sobre nascer, violência e narcisismo.

 A história da humanidade é feita de cruéis performances. Mas talvez a mais cruel seja a que nos impõe coerência e estabilidade. Somos obrigados ao sentido, a chamar de vida esse tempo ocupando um corpo – três palavras quase impossíveis de delimitar.

Parece fácil. A cada dia renasce mais forte o aparato que se dispõe a guiar as vontades e os deveres. Até que algo se dái. Algum erro desponta. E o sentido só se mostra enquanto expectativa, enquanto algo que se afasta a cada tentativa. O sentido é nossa grande necessidade – dizem que é o prazer, mas não é, porque mesmo os prazeres recebem uma ordem de linguagem. E nos enrolamos nele a cada manhã em que o mundo, esse real que precisamos ignorar, se intromete no cálculo dos planos.

Porque essa palavra “vontade” também é feita de muitos possíveis e quase nunca condiz com o que se deve. É um impasse antigo. Hoje colocamos em uma economia miúda: por que tudo que é gostoso engorda? e dá-lhe a criação de comidas plásticas sem gordura trans. Algumas mulheres – o inconsciente coletivo nos presenteou com as múltiplas cobranças e o dever das habilidades – conseguem equilibrar o pacote completo: trabalho, academia, pizza com o mozão, capirinha light com as amigas, caminhada com os filhotes. Mente & corpo devidamente cuidados a felicidade vem logo. Até que nunca.

É claro que a maioria é mais dissimulada e enfrenta cotidianamente esse terror imprevisível que é a vontade. Mesmo isso tem sua ordem. O que é uma família se não o que coloca os desvios em uma dinâmica estruturada? As brigas entre pais e filhos são uma repetição incontornávelii. A violência encontra seus meios, ela tem seu espaço guardado nas economias públicas e privadas. A violência só é ignorada no sentido.

A violência que digo não é um tapa – pode ser também, mas não é. A violência é nascer, essa extrema particularidade que logo é destinada a limites universais: ser mulher ou ser homem, ser russa ou ser brasileira, ser pobre ou ser rico. A violência é o completo descaso diante de um recém-nascido, esse ser desnecessário e pedinte. E no entanto é envolvido em amor. Há um tempo que se enfatiza o amor, a necessidade do amor, e enrolam crianças como se fossem bonecas, objetos. Amar é outra coisa, outra coisa incapaz de desviar da violência de que nada naquele outro corpo me diz respeito e que, contudo, eu só faço sentido, só me enuncio eu, em relação a ele. Amar tem mais a ver com um bebê sendo alimentado pela comida mastigada pelo avô.

Esse texto é claramente influenciado pela psicanálise. Mas é sobre literatura, ela que diz em alguns parágrafos uma teoria que demorou anos para se construir. É sobre “Infância” de Górki, um livro escrito no mesmo ano em que Freud escrevia “Introdução ao narcisismo”. Dois livros centenários que dizem muito sobre o lugar em que a humanidade se encontra.

Freud tratava da burguesia. É preciso não esquecer que as condições materiais influenciam decisivamente as estruturas psíquicas – mas o que Freud comprova é que não há escapatória, o dinheiro, ainda não compra a paz de espírito, até por que é isso que se quer? Górki escrevia sobre sua infância miserável. Todas as famílias são perversas, mas quando cada boca é um peso imperativo, a crueldade se torna um meio de sobrevivência.

A contemporaneidade permite que essas duas obras ainda existam em uma força assustadora. A psicanálise foi usada de todas as formas possíveis. Existe um golpe diante da teoria freudiana, como aconteceu com tantos outros pensadores que falaram sobre o bem e a felicidade. Se na idade média os padres liam Aristóteles, hoje todo publicitário (que é sempre um político) precisa conhecer o inconsciente e sua pulsão de morte. Aqui não me interessa ser didática, fazer resenha,explicar obras e autores. Já fiz uma monografia e cada um sabe o que é a infância além da nostalgia. É preciso um pulo para dizer sobre o que é importante agora. A teoria do Eu é a que comanda nosso sentido ocidental capitalista em que o dinheiro é religião e gozar é um dever. A violência (com) que Górki escreve, no entanto, persiste independente do CEP. Por toda cidade, cada casa guarda sua farpa. Independente do dinheiro, mulheres apanham, crianças são feitas de pombo correio e no natal todos se amam como podem. A diferença é que agora até na favela se dá um jeito de ter TV à cabo, facebook e smartphoneiii. Isso definitivamente não nos iguala em dor e possibilidade. Não é questão de correr atrás. Não é investir na educação o que falta. Talvez alguém esteja na rua porque quer, mas ainda falta muito para entender o querer que comanda nossas vidas. Não somos iguais em nada além disso. A violência é estrutural.

