Rio de Janeiro, 30 de maio.

Ontem, que dia. Começa como qualquer história, eu estava quietinha na minha casa. Mas eu precisava sair, apesar do trânsito, da vontade de não deixar o conforto, da hesitação diante dos riscos; eu precisava. No caminho, o modo como o sol bate no livro me lembra daquele outro livro e às vezes também decido que vou eu mesma comprar as flores. Alguém diz coisas, muitas que você não entende, algumas que não são do seu interesse, mas dizem, pedem o troco, vendem balas e, embora o meu descontrole, é bom fazer parte: pertencer é viver. Pertencer nem que seja a essa comunidade tão óbvia da cidade Rio de Janeiro (acho que o índice de suicídio ainda é baixo, porque o mar cura). O automático de passar o tempo nas livrarias já conta uma história de ancestrais, mas agora olho mais o celular do que os livros. E entrar no cinema, porque sim. Sem saber a história, sem ler comentários, sem trailer, sem se preparar. Entrar naquela sala, na comunidade da sala 3 do  Estação Botafogo. Eu gosto muito dos velhinhos que frequentam cinemas, era um prato cheio. Não entendo o que motiva esse entretenimento, esse filme, especialmente, chega a ser uma violência. Oslo, 31 de agosto. Rio de Janeiro, 30 de maio. Tem quase 30 dias que eu faço 24 anos, o personagem tem 34. A depressão e o seu reverso. Não posso dizer se vou ou não voltar. Mas agora estou aqui e é bom. Alguém na história precisa morrer para que a vida salte. Minha vida sem mim. Como calcular o impacto de um gesto sobre os outros(o que me inclui)? Não sei se quando mudei de cadeira atrapalhei a visão de quem estava atrás. Sei que uma mulher se incomodou com o barulho que a sacola de papel do meu lanche fazia. No final, amassei tudo com vontade.

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Frances Ha, a vida na era da propriedade privada

Todo texto guarda uma motivação egoísta. Há os poemas prontos para seduzir, os panfletos políticos, autoconvecimento, reafirmações, o gozo com a linguagem… Quase tudo que escrevo vem dessa necessidade de firmar em matéria – caneta encostando no papel cada sílaba até formar o significado – o que eu aprendo distraída. Esse texto vem de um lugar bem óbvio, sua mensagem está há anos no telefone sem fio da civilização, poderia escrever um guia para sair na revista entre as receitas e técnicas de emagrecimento. O que está na cara, o que vem como moral, dica, conselho, mantra, nunca adere. de que adianta, então, eu falar? Tentativa (arrogância – necessária) de ser um degrauzinho na percepção, de que eu não descreva minha verdade, mas que eu a perca e busque e pratique o exercício que é a aprendizagem.

Que o amor deve ser livre, que a posse nos torna mesquinhos e que a vida está do lado de fora, abundante de feridas, pedras e rosas-paralelepípedos, são obviedades repetidas há mais de meio século.

E no entanto, em 2013, estabelecimentos da Lapa me cobram até dois reais para usar o vazo sanitário.

A propriedade privada não é cruel apenas em limites geográficos, mas também nos determina no que é emocional. Edifícios, fones, aplicativos e relacionamentos sérios fazem parte de um mesmo projeto de mundo (e cada um guarda sua própria maravilha).
Dois filmes carregam essas questões, os dois são fábulas contemporâneas: Medianeras e Frances Ha. Enquanto o primeiro tem um tom de denúncia-tentativa e usa o problema dos limites territoriais para aludir à reclusão crescente em um mundo individualista, o segundo percorre, sem narrativa ou discurso crítico, uma história que ocorre todos os dias em diferentes graus.

