A imperativa literatura de Cortázar

 

Não se lê Cortázar impunemente. A leitura de seus textos (que podem ser poesias, contos, teorias críticas, fábulas e nada disso, porque tudo isso são rótulos que são muito pouco) demanda uma adesão que provoca uma experiência transformadora.

“Muito do que escrevi se qualifica sob o signo da excentricidade, porque nunca admiti uma clara diferença entre viver e escrever; se ao viver consigo disfarçar minhas circunstâncias, não posso porém negá-la no que escrevo porque escrevo precisamente por não estar ou por só estar pela metade. Escrevo por incapacidade, por sempre deslocação; e como escrevo num interstício, estou sempre propondo que os outros procurem os seus e por eles olhem o jardim onde as árvores têm frutos que são, naturalmente, pedras preciosas. O monstrinho continua firme.”

Critérios para julgar a arte são sempre uma bola fora. O próprio Cortázar vai dizer em uma carta que entender algo é deixar de vê-lo. Assim, fixar a experiência artística – sempre singular – num amontoado de conceitos frios e explicativos será uma eterna tentativa falida. Se há algum critério que pode ser lançado dentro desta falha já declarada alguma perspectiva interessante diante dessa ação humana que é sempre estranha é o que mede a arte pela transformação que esta provoca. Em outras palavras, a experiência artística real (e podem gargalhar com a ousadia de ainda usar esta palavra) é aquela que exige de quem a vive uma mudança de vida. Não me interessa muito desenvolver um elogio a este critério ou expor seu grau de veracidade, mas apenas o utilizar como o melhor critério para abordar essa literatura que se desmancha e transborda e não cabe nos caducos critérios da seríssima Teoria Literária. Se pretendo falar de Cortázar é pela faísca que sua obra nos causa e, então, pouco importa uma crítica que se vale de sobriedade e distância, por aqui é pura empatia e contágio (o que ratifica minha tese, só para apontar que também há lógica) .

O que Cortázar propõe torna-se um imperativo quando entra pelos olhos, percorre estruturas internas e se fixa no estômago, nos poros e em todas as estranhas partes que são o corpo. E assim se abre como uma janela exigente: A vida como antes se constituía amolece, mais grave, tudo adere. O que se passa é a impossibilidade de algo ser banal – acordar, comprar o pão, atravessar a rua, tudo transborda um imenso risco. A influência que essa literatura tem é decisiva, pois modifica a cotidianidade, aquilo que é humano e passa longe do sublime. Assim, o que se altera é a percepção da existência – e não de uma simples sensibilidade momentânea concentrada no momento de leitura ou de contato com a arte -, tudo se mostra como é. Tudo palpita e há milhões de tons e poeiras e aromas nos contagiando de forma que cada passo exige muita atenção, não para se proteger, mas para ser numa entrega consentida que é um gozo do todo.

“Quando abrir a porta e assomar à escada, saberei que lá embaixo começa a rua; não a norma já aceita, não as casas já conhecidas, não o hotel em frente; a rua, a floresta viva onde cada instante pode jogar-se em cima de mim como uma magnólia, onde os rostos vão nascer quando eu os olhar, quando avançar mais um pouco, quando me arrebentar todo com os cotovelos e as pestanas e as unhas contra a pasta do tijolo de cristal, e arriscar minha vida enquanto avanço passo a passo para ir comprar o jornal na esquina”.

‘História de Cronópios e de famas’ limpa do hábito nossas tão comuns ações de chorar, cantar, dar corda no relógio… Descobre estas do nada extraordinário em que as enfiamos na rotina de ser humano. O olhar que Cortázar instiga às coisas e à existência é de uma transformação preciosa, principalmente em tempos em que a rua é mais passagem e vitrine do que espaço de contaminação, horror e encanto. A mudança de vida que Cortázar exige é política. Através da travessia de seus olhos se retira o véu plástico que corrói a matéria e a vida humana. O olhar se alonga e resiste ao narcisismo contemporâneo. Cortázar abre um sol na pele, um gosto de vida e nos faz ver. Essa visão que conhece e não reconhece, mas se espanta e delicia com as coisas, dá à existência uma fertilidade que a todo tempo nos é roubada. O extremo poder político que a obra de Cortázar possui não se dá então em um engajamento que ordena ideologias em versos, mas no modo como seus labirintos ardem às percepções.

