frêmito, em dores profundas, em corpos (que são almas) carcomidos, a busca incessante de qualquer coisa que arde ou afague (e geralmente arde, muito). A Lapa é precisa. Não aceito que se queira anestesiar a Lapa, que ela se torne um lugar do qual se possa sair impune. Ir à Lapa é uma contaminação.

A Lapa é precisa num mundo de conforto, de elevadores, clausura, da segurança do sempre mesmo gosto dos departamentos de fast-food. Em toda violência humana que vivemos atualmente o que se nega é o Risco. O risco é próprio à rua. Tornar os caminhos óbvios, pacíficos e estéreis; esse é o projeto. É uma questão política defender o Risco, o caos e o horror da Lapa quando este é uma resistência a um horror mais mortífero, o horror infértil do progresso capitalista. É preciso não consertar a vida.

Nota 1: Esclarecimento final: Este texto é um relato, por isso o tom pessoal, ingênuo e quase poético demais. Portanto, acho válido explicar que há acontecimentos mais fortes e urgentes do que estes de minha história pessoal. De qualquer forma, acredito que eles coincidem nesta mesma questão e provocam o mesmo tom de revolta. Só pra apontar: há a violenta expulsão de moradores mais pobres, o Cores da Lapa, a parceria com marcas de cervejas que se encontra até em grafites, os garis da Lapa, a tropa de choque impossibilitando o show do Nova Lapa Jazz (um dos poucos eventos culturais e gratuitos) e tantos outros absurdos. Para uma análise factual e inteligente deste triste processo, recomendo a tese de Bruna da Cunha Guterman:
http://www.ippur.ufrj.br/download/semana_pur_2010/completos/Artigo%20Semana%20PUR%202010%20Bruna%20Guterman.pdf

Nota 2: Vídeo de 2013 na Lapa: 

[1] MILLER, Henry, Trópico de Câncer…

* Texto de 2011 publicado originalmente na Revista Cordilheira.

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