A história de Frances Ha é a história da perda das propriedades privadas. Frances tem uma vida mais ou menos legal, mais ou menos frustrante, mas ela tem uma vida. Até que a ordem começa a despencar: primeiro ela perde o namorado (mas isso não tem muita importância na verdade)¹, depois ela perde o apartamento (aí sim, uma problema real), depois ela perde a melhor amiga, o fim do mundo, então, ela encontra um novo apartamento, mas perde o emprego e com isso perde de novo o apartamento. Tudo o que ocorre na trama é em função dessas posses que estruturam a vida de Frances: minha melhor amiga, meu apartamento, meu emprego. Obviamente não são perdas nem um pouco fúteis, mas neste cado nada é de uma gravidade alarmante: Frances é uma loirinha de 27 anos, instruída, com pais presentes em casa própria (mas que moram longe do sonho juvenil que é Nova Iorque) e inúmeras possibilidades de empregos que pagam a conta embora sejam extremamente desinteressantes. Então por que Frances Ha existe? Por que entramos em uma sala de cinema (com nossas lugares assegurados no momento da compra) para nos comover com a história desse filme?

Há uma cena decisiva que pode justificar ou não o filme. É essa cena que defini quem vai amar Frances Ha e quem vai esquecer. Frances está no ápice das perdas quando vai jantar no apartamento de um casal que tem, tem a fábula completa: não só um apartamento, mas dois, em Nova Iorque e em Paris, propriedade, amor, emprego, sucesso, filhos. Frances não tem nada, nem uma ambição para se afirmar. Um tanto fora de si – pelo contraste, pelo álcool -, ela diz, em um tom que vai do adorável ao maníaco, o que deseja: o que Frances quer para sua vida é um momento, um momento – desses de filme – em que ela está numa festa conversando com algumas pessoas e o seu amor também está nessa festa conversando com outras pessoas, então eles trocam um olhar, um olhar que é um elo, uma confissão, um refúgio. Frances não quer encontrar só essa pessoa, mas o olhar dela que vai infiltrar um ambiente público com uma segurança privada. Não é só o amor, mas o abrigo que este pode ser.

Frances Ha não é apenas a história da perda das propriedades privadas, mas da era em que a vida só se sustenta nesse âmbito. É preciso amar, é preciso ser, é preciso ter: as pessoas, o trabalho, a casa, a narrativa sempre em primeira pessoa. Quando a vida é ressignificada a partir do privado nos tornamos mais propensos à neurose, às tempestades em copo d’água e desejos anêmicos. A classe média sofre, não adianta debochar de sua dor, antes de menosprezar, ir até o sintoma que está na nossa comoção (no cinema, nas formaturas, nos matrimônios, academias, lojas de departamento) e encarar que as angústias passíveis ao ridículo são o berço dos horrores reais.

O capitalismo, como esses filmes, também é feito de fábula; toda mercadoria ocupa uma função exata em cada narrativa.
O amor tem lugar para você?

[1] É interessante que há uma nova geração de mulheres produzindo séries e filmes nos quais o amor romântico não é a questão central das protagonistas. Embora a ausência de uma preocupação quanto a ter ou não um namorado seja um avanço em termos de gênero (é ótimo ver uma personagem que nem faz uso  da palavra relacionamento e muito menos casamento), isto não significa que Frances não tenha uma postura que romantiza a vida.  Além disso, é óbvio que a segurança de ser amada recai sobre sua melhor amiga de modo que é só uma transação de posses e não uma transformação definitiva (e feminismo é mais interessante quando busca uma mudança da estrutura patriarcal).

A ciência do particular em Nan Goldin

 