A diferença não está no âmago. Mas existe uma diferença essencial sobre o cuidado das crianças. Freud criou uma teoria do narcisismo em que existe o cuidado e o amor dos pais diante da perfeição e da aparente imortalidade do recém-nascido. Mas crianças pobres ainda são fruto apenas de desespero. Cem anos depois, essa teoria da devoção à criança resultou em um a geração millennials que deseja tanto ser especial que não produz nada além de angústias autocentradasiv. As crianças que cresceram com o mundo prometido inevitavelmente precisaram encarar a vida fora dos condomínios, das famílias, das certezas privadas. E ele continua tão violento quanto era em 1914. O sentido agora é especialmente individual. A ilusão que se dá a cada ser humano como um presente de batizado é que ele tem uma história, um lugar a conquistar, ele é especial,15 minutos de fama nem que seja no Esquenta. Dentro disso, cada um faz o que pode, eu escrevo, alguns se tornam traficantes. Somos todos iguais e isso é amargo, não é alívio. Porque ainda não podemos ser iguais. Porque a minha violência é compreensível e um menino do morro é sempre um bandido em potencial – e um bandido, eles dizem, só é bom morto. No horário em que a classe média estiver especialmente agressiva dentro dos seus carros no trânsito da Gávea, Datena ou qualquer um que faz a performance da coerência dará início a um tiroteio. Não há violência maior que essa moral, o discurso de ódio que diz em nome do bem, da felicidade, da Ordem&progresso. Enquanto roda os comerciais, alguém morre, na Rocinha ou em Oslov, pelas mãos da polícia ou do sentido; pelas mãos de um imperativo que corrói  cada corpo jovem.

i Tenho 32 planos.
52 projetos.
30 estruturas perfeitas.
O dia é claro e calmo e tem 24 horas.
De repente chega o desejo e estraga tudo.

(Gonçalo Tavares)

ii Como sempre acontecia nos feriados, comeram de forma cansativa, por muito tempo e em grande quantidade, e parecia não serem as mesmas pessoas que, meia hora antes, berravam umas com as outras, à beira de se atracarem, e que ferviam em lágrimas e soluços. Eu mal podia acreditar que tivessem feito tudo aquilo a sério, que chorar fosse algo doloroso para eles. E as lágrimas, os gritos e todos os tormentos recíprocos, que rebentavam com frequência e extinguiam-se rapidamente, tornavam-se rotineiros para mim, cada vez me afetavam menos, tocavam o coração de maneira cada vez mais fraca.

Muito mais tarde, compreendi que os russos, em razão da indigência e da penúria de sua vida, em geral adoram distrair-se com a própria desgraça, brincam com ela como crianças e raramente se envergonham de ser infelizes.

Na monotonia interminável dos dias úteis, até a desgraça é um feriado, e até um incêndio é uma distração; num rosto vazio, até um arranhão é um enfeite.

