Sobre a marcha das vadias:

Sábado, 13hrs, estou esperando uma amiga em uma pracinha próxima ao metrô de Botafogo, na mesa ao lado uma garota discute indignada com o pai:

– Pai, eu tou falando de sair! Eu não tou falando de ir dormir com ele, eu quero poder sair com as minhas amigas e voltar na hora que eu quiser.

Ela fala alto e não se incomoda se alguém escuta. Ele ranzinza, pede descrição. Ela continua repetindo mais ou menos a mesma frase. A questão eu e tantas amigas já vivemos: nossos pais e mães preocupados com nossa integridade física e moral, nos cercando de regras para que nós não sejamos confundidas com vadias. Menina de família não usa roupa curta. Menina de família não sai à noite sem hora pra voltar. Menina de família não dorme fora de casa. Eu ali esperando a amiga para irmos para a Marcha das Vadias já tinha até me esquecido do começo de tudo. Aos 23 anos os problemas da adolescência parecem pertencer ao século passado, certamente…

Espero que aquela garota conquiste seu direito de sair à hora que quiser com quem quiser e que quando isso acontecer ela perceba que a repressão começa de casa, porque a repressão está no mundo – em outras palavras o particular é público. A Marcha das Vadias são muitos gritos, mas também esse grito de uma garota de 16 anos que escuta do pai “mas assim vão achar que você é uma vadia” e só pode responder “e daí, se eu for vadia?”. Ser feminista e se denominar vadia é superar moralismo que só atrasam nossa possibilidade de gozar de nossa vida, de amar sem pudor, a partir do que somos materialmente, e, por isso, cantar, dançar e gritar palavras que não são de ordem: “pau”, “buceta”, “cu”, “chupo”, “dou”, “faço”, “corpo”. O feminismo das vadias não é um feminismo em busca de direitos dentro de um mundo neo-liberal. Não nos interessa a imagem de mulher moderna e independente, gritamos um lindo foda-se para os slogans das revistas, não queremos imagem alguma, não queremos ser chiques, não queremos a inteligência, nem a elegância, às vezes não nos levamos à sério e debochamos até de nós mesmas (ué, mas feminista não é um bando de chata sem humor?). Nós, vadias, queremos é inverter a ordem patriarcal que pede respeito para promover intolerância. Nosso desejo é estar no mundo a partir do que somos e ser a partir do que queremos. Nosso desejo é de um mundo que apenas nos deixe ser, um mundo que nos respeite se quisermos ser vadia, travesti, gay, hétero, homem, mulher.

deu é amor <3

E o que isso tem a ver com a igreja católica e o papa Francisco? É que o termo “culpa cristã” não é em vão. Nenhuma instituição do mundo cagou tanta regra quanto a igreja católica. Eu tento entender e respeitar a fé independente do que ela seja – eu sou ateia  mas quando vou à praia fico acreditando em deus, tenho também minhas dúvidas e mitos. Então, não estou escrevendo isso para atacar a fé, mas é importante pensar sobre o que se reza e pede. A religião católica não nos infiltrou apenas de moralismo, mas de uma relação com o mundo que o ignora em sua materialidade. Desde criança – especialmente se você nasce em um corpo de mulher – somos educados para nos afastar dos nossos corpos, para cobrir, para ter vergonha, para ter pudor. E é nisso que está, para mim, o mais bonito da Marcha das Vadias porque ela propõe uma revolução que se dá pelo corpo e não apenas o corpo da mulher, embora essa seja a questão mais urgente, mas todo corpo em sua possibilidade de prazer e dor. E a marcha não é um meio para se conquistar os direitos das mulheres, ela é em si mesma um ato de alegria e resistência. Enquanto caminhamos pela praia, cantando, berrando, chocando senhorinhas, divertindo outras, dançando, vadiando, já conquistamos algum tipo de revolução, nem que seja a das mais frágeis, da ordem do afeto que não se vê, mas que se sente em cada pelozinho arrepiado.

Mini-feminista lutando contra o machismo.
Mini-feminista lutando contra o machismo.