Sobre o Recanto Escuro de Gal

(…) é ao aceitar voluntariamente o risco de morte numa luta por puro prestígio que o homem aparece pela primeira vez no mundo natural; e é ao resignar-se à morte, ou revelá-la pelo discurso, que o homem chega finalmente à sabedoria, concluindo assim a história.

O Circo Voador lotado, eu e meus amigos com aquela alegria e fome de uns vinte anos, prontos para receber um momento histórico, ver uma mulher histórica, adoramos museus (com essa idade a vontade de história é forte). Mas Gal não se dá em contemplação fácil. É possível, claro, colar o momento no seu mero status, sacar os celulares e colecionar, mas aquela voz só convida a experiência do instante. Recanto Escuro é um show histórico não por essa euforia de querer fazer parte, mas por Gal que vem carregada de seus escombros e canta mais uma vez, dessa vez só seu canto. O álbum é um presente de Caetano que interpreta, traduz e sugere a amiga. Gal diz que Recanto Escuro era seu, chorou ao ouvir e isso significa que já estava nela. É um canto de quem foi do tudo dói até o outro lado azul do muro, um retorno que nunca é uma simples volta. E parece que Gal realmente não salta, é carregada, acolhe umas canções, topa uns shows e nele a história se dá. Porque se estava ausente dos palcos e dos últimos grandes lançamentos, as gals que foi estão por aí esbravejando fôlego nos fones de uns novinhos. É no show que ocorre a reconciliação, o peso de uma mulher em negro ainda lasciva como a Gal de Fa-Tal, mas de uma presença sóbria, sábia. O Recanto Escuro para mim é um lugar de morte. O canto atravessa isso em um reconhecimento quase melancólico de um verso que é berrado Know that one day I must die, I’m alive. A Gal de agora ainda berra que não temos tempo de temer a morte, mas esse lema de uma geração ganha outro tom. Afirmar que tudo é divino e maravilhoso após Tudo Dói é o local de quem fez uma experiência de morte (de uma mãe, em uma depressão, em um futuro) e agora, sim, berra. O show faz mesmo um movimento de roda-gigante, de um escuro pesado a momentos alegres e hits (das festas de computadores tão recorrentes do Rio de Janeiro meio pobre de novo) como Barato Total. A alegria se faz presente, mas não é leve, nem gratuita, é daqueles que sabem que a felicidade não vem impunemente. Gal se entrega ao que foi sem nostalgias; admira-se quando é ovacionada, mas não se surpreende, porque não precisa de modéstia, reconhece a potência que é (e também não abandona o ar de diva). Sendo Gal em todas as versões, se reinventando, tomando sua voz, esse caminho de matéria solta, na possibilidade total que é a criação, ela retoma a história em movimento, ela é a história. Naquela lona que eu tanto retorno, a história se deu, a história é o que atravessa a morte: aposta o preço do seu risco, se deslumbra com o absurdo dos limites e aceita se lançar ou ser carregado parte de um todo em descontrole.

(Na minha memória eu sei que esse dia será sempre marcado pelo dia depois. Eu tenho vinte e dois anos e corro muitos riscos, a todo o momento poderia ser a gente, ainda não é, isso é um espanto. Faltou uma palavra nesse texto que eu tanto uso, até tenho na pele: viver.)

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