(Górki)

iii Criolo que é adorado pela classe média jovem, especialmente a universitária (ou existe outra?), falou sobre isso em um tom que beira o patético, apesar de ser extremamente claro e se tornou objeto de piadas eternas. Aparentemente não entenderam ou não quiseram. É mais legal aproveitar o show e fechar os olhinhos na Lapa depois de gastar 60 reais em um ingresso.

iv A depressão é a doença da minha geração e é muito próxima de uma desistência diante de um mundo que promete todos os prazeres e não cria nenhum querer. Porque querer, desejar, não é contar com a satisfação, é de outra ordem. Nós não estamos acostumados a lidar com esse esforço, não temos fibra pra desviar do sentido, da promessa e ir até onde nada está decidido, é risco e, aí sim, vontade. Minha geração não tem vontade, tem caminhos e entretenimentos disponíveis, não tem vontade, é apegada demais a um sentido, esse de berço, e não consegue querer criar um sentido – porque a questão não é desistir, é desistir deste sentido a que estamos ensimesmados. Nos afundamos em bolor, ninguém nos segura, mas estamos paralisados.

v Oslo é uma cidade conhecida pela sua qualidade de vida e pelo enorme número de suicídios. Oslo, 31 de agosto é um filme sobre depressão, seu vazio, seu silêncio e sua indiferença com a vida. É também um filme sobre viver nem que seja por um dia.

 

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Prazer

Prazer é um espetáculo apresentado pela Companhia Luna Lunera que parte da obra Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres de Clarice Lispector. Não se trata, no entanto, de uma adaptação, a peça apenas se apropria do tema sobre o qual o livro se organiza: O prazer como enfrentamento ao risco da dor.

A personagem do livro, Lóri, se retrai da experiência cotidiana e de seus possíveis prazeres pelo medo da dor. A questão de Lóri é que essa se sente acossada pelo universo (por si própria?), pressente as possibilidades que cada ato guarda e não se atreve ao dia-a-dia humano feito de perdas e conquistas, prefere a totalidade constante do sofrimento. É, então, que através do amor – um amor pedagógico – Lóri começa a compreender que a fuga da dor mina qualquer chance de felicidade e a condena a uma dor ainda maior. Para ser capaz de viver esse amor Lóri aprende os prazeres, os momentos de graça humana, contempla a intensidade da matéria efêmera.É claro, a alegria não vem impunemente, o risco é constante, mas para se construir uma vida humana é preciso enfrentá-lo, apesar de. Para ganhar antes se faz necessária a aposta. Freud, ao explicar o narcisismo, define de modo exato a questão:

Um forte egoísmo protege contra o adoecimento, mas afinal é preciso começar a amar, para não adoecer, e é inevitável adoecer, quando devido à frustração, não se pode amar.

Prazer situa esse medo dentro de nossa realidade pós-moderna. A diferença temporal entre o livro e a peça não parece suficientemente grande para que existam profundas mudanças históricas, porém é válido ressaltar que Uma aprendizagem é um livro de 1968 e, refletindo as tendências daquele ano, é o livro de Clarice mais próximo de um engajamento político. Já Prazer se dá neste tempo neoliberal em que a conquista de algumas liberdades (o Brasil democrático, por exemplo) custam o preço de repressões ainda mais íntimas.  Este abatimento que ronda os personagens de Prazer  poder ser visto como sintoma de um mundo em que a possibilidade de mudança parece mais inalcançável e nosso vigor quanto seres humanos é reduzido a medíocres existências isoladas em apartamentos. Essas são especulações minhas, o tema político não está presente na peça de modo literal, porém é impossível não associar esse mal estar individual às coordenadas de nosso período histórico (até porque a dor individual acomete a tantos que é realmente um problema social, estatísticas comprovam que em breve a depressão matará mais do que as doenças cardíacas[1]) .

prazer

De fato, a Companhia Luna Lunera me parece criar obras sobre/ para nosso tempo, qualidade que considero essencial em qualquer empreitada artística. Assisti apenas duas peças da Companhia, Prazer e Aqueles Dois – que também parte de uma obra literária brasileira, um conto de Caio Fernando Abreu. Nessa peça, do mesmo modo que em Prazer, se fazem presentes as angústias e pressões da vida urbana, as mesquinharias e burocracias das repartições públicas e como brecha, os encontros e encantos que estão sempre por aí. São duas peças que criticam com compaixão as crises pequeno-burguesas[2] que nos acometem, ao mesmo tempo em que insinuam modos de sobrevivência dentro de tais circunstâncias claustrofóbicas. Como já disse é uma característica que me ganha, acho que só me interesso pelo que diz respeito ao meu tempo. Produzir qualquer coisa sobre o presente é um grande risco, mas a Cia. Luna Lunera parece tomar este risco, o risco da proximidade, como seu impulso. É nesta proximidade que se configura de modo mais brilhante a critica de Prazer, pois este é mesmo um tempo que se dá em pé-atrás.