Para que existe a ciência se não para ordenar a realidade e assim melhorar a qualidade de nossas vidas? Mas o que move o homem à ciência, um tal desejo de saber, vai muito além de missões iluministas. Almodóvar em seu “A Pele que Habito” escancara sem modos a dose de obsessão impregnada nesta prática. Desejo e obsessão rodeiam o homem desde seu inútil e ainda encoberto início. A ciência e suas tecnologias podem disfarçar com seus impulsos civilizatórios e descobertas de cura para a humanidade, mas sem aberrações não se fazem “avanços”. O desejo científico se traduz na ação obcecada de analisar, catalogar, desvendar e agora também transmutar a realidade. Assim, a utilidade científica é apenas a consequência, o motor é o susto primordial diante de nossa estranha condição humana. Desembuchando, lanço minha teoria: e se alguns artistas fizessem uma ciência do particular; observando, analisando e catalogando elas mesmas e as pessoas que compõem sua realidade de modo tão investigativo e obcecado quanto daqueles que estudam fungos? Uma ciência completamente inútil devotada a objetos únicos – seres humanos. Estudar uma pessoa, documentar uma vida, particularidade máxima, histórias não se repetem e portanto terminadas as teorias e conclusões não há onde se aplicar; afinal, se você ainda acredita na eficácia nos conselhos, me desculpe estragar o barato… Ciência e arte que tanto se repelem encontram-se aí no mesmo desespero e empenho obsessivo em criar possíveis ordens para a realidade incessante.

Nan Goldin é PhD sobre sua vida e sobre seus amigos. Um legendado inútil, não fosse incrivelmente belo – taí um esboço de utilidade que não serve pra nada da arte nos comunicamos entre o que não se diz e é emocionante. Nan é mestre dessa ação arriscadíssima de lançar-se ao sempre improvável do outro. Destemida, ela investiga, fotografa, até ver, até conseguir, não o catálogo entediado e já exausto do amigo que repete as mesmas histórias e escolhas terríveis, mas o deslumbre de conhecer cada ação e ainda não ter acesso a nada (assim como físicos que estudam a galáxia feito a mais bela das namoradas e só chegam a fórmulas estonteantes – e desesperadoras para alunos do ensino médio – e nunca a sua essência). Nan permanece curiosa e obcecada por seus pequenos objetos de documentação, por isso seus relatos são preciosos, eles não nos dão retratos redondos de pessoas sem pontas, mas a suspeita de que é possível ir além. As fotos de Nan Goldin nunca nos dizem tudo, elas perturbam, provocam mais perguntas do que respostas.

No entanto, a curiosidade de Nan não é voyeurística. Ao contrário de Diane Arbus que fotograva freaks com o olhar de quem está à parte (quase como um interesse antropológico), Nan está envolvida com o que fotografa, ela faz parte dos freaks. Assim, a câmera não é um meio de expiar, mas de narrar. Estabelecer essa relação Arbus e Goldin faz pouco sentido, contudo, é uma boa oposição para entender as diferentes posturas que essas mulheres tomaram diante de suas câmeras (e vidas). A fotografia para Nan Goldin não era um meio para adentrar em realidades diferentes da sua, mas de conhecer a sua própria realidade. Há um documentário sobre seu trabalho chamado “I’ll be your mirror”, o título é genial, pois é esse o papel de sua câmera: espelho através do qual Nan enxerga sua vida.

“There is a popular notion that the photographer is by nature a voyeur, the last one inveted to the party. But I’m not crashing; this is my party. This is my family, my history”.

É através da fotografia que Nan Goldin consegue reter a vida e transformar o que é incessante fluir em imagens estáticas e físicas (num sentido de se ver a imagem ser revelada, diferente do instantâneo das câmeras digitais). As fotos são, portanto, consequência de uma necessidade emocional, elas recortam a realidade e tornam-na passível de uma narrativa. A câmera é um meio de controlar a existência que lhe escapa, esse exercício intenso de documentação do que a rodeia é um desejo de ordenar e também de conhecer. Alguns aspectos da vida de Nan Goldin favorecem essa necessidade emocional que define seu trabalho; o suicídio da irmã de 18 anos, o uso intenso de drogas que intensifica a sensação de perda de controle, os amigos morrendo aos poucos de AIDS e os relacionamentos amorosos problemáticos. Mas, honestamente, basta estar vivo para saber que não existe controle desde do parto até a morte, alguns esquecem do risco, outros lidam com essa impotência estudando engenharia genética, Nan Goldin disparou obcecada sua câmera.