Frances Ha, a vida na era da propriedade privada

Todo texto guarda uma motivação egoísta. Há os poemas prontos para seduzir, os panfletos políticos, autoconvecimento, reafirmações, o gozo com a linguagem… Quase tudo que escrevo vem dessa necessidade de firmar em matéria – caneta encostando no papel cada sílaba até formar o significado – o que eu aprendo distraída. Esse texto vem de um lugar bem óbvio, sua mensagem está há anos no telefone sem fio da civilização, poderia escrever um guia para sair na revista entre as receitas e técnicas de emagrecimento. O que está na cara, o que vem como moral, dica, conselho, mantra, nunca adere. de que adianta, então, eu falar? Tentativa (arrogância – necessária) de ser um degrauzinho na percepção, de que eu não descreva minha verdade, mas que eu a perca e busque e pratique o exercício que é a aprendizagem.

Que o amor deve ser livre, que a posse nos torna mesquinhos e que a vida está do lado de fora, abundante de feridas, pedras e rosas-paralelepípedos, são obviedades repetidas há mais de meio século.

E no entanto, em 2013, estabelecimentos da Lapa me cobram até dois reais para usar o vazo sanitário.

A propriedade privada não é cruel apenas em limites geográficos, mas também nos determina no que é emocional. Edifícios, fones, aplicativos e relacionamentos sérios fazem parte de um mesmo projeto de mundo (e cada um guarda sua própria maravilha).
Dois filmes carregam essas questões, os dois são fábulas contemporâneas: Medianeras e Frances Ha. Enquanto o primeiro tem um tom de denúncia-tentativa e usa o problema dos limites territoriais para aludir à reclusão crescente em um mundo individualista, o segundo percorre, sem narrativa ou discurso crítico, uma história que ocorre todos os dias em diferentes graus.

A história de Frances Ha é a história da perda das propriedades privadas. Frances tem uma vida mais ou menos legal, mais ou menos frustrante, mas ela tem uma vida. Até que a ordem começa a despencar: primeiro ela perde o namorado (mas isso não tem muita importância na verdade)¹, depois ela perde o apartamento (aí sim, uma problema real), depois ela perde a melhor amiga, o fim do mundo, então, ela encontra um novo apartamento, mas perde o emprego e com isso perde de novo o apartamento. Tudo o que ocorre na trama é em função dessas posses que estruturam a vida de Frances: minha melhor amiga, meu apartamento, meu emprego. Obviamente não são perdas nem um pouco fúteis, mas neste cado nada é de uma gravidade alarmante: Frances é uma loirinha de 27 anos, instruída, com pais presentes em casa própria (mas que moram longe do sonho juvenil que é Nova Iorque) e inúmeras possibilidades de empregos que pagam a conta embora sejam extremamente desinteressantes. Então por que Frances Ha existe? Por que entramos em uma sala de cinema (com nossas lugares assegurados no momento da compra) para nos comover com a história desse filme?

Há uma cena decisiva que pode justificar ou não o filme. É essa cena que defini quem vai amar Frances Ha e quem vai esquecer. Frances está no ápice das perdas quando vai jantar no apartamento de um casal que tem, tem a fábula completa: não só um apartamento, mas dois, em Nova Iorque e em Paris, propriedade, amor, emprego, sucesso, filhos. Frances não tem nada, nem uma ambição para se afirmar. Um tanto fora de si – pelo contraste, pelo álcool -, ela diz, em um tom que vai do adorável ao maníaco, o que deseja: o que Frances quer para sua vida é um momento, um momento – desses de filme – em que ela está numa festa conversando com algumas pessoas e o seu amor também está nessa festa conversando com outras pessoas, então eles trocam um olhar, um olhar que é um elo, uma confissão, um refúgio. Frances não quer encontrar só essa pessoa, mas o olhar dela que vai infiltrar um ambiente público com uma segurança privada. Não é só o amor, mas o abrigo que este pode ser.