Parênteses para mapeamento de tendências:

(Nosso tempo feito de velocidades e clausuras inéditas. Feito de: repartições, quitinetes, condomínios, áreas verdes calculadas, medo constante, a confusão entre prazer e lazer, a obrigação do gozo, mas primeiramente, a evitação da dor. Há um desencontro profundo entre as novas tecnologias de comunicação, irmãos dentro da mesma casa se comunicando via facebook (na verdade, o desencontro sempre houve e só está acompanhando as novas possibilidades de signos, quantos significados são possíveis em um curtir?). A internet contribui para fincar a ironia como língua materna (http://www.revistaserrote.com.br/2013/01/como-viver-sem-ironia-por-christy-wampole/).  Só que não, só que ao contrário, rs, entre tantos outros tiques de refúgio. A exposição constante parece ter reforçado o medo do ridículo, assim se evita qualquer fala própria e engajada, mais seguro pular de piada em piada. OBS: É notável que Caio Fernando Abreu e Clarice Lispector são dois autores alvos da ironia, tanto pela popularidade quanto por seus textos viscerais que para alguns é ridículo – mais um ponto de enfretamento dos riscos para a Cia.)

Fim do mapeamento.

A crítica de Prazer ao nosso pé-atrás contemporâneo não é elaborada na distância fria que se costuma associar a tal palavra. O prazer, como afirmação possível diante da paralisia do medo, não menospreza a potência de tal sentimento, o encara e provoca, beirando o quase sem sentido das depressões (o texto de Clarice, como alguns casos de depressão, demanda uma forte empatia para que não soe como um exagero histérico). Por vezes a peça parece se demorar em casos irrelevantes, mas a vida também não é assim em alguns momentos? Dar voltas sem sair do lugar, se enfiar em discussões de motivos minúsculos, remoer mágoas, situações tão recorrentes… E como se sai desses redemoinhos? Como se cria um movimento novo? É isto que me sinto incapaz de resolver neste texto. Pois a peça também não resolve esta questão, não é um guia prático de como sobreviver a melancolia da pós-modernidade, não se aponta o caminho a seguir. Os atores não estão ali repetindo uma mensagem, não é auto-ajuda, é uma experiência. Aí é questão de sentir ou não, se comover com a tentativa que aqueles seres humanos estão fazendo ali em cima daquele palco (e por que não ao seu lado em suas tentativas de sexta à noite?) ou não, é questão de entrega. A entrega ao prazer não é defendida, ela é executada bem na nossa cara e o contagio é certo, o corpo reage em lágrima e arrepio. Não cabe muito explicar o vigor de Prazer, o gozo não se sujeita às palavras.

*Usei neste texto vários termos repetitivos em minha poesia, são parte das minhas obsessões e reflexões. Uma aprendizagem, livro que inspirou Prazer, é muito caro a mim, trouxe entre tantas reviravoltas pessoais, o tema da minha monografia. Queria muito escrever um texto mais calmo e claro sobre a peça, mas sou incapaz justamente por essa proximidade. No blog da Luna Lunera é possível encontrar os dados que meu relato não comporta: http://cialunalunera.com.br/espetaculos/prazer/


[1] fonte: O tempo e o Cão, livro de Maria Rita Kehl que analisa a relação entre depressão e capitalismo.

[2] É necessário não ludibriar a realidade, esse tempo que falo tem sua materialidade, está nesse país, está numa classe que é a classe que pode frequentar teatros em centros culturais financiados por bancos que nos desejam uma boa diversão. O mundo em que se passa Prazer é o mundo daquele centro cultural, daquela platéia que busca em uma sexta à noite o quê? cultura? diversão? aprendizagem? transcendência?  alívio do tédio? matar as horas até amenizar a hora do rush? Estão ali essas questões, entre nós em nossas poltronas numeradas e entre eles no risco do palco.

