Prazer

Prazer é um espetáculo apresentado pela Companhia Luna Lunera que parte da obra Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres de Clarice Lispector. Não se trata, no entanto, de uma adaptação, a peça apenas se apropria do tema sobre o qual o livro se organiza: O prazer como enfrentamento ao risco da dor.

A personagem do livro, Lóri, se retrai da experiência cotidiana e de seus possíveis prazeres pelo medo da dor. A questão de Lóri é que essa se sente acossada pelo universo (por si própria?), pressente as possibilidades que cada ato guarda e não se atreve ao dia-a-dia humano feito de perdas e conquistas, prefere a totalidade constante do sofrimento. É, então, que através do amor – um amor pedagógico – Lóri começa a compreender que a fuga da dor mina qualquer chance de felicidade e a condena a uma dor ainda maior. Para ser capaz de viver esse amor Lóri aprende os prazeres, os momentos de graça humana, contempla a intensidade da matéria efêmera.É claro, a alegria não vem impunemente, o risco é constante, mas para se construir uma vida humana é preciso enfrentá-lo, apesar de. Para ganhar antes se faz necessária a aposta. Freud, ao explicar o narcisismo, define de modo exato a questão:

Um forte egoísmo protege contra o adoecimento, mas afinal é preciso começar a amar, para não adoecer, e é inevitável adoecer, quando devido à frustração, não se pode amar.

Prazer situa esse medo dentro de nossa realidade pós-moderna. A diferença temporal entre o livro e a peça não parece suficientemente grande para que existam profundas mudanças históricas, porém é válido ressaltar que Uma aprendizagem é um livro de 1968 e, refletindo as tendências daquele ano, é o livro de Clarice mais próximo de um engajamento político. Já Prazer se dá neste tempo neoliberal em que a conquista de algumas liberdades (o Brasil democrático, por exemplo) custam o preço de repressões ainda mais íntimas.  Este abatimento que ronda os personagens de Prazer  poder ser visto como sintoma de um mundo em que a possibilidade de mudança parece mais inalcançável e nosso vigor quanto seres humanos é reduzido a medíocres existências isoladas em apartamentos. Essas são especulações minhas, o tema político não está presente na peça de modo literal, porém é impossível não associar esse mal estar individual às coordenadas de nosso período histórico (até porque a dor individual acomete a tantos que é realmente um problema social, estatísticas comprovam que em breve a depressão matará mais do que as doenças cardíacas[1]) .

prazer

De fato, a Companhia Luna Lunera me parece criar obras sobre/ para nosso tempo, qualidade que considero essencial em qualquer empreitada artística. Assisti apenas duas peças da Companhia, Prazer e Aqueles Dois – que também parte de uma obra literária brasileira, um conto de Caio Fernando Abreu. Nessa peça, do mesmo modo que em Prazer, se fazem presentes as angústias e pressões da vida urbana, as mesquinharias e burocracias das repartições públicas e como brecha, os encontros e encantos que estão sempre por aí. São duas peças que criticam com compaixão as crises pequeno-burguesas[2] que nos acometem, ao mesmo tempo em que insinuam modos de sobrevivência dentro de tais circunstâncias claustrofóbicas. Como já disse é uma característica que me ganha, acho que só me interesso pelo que diz respeito ao meu tempo. Produzir qualquer coisa sobre o presente é um grande risco, mas a Cia. Luna Lunera parece tomar este risco, o risco da proximidade, como seu impulso. É nesta proximidade que se configura de modo mais brilhante a critica de Prazer, pois este é mesmo um tempo que se dá em pé-atrás.

Parênteses para mapeamento de tendências:

(Nosso tempo feito de velocidades e clausuras inéditas. Feito de: repartições, quitinetes, condomínios, áreas verdes calculadas, medo constante, a confusão entre prazer e lazer, a obrigação do gozo, mas primeiramente, a evitação da dor. Há um desencontro profundo entre as novas tecnologias de comunicação, irmãos dentro da mesma casa se comunicando via facebook (na verdade, o desencontro sempre houve e só está acompanhando as novas possibilidades de signos, quantos significados são possíveis em um curtir?). A internet contribui para fincar a ironia como língua materna (http://www.revistaserrote.com.br/2013/01/como-viver-sem-ironia-por-christy-wampole/).  Só que não, só que ao contrário, rs, entre tantos outros tiques de refúgio. A exposição constante parece ter reforçado o medo do ridículo, assim se evita qualquer fala própria e engajada, mais seguro pular de piada em piada. OBS: É notável que Caio Fernando Abreu e Clarice Lispector são dois autores alvos da ironia, tanto pela popularidade quanto por seus textos viscerais que para alguns é ridículo – mais um ponto de enfretamento dos riscos para a Cia.)

Fim do mapeamento.

A crítica de Prazer ao nosso pé-atrás contemporâneo não é elaborada na distância fria que se costuma associar a tal palavra. O prazer, como afirmação possível diante da paralisia do medo, não menospreza a potência de tal sentimento, o encara e provoca, beirando o quase sem sentido das depressões (o texto de Clarice, como alguns casos de depressão, demanda uma forte empatia para que não soe como um exagero histérico). Por vezes a peça parece se demorar em casos irrelevantes, mas a vida também não é assim em alguns momentos? Dar voltas sem sair do lugar, se enfiar em discussões de motivos minúsculos, remoer mágoas, situações tão recorrentes… E como se sai desses redemoinhos? Como se cria um movimento novo? É isto que me sinto incapaz de resolver neste texto. Pois a peça também não resolve esta questão, não é um guia prático de como sobreviver a melancolia da pós-modernidade, não se aponta o caminho a seguir. Os atores não estão ali repetindo uma mensagem, não é auto-ajuda, é uma experiência. Aí é questão de sentir ou não, se comover com a tentativa que aqueles seres humanos estão fazendo ali em cima daquele palco (e por que não ao seu lado em suas tentativas de sexta à noite?) ou não, é questão de entrega. A entrega ao prazer não é defendida, ela é executada bem na nossa cara e o contagio é certo, o corpo reage em lágrima e arrepio. Não cabe muito explicar o vigor de Prazer, o gozo não se sujeita às palavras.

*Usei neste texto vários termos repetitivos em minha poesia, são parte das minhas obsessões e reflexões. Uma aprendizagem, livro que inspirou Prazer, é muito caro a mim, trouxe entre tantas reviravoltas pessoais, o tema da minha monografia. Queria muito escrever um texto mais calmo e claro sobre a peça, mas sou incapaz justamente por essa proximidade. No blog da Luna Lunera é possível encontrar os dados que meu relato não comporta: http://cialunalunera.com.br/espetaculos/prazer/


[1] fonte: O tempo e o Cão, livro de Maria Rita Kehl que analisa a relação entre depressão e capitalismo.

[2] É necessário não ludibriar a realidade, esse tempo que falo tem sua materialidade, está nesse país, está numa classe que é a classe que pode frequentar teatros em centros culturais financiados por bancos que nos desejam uma boa diversão. O mundo em que se passa Prazer é o mundo daquele centro cultural, daquela platéia que busca em uma sexta à noite o quê? cultura? diversão? aprendizagem? transcendência?  alívio do tédio? matar as horas até amenizar a hora do rush? Estão ali essas questões, entre nós em nossas poltronas numeradas e entre eles no risco do palco.