 

“Essas crises que a maioria das pessoas considera escandalosas, absurdas, eu pessoalmente tenho a impressão de que servem para mostrar o verdadeiro absurdo, o absurdo de um mundo ordenado e calmo, com um quarto onde diversos caras tomam café às duas da manhã, sem que, realmente nada disso tenho o menor sentido, a não ser um sentido hedonista, o bom de estarmos ao lado deste aquecimento que se prolonga tão gostosamente. Os milagres nunca me parecem absurdos. O absurdo é aquilo que os precede e os que vem depois.”

 

O que Cortázar não sabe lidar e desafia em cada um dos seus textos que recriam a realidade é que esta seja constituída por fatos límpidos, limitados e óbvios. O sujeito, por exemplo, não é de forma alguma compatível com aquele que Kant ditou (e que assim transformou as vias de toda a existência humana, uma dose a mais de angústia para os ombros); existe sim o limite, somos todos recortes, cada um tem um grau e tom diferente de visão. Mas em Cortázar tudo está numa transfusão contínua, a influência é absurda (quase tão insuportável quanto o limite firme de Kant), todos estamos imundos de contato. E aí está a diferença do poeta (e de outros seres muito próximos dos Cronópios): a poesia tem uma questão ontológica. A poesia é um meio de alongar estes limites, é o desejo de ser. O poeta, então, é aquele que não se aguenta em seu ser, que precisa construir em palavras os outros – e em cada verso é uma nova realidade/ser que salta. (Aqui me contenho para não citar uma dúzia de poetas que escreveram sobre esta necessidade, mas cito dois: um óbvio, Fernando Pessoa e Manoel de Barros, além de Bob Dylan que não só escrevia como incorporava Outros).

Há assim uma relação muito importante e forte entre esta particular Visão, a poesia e os limites. E aí podemos escavar como essa poesia é política e modificadora. Quando se ampliam os limites, se compactua mais com outros seres e a visão se estende. É assim que se encontra a realidade pulsante, que se saboreia o outro e toda a vida ganha uma textura imensa, decisiva e até mesmo atordoante. Isso é de uma preciosidade máxima quando a matéria plástica corrói em velocidade pós-fordista a surpresa, o prazer genuíno, a graça de olhar um outro. O infértil mundo que vivemos entre hambúrgueres, vitrines e “comunicação” excessiva cria homens que nas ruas caminham voltados pra dentro com olhos cheios de hábito, o peito em pleno tédio, incapazes de ver, sem interesse pelo outro, vidas submersas em eu (essa fantasia humana que é o deus no sistema capitalista).

A poesia que é impulsionada por este desejo de ser é um exercício de visão. Porque inventar é um modo distinto de ser: ”…e se fazer de é muito mais que ficar à sombra: é feitorar com isenção de riscos, é gozar da mesma ranhura… pertencendo eventualmente”[1] A poesia do dia-a-dia, banalizada entre batatas-fritas e jogos de amarelinha, transforma a realidade quando estende os limites de cada “eu” e instiga a afirmação do inescapável contágio.

Cortázar nos exige rever o mundo, isto é, lavarmo-nos da apatia, da existência catalogada, ir às ruas com atenção e desenfreio, ver cada homem, se possível ser muitos, amar como quem descobre uma nova América em cada corpo, comer na surpresa de que existe comida, de que existem dentes, intestino, de que existe.  O flerte entre Surrealismo e existencialismo que Cortázar compõe é isto: O fantástico é que existimos, isso nos impõe a surpresas que sempre estamos escolhendo. Cortázar cola esse lembrete em nossos olhos, nos reacorda e vemos que só há vigília (porque só há sonho.).


[1] LANNACE, Ricardo Retratos em Clarice Lispector, pag. 47 Ed. UFMG, Belo Horizonte, 2009.