A imperativa literatura de Cortázar

 

Não se lê Cortázar impunemente. A leitura de seus textos (que podem ser poesias, contos, teorias críticas, fábulas e nada disso, porque tudo isso são rótulos que são muito pouco) demanda uma adesão que provoca uma experiência transformadora.

“Muito do que escrevi se qualifica sob o signo da excentricidade, porque nunca admiti uma clara diferença entre viver e escrever; se ao viver consigo disfarçar minhas circunstâncias, não posso porém negá-la no que escrevo porque escrevo precisamente por não estar ou por só estar pela metade. Escrevo por incapacidade, por sempre deslocação; e como escrevo num interstício, estou sempre propondo que os outros procurem os seus e por eles olhem o jardim onde as árvores têm frutos que são, naturalmente, pedras preciosas. O monstrinho continua firme.”

Critérios para julgar a arte são sempre uma bola fora. O próprio Cortázar vai dizer em uma carta que entender algo é deixar de vê-lo. Assim, fixar a experiência artística – sempre singular – num amontoado de conceitos frios e explicativos será uma eterna tentativa falida. Se há algum critério que pode ser lançado dentro desta falha já declarada alguma perspectiva interessante diante dessa ação humana que é sempre estranha é o que mede a arte pela transformação que esta provoca. Em outras palavras, a experiência artística real (e podem gargalhar com a ousadia de ainda usar esta palavra) é aquela que exige de quem a vive uma mudança de vida. Não me interessa muito desenvolver um elogio a este critério ou expor seu grau de veracidade, mas apenas o utilizar como o melhor critério para abordar essa literatura que se desmancha e transborda e não cabe nos caducos critérios da seríssima Teoria Literária. Se pretendo falar de Cortázar é pela faísca que sua obra nos causa e, então, pouco importa uma crítica que se vale de sobriedade e distância, por aqui é pura empatia e contágio (o que ratifica minha tese, só para apontar que também há lógica) .

O que Cortázar propõe torna-se um imperativo quando entra pelos olhos, percorre estruturas internas e se fixa no estômago, nos poros e em todas as estranhas partes que são o corpo. E assim se abre como uma janela exigente: A vida como antes se constituía amolece, mais grave, tudo adere. O que se passa é a impossibilidade de algo ser banal – acordar, comprar o pão, atravessar a rua, tudo transborda um imenso risco. A influência que essa literatura tem é decisiva, pois modifica a cotidianidade, aquilo que é humano e passa longe do sublime. Assim, o que se altera é a percepção da existência – e não de uma simples sensibilidade momentânea concentrada no momento de leitura ou de contato com a arte -, tudo se mostra como é. Tudo palpita e há milhões de tons e poeiras e aromas nos contagiando de forma que cada passo exige muita atenção, não para se proteger, mas para ser numa entrega consentida que é um gozo do todo.

“Quando abrir a porta e assomar à escada, saberei que lá embaixo começa a rua; não a norma já aceita, não as casas já conhecidas, não o hotel em frente; a rua, a floresta viva onde cada instante pode jogar-se em cima de mim como uma magnólia, onde os rostos vão nascer quando eu os olhar, quando avançar mais um pouco, quando me arrebentar todo com os cotovelos e as pestanas e as unhas contra a pasta do tijolo de cristal, e arriscar minha vida enquanto avanço passo a passo para ir comprar o jornal na esquina”.

‘História de Cronópios e de famas’ limpa do hábito nossas tão comuns ações de chorar, cantar, dar corda no relógio… Descobre estas do nada extraordinário em que as enfiamos na rotina de ser humano. O olhar que Cortázar instiga às coisas e à existência é de uma transformação preciosa, principalmente em tempos em que a rua é mais passagem e vitrine do que espaço de contaminação, horror e encanto. A mudança de vida que Cortázar exige é política. Através da travessia de seus olhos se retira o véu plástico que corrói a matéria e a vida humana. O olhar se alonga e resiste ao narcisismo contemporâneo. Cortázar abre um sol na pele, um gosto de vida e nos faz ver. Essa visão que conhece e não reconhece, mas se espanta e delicia com as coisas, dá à existência uma fertilidade que a todo tempo nos é roubada. O extremo poder político que a obra de Cortázar possui não se dá então em um engajamento que ordena ideologias em versos, mas no modo como seus labirintos ardem às percepções.