Frances Ha não é apenas a história da perda das propriedades privadas, mas da era em que a vida só se sustenta nesse âmbito. É preciso amar, é preciso ser, é preciso ter: as pessoas, o trabalho, a casa, a narrativa sempre em primeira pessoa. Quando a vida é ressignificada a partir do privado nos tornamos mais propensos à neurose, às tempestades em copo d’água e desejos anêmicos. A classe média sofre, não adianta debochar de sua dor, antes de menosprezar, ir até o sintoma que está na nossa comoção (no cinema, nas formaturas, nos matrimônios, academias, lojas de departamento) e encarar que as angústias passíveis ao ridículo são o berço dos horrores reais.

O capitalismo, como esses filmes, também é feito de fábula; toda mercadoria ocupa uma função exata em cada narrativa.
O amor tem lugar para você?

[1] É interessante que há uma nova geração de mulheres produzindo séries e filmes nos quais o amor romântico não é a questão central das protagonistas. Embora a ausência de uma preocupação quanto a ter ou não um namorado seja um avanço em termos de gênero (é ótimo ver uma personagem que nem faz uso  da palavra relacionamento e muito menos casamento), isto não significa que Frances não tenha uma postura que romantiza a vida.  Além disso, é óbvio que a segurança de ser amada recai sobre sua melhor amiga de modo que é só uma transação de posses e não uma transformação definitiva (e feminismo é mais interessante quando busca uma mudança da estrutura patriarcal).

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É preciso abrir mais janelas

– ou ensaio sobre Medianeras.

É preciso construir mais janelas. Que há os tetos que acostumamos só para desligar um corpo já amortecido. O chão de cada dia tecido na agonia de quem bate cabeça no mesmo, censura geométrica. E os meios que criamos pra permanência das vitrines – as novas celas. Um oco de arrastar pedras impunemente. A vida em esteira infértil.

Mas esta pavimentação ainda não adstringiu meus poros. Que são dilatados como a mania de encontros. Minha derrota é sempre a mesma: todos tem freios nos nervos e o outro só tem gosto quando não se ultrapassa o limite dos pronomes. Limite, essa coisa que os filósofos crentes que são de linhos d’ouro afirmam, esquecem o corpo fluxo imperativo que é feito de pequenas mortes e gozos. Sinto meu útero e percebo a transfusão dominante entre as mil folhas.

O tempo é de clausuras. na pele. nos prédios. nas vistas. A ilusão do limite, do Eu,bolha perambulante, constrói a realidade em esbarrões. Autismo por opção, perceber mais ofertas que um corpo vivo.

Andamos encharcados de Eu em um contato que não acerta passo com o contágio universal. Nossa vida é tão delimitada em linhas quanto os apartamentos. Fazemos de cada um de nós galáxias impermeáveis. A rotina é esse debater doentio, em busca, em busca, em busca. De uma salvação. De um pouco de amor. De um ar tão livre e verde quanto as utopias que cerramos como parte do ridículo da adolescência.

Repetimos todos os dias os erros. Caímos no cômodo de caber no tempo, na cidade. E da busca acabamos só no alívio. A vida pequena, a migalha que engolimos por carência e os pontos cristalizados – aquele resto da criação que nos torna preciosos, espaço possível pra se falar de “eu” – que descuidadamente cedemos porque é preciso ser homem, ser mulher, trabalhar, pagar as contas, papos médios, calar a dor, se embriagar e esquecer em qualquer sexo morno e morrer sem raízes e laços.

O Mal-estar desta história de analgésicos e prazeres plásticos. Os olhos vidrados em corredores espelhados. A melancolia porque nos vemos tão pequenos (não gozamos mais a beleza do todo). Essa tentativa diária que é a espera de uma salvação, mas salvar-se não é vida em fantasia, sem risco, sem dor. Viver não tem cura. E temos feito de nosso caminho um estático narcísico.

Abrir mais janelas (pra que entrem todos os insetos, que se aceite nosso inevitável perigo que também aponta o quão tudo é maravilhoso). A entrega às vezes tem um gosto de sangue e de um peso de sentir e compactuar demais. Se desprender da própria pele e escavar uma brecha pra arriscar, arde. Até que bate o fresco de Eu ser um arrepio, como capim nascendo nos dedos e então se transcende das malditas paredes.

(vejam Medianeras!)