 

“Essas crises que a maioria das pessoas considera escandalosas, absurdas, eu pessoalmente tenho a impressão de que servem para mostrar o verdadeiro absurdo, o absurdo de um mundo ordenado e calmo, com um quarto onde diversos caras tomam café às duas da manhã, sem que, realmente nada disso tenho o menor sentido, a não ser um sentido hedonista, o bom de estarmos ao lado deste aquecimento que se prolonga tão gostosamente. Os milagres nunca me parecem absurdos. O absurdo é aquilo que os precede e os que vem depois.”

 

O que Cortázar não sabe lidar e desafia em cada um dos seus textos que recriam a realidade é que esta seja constituída por fatos límpidos, limitados e óbvios. O sujeito, por exemplo, não é de forma alguma compatível com aquele que Kant ditou (e que assim transformou as vias de toda a existência humana, uma dose a mais de angústia para os ombros); existe sim o limite, somos todos recortes, cada um tem um grau e tom diferente de visão. Mas em Cortázar tudo está numa transfusão contínua, a influência é absurda (quase tão insuportável quanto o limite firme de Kant), todos estamos imundos de contato. E aí está a diferença do poeta (e de outros seres muito próximos dos Cronópios): a poesia tem uma questão ontológica. A poesia é um meio de alongar estes limites, é o desejo de ser. O poeta, então, é aquele que não se aguenta em seu ser, que precisa construir em palavras os outros – e em cada verso é uma nova realidade/ser que salta. (Aqui me contenho para não citar uma dúzia de poetas que escreveram sobre esta necessidade, mas cito dois: um óbvio, Fernando Pessoa e Manoel de Barros, além de Bob Dylan que não só escrevia como incorporava Outros).

Há assim uma relação muito importante e forte entre esta particular Visão, a poesia e os limites. E aí podemos escavar como essa poesia é política e modificadora. Quando se ampliam os limites, se compactua mais com outros seres e a visão se estende. É assim que se encontra a realidade pulsante, que se saboreia o outro e toda a vida ganha uma textura imensa, decisiva e até mesmo atordoante. Isso é de uma preciosidade máxima quando a matéria plástica corrói em velocidade pós-fordista a surpresa, o prazer genuíno, a graça de olhar um outro. O infértil mundo que vivemos entre hambúrgueres, vitrines e “comunicação” excessiva cria homens que nas ruas caminham voltados pra dentro com olhos cheios de hábito, o peito em pleno tédio, incapazes de ver, sem interesse pelo outro, vidas submersas em eu (essa fantasia humana que é o deus no sistema capitalista).

A poesia que é impulsionada por este desejo de ser é um exercício de visão. Porque inventar é um modo distinto de ser: ”…e se fazer de é muito mais que ficar à sombra: é feitorar com isenção de riscos, é gozar da mesma ranhura… pertencendo eventualmente”[1] A poesia do dia-a-dia, banalizada entre batatas-fritas e jogos de amarelinha, transforma a realidade quando estende os limites de cada “eu” e instiga a afirmação do inescapável contágio.

Cortázar nos exige rever o mundo, isto é, lavarmo-nos da apatia, da existência catalogada, ir às ruas com atenção e desenfreio, ver cada homem, se possível ser muitos, amar como quem descobre uma nova América em cada corpo, comer na surpresa de que existe comida, de que existem dentes, intestino, de que existe.  O flerte entre Surrealismo e existencialismo que Cortázar compõe é isto: O fantástico é que existimos, isso nos impõe a surpresas que sempre estamos escolhendo. Cortázar cola esse lembrete em nossos olhos, nos reacorda e vemos que só há vigília (porque só há sonho.).


[1] LANNACE, Ricardo Retratos em Clarice Lispector, pag. 47 Ed. UFMG, Belo Horizonte, 2009.